O JOGO perguntou: os clubes da I Divisão querem acabar já e sem campeão

O JOGO perguntou: os clubes da I Divisão querem acabar já e sem campeão
Marta Fernandes

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À semelhança do que aconteceu em diversos países, a maioria dos clubes portugueses prefere dar a época por terminada

Ao contrário do que aconteceu nas restantes modalidades de pavilhão, no voleibol os campeonatos da I Divisão masculina e feminina foram suspensos com uma data definida: 31 de agosto. A Federação Portuguesa de Voleibol (FPV) colocou de parte a hipótese de os nacionais serem retomados antes, embora, e pelo que O JOGO apurou num inquérito realizado junto dos 14 clubes - só Benfica e Sporting de Espinho não responderam -, muitos atletas estrangeiros foram dispensados e regressaram aos seus países, o que leva a maioria a preferir dar o campeonato como terminado, mesmo que isso signifique não se entregar o título.

Com os plantéis desmembrados, recomeçar depois de 31 de agosto não parece fácil e a maioria dos clubes prefere a solução mais lógica, a de terminar já. "Jogar em setembro seria distorcer a verdade desportiva, tendo em conta que haverá a habitual circulação de atletas para a próxima época", diz Rui Gaspar, diretor da Fonte Bastardo, que já tinha garantida a presença numa das meias-finais do play-off para discutir o título nacional. Com que jogadores se iria recomeçar é, aliás, a dúvida da maioria.

O Benfica liderava isolado, com vitórias em todos os 24 jogos, mas ainda não tinha assegurado o triunfo na primeira fase, pois o Sporting estava a cinco pontos e faltavam duas jornadas. Fonte do Bastardo e Sporting de Espinho tinham garantido os outros dois lugares na discussão do título em play-off. Marcel Matz, treinador dos encarnados, comentou o assunto em entrevista à BTV, mas sem se alongar: "Estávamos a realizar uma temporada tão boa quanto a do ano passado, ainda não tínhamos perdido nenhum jogo, por isso tínhamos boas chances de conquistar o título. Os jogadores ainda têm uma expectativa sobre o que poderá acontecer."

A verdade é que algumas das mais importantes ligas europeias já foram dadas como encerradas - se o voleibol recomeçar em maio, junho ou julho, será com provas de seleções -, mesmo estando a decisão a causar enormes prejuízos aos clubes. E todos temem os reflexos que isso possa ter na próxima época.

AS QUESTÕES

1- A época deve recomeçar em setembro ou ser dada já como terminada? Neste caso, deverá existir campeão?

2- Já sentiram o impacto financeiro da paragem do campeonato?

AS RESPOSTAS

Sporting (Posição oficial do clube)
1: "Não nos devemos precipitar e, tal como já defendemos em relação a outras modalidades, devemos esperar até ao limite por uma decisão. O Sporting será sempre pela verdade desportiva e queremos jogar e vencer dentro de campo, mas para tal, em primeiro lugar, deverá estar a salvaguarda da saúde pública."

2: "Todas as instituições e organizações já devem ter sentido esse impacto. Estamos a caminhar a passos largos para uma das maiores crises económicas e sociais, mas para já é impossível prever os impactos desta crise. A única certeza que existe é a de que haverá um antes e um depois covid-19".

Fonte Bastardo (Rui Gaspar, diretor)
1: "Não concordamos com o começar da próxima época finalizando esta. Seria distorcer a verdade desportiva. Haverá a habitual circulação de jogadores entre clubes e não faz sentido. Concordámos com a suspensão, por dar margem de manobra à Federação para ouvir os clubes e as associações sobre como finalizar o campeonato e saber se atribuem ou não o título de campeão, ou como vão fazer os apuramentos para as competições europeias, descidas e subidas. Face às circunstâncias, o título não devia ser atribuído. Para situações excecionais, medidas excecionais."

2:"Vamos ter de dar a volta a isto. A situação em termos financeiros não é agradável. Todos os patrocinadores compreendem a situação, mas em relação à próxima época estamos a analisar, para saber se teremos alteração no orçamento."

Ac. São Mamede (Marta Leão, diretora do voleibol)
1: "Não é uma resposta só minha, é da sociedade, não há muitas hipóteses de acabar o campeonato. Preferia que a época fosse dada como terminada. Não faz sentido prolongar e segurar pessoas que podem tentar novos rumos. Até nem temos problemas com estrangeiros; temos apenas um e já faz parte da família academista, está connosco há três anos. Mas para outros clubes é complicado. Não faz sentido pensar se deve haver campeão. Éramos quintos, lutaríamos pela Taça Federação, mas agora isso não diz nada."

2: "É no campo financeiro que estou focada, a tentar ajudar os nossos jogadores, dos quais seis são simultaneamente nossos treinadores. Estou a sensibilizar a família academista, para que continuem a regularizar as mensalidades. Dos patrocinadores, um cortou logo."

Esmoriz (Guilherme Costa, presidente)
1: "Preferíamos disputar a época até ao fim. Suspender até 31 de agosto foi um pouco prematuro, quando na maioria das modalidades não foi isso que fizeram, sofremos um pouco por antecipação. A federação é livre de tomar as decisões que achar mais convenientes, mas ninguém sabe o dia de amanhã, e eu acho que a partir de maio, ou se calhar junho, até haverá condições para se retomar o campeonato. E os campeonatos ganham-se é dentro do campo, neste caso no pavilhão."

2: "O impacto é enorme e veio complicar a vida de algumas empresas nossas parceiras; não sabemos se contaremos com elas. Não podemos depender da verba da autarquia, destinada à formação, e temos de arranjar garantias para pagar aos atletas seniores. A próxima época vai estar muito dependente desta crise que atravessamos."

V. Guimarães (Filipa Azeredo, coordenadora do voleibol)
1: "Era mais fácil para todos se tivesse sido dado como terminado. Não sei como vamos jogar em setembro, se a maioria das equipas tem contratos até final de abril, com extensão para o play-off. Essa é a nossa dúvida. Será com a equipa da próxima época? Para este adiamento, mais valia cancelar tudo, como estão a fazer em outros países. Além do título, há que definir as descidas e as subidas. Como Vitória, para o masculino o lugar é indiferente, mas no feminino é importante, porque podíamos subir. Por esse prisma, devíamos ter um campeão."

2: "Há despesas que vieram todas agora e com valores sobrevalorizados, como as das viagens. Os patrocínios dão valores faseados ao longo da época e algum dinheiro não entrará. Temos a formação parada, o que também faz diferença. É toda uma máquina que falha, é muita receita que não está a entrar."

Caldas (Mário Pedro, presidente)
1: "Sinceramente, não há grandes alternativas e acabar já era preferível. Alguns jogadores já regressaram aos seus países de origem, logo torna-se impraticável discutir o campeonato após 31 de agosto. Tal como aconteceu com outros campeonatos na Europa, era começarmos a preparar a época 20/21. Se a fase regular tivesse terminado, se calhar diria que o campeão era o seu vencedor. Faltando duas jornadas é complicado. Podia acabar sem campeão ou dar-se o título ao campeão do ano anterior, algo que não era inédito."

2 "Já sentimos algum impacto financeiro. Tínhamos acordos com patrocinadores que não eram pagos antecipadamente e muitos deles, também derivado às suas áreas de negócio, como turismo e restauração, já expressaram alguma preocupação. Não sabem se vão conseguir apoiar esta época e na próxima."

Clube K (João Pimentel, presidente)
1: "A questão primordial é a saúde e é isso que temos de tratar. Só depois devemos pensar se terminamos já ou se ainda vamos concluir o campeonato. É um assunto de segunda linha, sobretudo para um clube como o nosso, ligado à área social. Quanto a existir campeão, a federação encontrará a melhor solução possível, que não terá a concordância de todos, mas isso é normal".

2: "Sentimos as dificuldades inerentes a um clube que vai honrar os seus deveres, como sempre o fez ao longo destes 20 anos. Costumamos angariar dinheiro com o alojamento e alimentação de outras equipas; não há jogos, é menos uma receita. Não sabemos com que apoios contaremos, que empresas poderão continuar a ajudar. Vamos pensar se continuaremos a competir com duas ou só com uma equipa, pois temos masculina e feminina. Tudo será equacionado."

Castêlo da Maia (Luís Azevedo, presidente interino)
1: "Não sabemos quanto tempo esta pandemia vai durar e os estrangeiros já foram para casa. O ideal será começar a pensar na próxima época. Terminando assim, penso que não faz sentido atribuir-se um título a quem de facto não foi campeão. Contudo, é um facto que as equipas da I Divisão podem reivindicar a permanência, enquanto as da II Divisão que investiram para isso podem reivindicar que devem subir."

2:"Estamos a começar a sentir, vamos mais uma vez tentar honrar os nossos compromissos e chegar a acordo com todos os nossos colaboradores. Ainda não tivemos notícias dos patrocinadores, mas algumas verbas já não entraram".

Famalicense (José Manuel Silva, vice-presidente)
1: "O mais correto é o que vai acontecer, independentemente das consequências desportivas. Estamos na série dos últimos e não sabemos como vamos fazer o plantel para a próxima época, se para a I ou para a II Divisão. São investimentos completamente diferentes; não é exequível esperar até setembro? Não se recomeçando, penso que ficaremos sem campeão. Temos 10 modalidades e, se no caso do voleibol não nos importávamos que o campeonato acabasse nulo, porque era certo que não descíamos, no hóquei em patins somos segundos na II Divisão e queremos subir, logo a mesma decisão já não nos interessava".

2: "No nosso caso o impacto financeiro ainda não é relevante, as empresas locais não falaram connosco, mas já sabemos de antemão como é que isto vai funcionar, com esta crise as pessoas não vão poder ajudar e vai ser difícil para nós também cumprir".

VC Viana (Paulo Alves, presidente)
1: "Temos de aguardar até 31 de agosto, mas as transferências internacionais já caducaram nessa altura, pelo que na eventual retoma as equipas não vão conseguir alinhar com os jogadores que iniciaram a época. Vemos com muito dificuldade o retomar do campeonato; não será uma continuidade, mas sim um início, perderá todo o sentido falar-se em acabar esta época. Estamos na 12.ª posição e iríamos para a série dos últimos, pelo que se o campeonato for dado como concluído a federação tem de decidir como reorganizar os clubes da I Divisão que podiam descer e os da II que tinham perspetivas de subir."

2: "Vivemos dos associados, dos apoios de algumas instituições, da formação, mas também do tecido empresarial, que já está com dificuldades. Existindo outras questões primordiais, e com a interrupção a tirar visibilidade, seremos prejudicados nos patrocinadores."

Leixões (Jorge Moreira, presidente)
1: "Se calhar não ia haver verdade desportiva, havia clubes que ainda tinham algo a dizer. Se este fosse um campeonato corrido, teríamos de premiar o Benfica. A federação tem de definir, por uma questão de ética e coerência, a questão das subidas e das descidas; nós estávamos no penúltimo lugar, mas não íamos descer, tínhamos equipa para a manutenção e matematicamente era viável. Posso afiançar que estamos a apostar na continuidade na I e para ficar nos seis primeiros lugares no próximo ano."

2: "Estamos à espera que a federação defina um quadro de apoio que permita a sustentabilidade e sobrevivência dos clubes, que tome posição e nos defenda perante a federação internacional. No futebol, quando um atleta estrangeiro vem para o nosso país o clube paga o certificado internacional, mas se ele renovar não paga novamente; no voleibol não acontece".

CN Ginástica, Manuel Madeira (presidente)
1: "Acho que este campeonato devia ficar sem efeito e estou convencido que é o que vai acontecer. O título não devia ser atribuído e não haveria nem descidas nem subidas. O campeonato não terminou, é nulo"

2: "Não sentimos muito o impacto, porque devemos ser dos únicos clubes que só tem jogadores amadores. Agora, a nível de formação, no próximo mês sabemos que vamos começar a ficar sem receitas. Esperamos que os pais continuem a colaborar, caso contrário o clube fica sem receitas".