Reinaldo Garcia: "Foi preciso que todos apertássemos o cinto"

Reinaldo Garcia: "Foi preciso que todos apertássemos o cinto"
Paula Capela Martins

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ENTREVISTA >> Reinaldo Garcia, jogador do FC Porto, analisou a primeira volta do campeonato, que considera muito alterado pela pandemia

Por causa da pandemia, o campeonato viu uma série de jogos adiados, devido a casos de covid-19 em diferentes equipas, e a época europeia ainda não arrancou. O FC Porto também já foi vítima do vírus e Reinaldo Garcia lembra que, desde as paragens forçadas aos jogos sem público, a pandemia mudou tudo.

A pandemia é a palavra que domina o dia a dia do desporto, como tem sido lidar com esta realidade?
-Tudo gira à volta da pandemia e no desporto ainda mais, porque mudou muito as nossas rotinas: alterou a maneira de treinar e competimos sem público. Desde a primeira quarentena, em que estivemos dois meses a treinar em casa, que não tem sido fácil. O psicológico desempenhou um papel muito importante para manter o físico ativo. Dia a dia temos de nos adaptar às exigências que decorrem da covid-19.

Já digeriu o que se passou em 2019/20, com a anulação da época?

-Passado é passado e, sinceramente, não penso muito nisso, mas era normal que o campeonato fosse anulado, era difícil retomar a competição.

Como é preparar jogos num cenário de absoluta incerteza, em que nem sequer sabe se vai mesmo jogar?

-Preparamo-nos de acordo com o calendário, mediante as alterações, tentamo-nos adaptar o mais rápido possível. Já tivemos uma semana sem competir e a preparar três jogos, o que não é fácil, tendo em conta o treino pré-jogo e os vídeos.

A pandemia é um adversário além dos rivais com que joga? Acha que seja qual for o desfecho final, o título será desvirtuado pelas circunstâncias?

-É mais um obstáculo para ultrapassar. Se uma equipa fica infetada, tem de estar 10 a 14 dias em casa, o que significa que o trabalho e o treino que se pode fazer não tem nada a ver com o que se faz na pista e, ao voltar à competição, o mais normal é que a equipa não esteja no seu melhor momento. Se todos fizerem a totalidade dos jogos, e mesmo contando com as circunstâncias de cada um, o título não seria desvirtuado.

Como vê esta primeira volta do campeonato? O que se passou nas pistas do Benfica, Sporting e Tomar?

-Estamos no melhor campeonato do mundo, em que qualquer equipa pode vencer a e ainda mais na própria casa. Perdemos pontos com equipas candidatas e com o Tomar [empate], que tem vindo a dificultar a vida a todas as equipas que lá vão jogar. O FC Porto só pensa em ganhar e estas derrotas fazem-nos crescer, para melhorar. O campeonato é muito longo e podem dar-se muitas movimentações na tabela classificativa.

Fale-nos das dificuldade sentidas com a ausência de um jogador interior como Benedetto.
-Estivemos sem o Benedetto quase três meses e depois mais um mês sem o Poka, e cada um deles é importante na sua posição e na equipa em geral, o que mais uma vez nos levou a adaptar a equipa às circunstâncias.

O FC Porto manteve a equipa de 2019/20, integrando dois jogadores novos. O que sente que trouxeram à equipa?

-Ambos têm características totalmente diferentes. O Xavier [Barroso], com quem já partilhei o balneário no Barcelona, é um jogador muito completo, um defesa de garantia, que coloca ordem no jogo e com características de remate muito forte de longe: é, sem dúvida, uma mais valia para a equipa. O Ezequiel [Mena] é um jogador que gosta de levar a bola, joga mais por fora, fazendo jogar e é muito forte no um contra um.

Olhando para a classificação, vê alguma surpresa?
-Nada me admira e sublinho que é um campeonato muito competitivo, muito longo e com play-off.

Os lugares que o FC Porto tem ocupado nesta primeira volta, preocupam-no?

- Preocupa-me até certo ponto. Claro que gostávamos de estar no primeiro lugar e trabalhamos para isso. O campeonato é tão competitivo que perdes um jogo e ficas em oitavo, ganhas um jogo e sobes para os primeiros lugares.


"Foi preciso apertar o cinto"

Com o campeonato a entrar na segunda volta e as provas europeias ainda sem decisões, Reinaldo Garcia encara o futuro com otimismo.

Esta época, há cinco candidatos assumidos ao título e ainda um play-off. Tudo somado, faz desta uma época mais difícil? Gosta do play-off?

-Alguma época é fácil? Cada ano que passa, a dificuldade aumenta; as equipas reforçam-se e os rivais evoluem. Havendo play-off, um resultado negativo na fase regular pode não ser muito significativo e isto quer dizer que o play-off traz mais emoção, mas pode não premiar a regularidade de uma equipa durante a época.

O FC Porto ia defrontar a Oliveirense em casa, quando suspendeu os treinos devido à pandemia, adiando o jogo. Era o melhor momento para jogar, vindo a Oliveirense de uma derrota caseira com o Barcelos?

-No meu ponto de vista, estávamos a crescer jogo a jogo e estávamos bem preparados para receber a Oliveirense.
Qual a sua opinião sobre a criação da Taça 1947 e ainda o facto de o FC Porto não poder competir? Acha que o torneio podia ter sido recalendarizado, até por haver vários jogos em atraso a influenciar a classificação da primeira volta?

-A Taça 1947 tem um formato idêntico ao da Taça do Rei, em Espanha, um torneio fantástico de jogar tanto pelo formato como pela exigência que têm as equipas que chegam à final. É bonito de se jogar, mas infelizmente o FC Porto não pôde estar , devido à covid-19. O torneio já estava previsto para esta data e, ao tentar recalendarizar, poderia não haver dias para se jogar a prova.

As provas europeias foram adiadas e quando retomarem terão um novo formato. Que expectativas tem e que formato preferia?

-Temos de esperar para ver o que vai acontecer. De uma semana para outra muda tudo, por isso temos de estar atentos e sempre preparados para competir. Para mim, seria bom jogar, seja no formato que for.

A pandemia tem um impacto negativo na economia. Muitos clubes reduziram orçamento. Como olha para esta realidade? Tanto cá, no FC Porto, como na Argentina...

-O FC Porto tem conseguido cumprir com as suas obrigações com todos. Foi preciso que todos apertássemos o cinto para conseguir aguentar a situação, que não está fácil em todo o mundo, sobretudo na Argentina, que já era um país na linha de risco.