"Sempre que fui campeão caí na corrida seguinte..."

"Sempre que fui campeão caí na corrida seguinte..."

Marc Márquez voltou a Espanha e falou das suas motivações e do oitavo título mundial, achando "quase impossível" superar os 15 de Agostini

Antes de ir para casa, em Cervera, aproveitando as duas semanas de intervalo após o Grande Prémio da Tailândia, onde festejou o quarto título de MotoGP consecutivo e sexto desde a estreia na categoria, em 2013, Marc Márquez foi a Madrid, ao Campus Repsol, conviver com os trabalhadores do seu maior patrocinador. No final deu uma longa conferência de Imprensa, fazendo revelações.

Como se sente regressando com mais um título?

Contente por estar, não ainda em casa, mas na minha casa desportiva. Foi um ano quase perfeito, um ano de sonho em que conseguimos o título, que era o principal objetivo. E falo no plural, porque são muitos os que ajudam no dia a dia.

Como foi a festa na Tailândia

Boa, ainda estou a recuperar a voz! Celebrámos o Mundial como deve ser, porque nunca se sabe quando vai acabar este sonho. Passamos a noite em Banguecoque, toda a equipa. Não vou dar detalhes, mas houve baile, gritos, de tudo. Desta vez não houve karaoke, mas não fez falta.

Disse ter sido um ano quase perfeito. Porquê "quase"?

Porque quando tens excesso de confiança, aparecem os erros. Foi onde menos esperava, em Austin, onde caí quando liderava com quatro segundos de vantagem. Era uma vitória quase certa, relaxei e caí. É por isso que devemos estar sempre concentrados e a aprender com os erros.

Na Tailândia, fez sofrer a sua mãe ao arriscar na última curva. Ela deu-lhe um sermão?

Sim, e já me tinha dado um na sexta-feira, porque o fim de semana começou com um grande susto. Quando caímos, os que estão à nossa volta são os que sofrem mais: a mãe, o pai, toda a família sofre... Eles levam muitos anos atrás de mim, são a base, e sofrem desde o início.

Agostini diz que pode superar os 15 títulos dele. Que responde?

Dou-me bem com ele e ouvi isso. Não gosto da palavra "impossível", nem sequer a digo, mas isso é quase impossível. Significa ganhar o dobro do que tenho até agora. Cada um viveu a sua época e não ando obcecado com números ou pessoas, só quero desfrutar da minha paixão.

Diz sempre que cada um chega onde os rivais o levam. Precisa de um Fabio Quartararo e um Jorge Lorenzo mais fortes em 2020?

Quantos mais, melhor. Embora os números não o reflitam, estamos numa época de grande igualdade mecânica. Digo isto porque há quatro fábricas capazes de ganhar corridas e lutar pelo Mundial. São, no mínimo, oito motos a poder ganhar, o que não acontecia antes. Temos de nos reinventar e aprender com veteranos como o Valentino [Rossi], o Jorge ou o "Dovi", e também com jovens como o Fabio ou o Viñales.

Ainda se pode melhorar depois de um ano assim?

Foi um ano muito bom e será difícil. Mas um dos meus ídolos é o Rafael Nadal e, quando o vejo jogar e me pergunto como pode fazer melhor, ele dá um passo em frente. Ou quando o Messi marca um golo; penso que não há melhor e, logo a seguir, ele marca outro. Eles são o meu espelho; vejo-os sempre a melhorar.

Na Tailândia, e depois da queda de sexta-feira, não pensou baixar o ritmo? Porque queria ser campeão ali?

Porque era o primeiro match-point. Quando se tem alguma vantagem no campeonato, procuram-se motivações novas. Na quinta-feira, já tinha dito que era minha intenção ganhar a corrida, ou pelo menos tentar. Depois são os rivais que te dizem, em pista, se podes ou não. Lutei até à última curva, porque é mais bonito ser campeão ganhando a corrida.

Em que momento da época percebeu que ia ser campeão?

-Houve dois momentos importantes. O primeiro em Jerez, depois do erro de Austin, ao ganhar da forma como queria ter feito no Texas e mostrando que a confiança era a mesma. O segundo em Barcelona, onde ganhei e vários rivais furaram.

Agora, atento ao irmão que lidera Moto2

Tendo festejado o título quando ainda faltam quatro Grandes Prémios, Marc Márquez vai ter de descobrir motivações durante mês e meio. "No Japão, a motivação será acabar a corrida, porque sempre que fui campeão, caí na seguinte", brincou o piloto da Honda, recordando já ter dito que "a intenção é acabar todas as corridas no pódio, até porque há um campeonato de construtores bem encaminhado e um de equipas que é liderado pela Ducati, mas com a Repsol a 19 pontos".

Por outro lado, Marc está atento à carreira do irmão mais novo, Alex Márquez, que, aos 23 anos, lidera em Moto2. "Está a fazer um ano muito bom. Tem subido a pulso e precisa de gerir a pressão. Eu não lhe meto mais do que já tem; que desfrute e tente", disse. Os dois irmãos já foram campeões em simultâneo em 2014, na altura com Alex em Moto3.

"Pilotos têm de saber adaptar-se"

São sete anos e 123 corridas com a Honda e Márquez somou 91 pódios, 53 deles no degrau mais alto, festejando seis títulos, enquanto colegas como Dani Pedrosa e, este ano, Jorge Lorenzo ficaram longe. Será a Honda que faz motos para Márquez ou é Márquez o que melhor entende as Honda? "Eles fazem a moto e o piloto tem de possuir capacidade de adaptação. Somos três pilotos com a mesma moto, o Jorge [Lorenzo], o Cal [Crutchlow] e eu, e todos fazemos comentários para os técnicos trabalharem", diz Márquez.