"Não há vontade de pegar na moto, só estou a pensar no que faço aqui"

"Não há vontade de pegar na moto, só estou a pensar no que faço aqui"
Carlos Flórido

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Paulo Gonçalves terá sido projetado por uma lomba. Para alguns dos colegas, o Dakar perdeu a chama.

"Nas imagens do acidente é possível ver uma lomba uns 100 metros antes do local da queda. Quando se é projetado a 150 km/h, e temos de assumir que isso aconteceu, é preciso esperar o pior", contou na segunda-feira Heinz Kinigadner, que correu o Dakar e é atualmente consultor da equipa KTM.

O austríaco foi dos raros a analisar friamente a queda mortal mais marcante da prova de todo o terreno mais dura do mundo desde a que, em 1992, tirou a vida ao francês Gilles Lalay. Entre os motards em prova, que ontem tiveram um dia de paragem em homenagem a Paulo Gonçalves, as palavras eram apenas de dor. "Não há vontade de pegar na moto. Só estou a pensar no que faço aqui, a minha vontade é ir para casa", desabafou Laia Sanz, espanhola que foi colega na Honda do "cavalheiro do desporto", como chamou a "Speedy".

Ontem, em Wadi Al Dawasir, Arábia Saudita, a Hero anunciou o abandono da corrida, para pilotos e "staff" se juntarem à família de Paulo Gonçalves, devendo estar presentes num funeral que será em Gemeses, Esposende, mas ainda com data a marcar, pois o corpo do piloto só deverá ser trasladado para Portugal hoje ou amanhã. Foi pela equipa, reduzida ao indiano Santosh - os portugueses Joaquim Rodrigues e Sebastien Buhler abandonaram logo após o acidente -, que se ficou a saber ter Gonçalves sofrido "lesões graves na cabeça, pescoço e coluna".

"Ia a todo o gás quando vi uma moto caída. Nunca é bom quando é em zona de alta velocidade. Ao chegar vi o Paulo no chão. Percebi que era sério, chamei o helicóptero e fizemos tudo o que pudemos, mas não dava resposta, lamentavelmente não dava resposta", contou ontem o australiano Toby Price, que entretanto recebera, no loca, a companhia do eslovaco Stefan Svitko. Price, a quem foi descontado o tempo de paragem, sendo quarto da geral, garantiu que "não havia nada a fazer" e admitiu que depois chegou ao final da etapa "desidratado pelas lágrimas".

Amigo de "Speedy", que em 2017 o ajudara quando partiu uma perna, Price diz que acidentes assim "não são culpa de ninguém, era o momento dele", mas admitiu que a etapa foi demasiado rápida, "com uma média de 120 km/h". E foi Kinigadner, mais frio, a contar à Speedweek os perigos de etapas assim: "Falei com o Nani Roma, que me disse estarem anotadas no roadbook lombas de areia naqueles quilómetros. Mas não se podem escrever todas as bossas no livro e ele também me disse que nenhuma justificava abrandar. Portanto, se tens todo o teu peso na moto, uma lomba de 30 ou 40 centímetros pode ter efeitos devastadores. Se não a vires, o ressalto faz saltar as mãos do guiador. O Matthias Walkner já me contou que em média vive perigos desses quatro vezes em cada etapa. O Dakar será sempre perigoso".