O voo de Hélder Nunes ainda está só a começar

O voo de Hélder Nunes ainda está só a começar
Alcides Freire/Rui Guimarães

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Hélder Nunes é reconhecidamente um dos maiores valores do hóquei em patins português e, por estes dias, um caso raro no universo das modalidades coletivas em Portugal. Aos dois anos já patinava, duas décadas depois, está no topo sem deixar de querer mais

Hélder Nunes, 22 anos, é um caso sério e essa será uma novidade para quem não segue de perto a realidade do hóquei em patins. Hélder, nascido em 1994, sabe que a modalidade que escolheu já foi a "segunda dos portugueses" e que, depois de anos de abandono mediático, recupera agora o fulgor que enchia pavilhões de norte a sul. Ora, esse mediatismo explica em boa parte o facto de o hoquista do FC Porto e da Seleção Nacional ser um caso único no hóquei em patins e um caso raro nas modalidades coletivas portuguesas: tem um patrocínio individual, que nem sequer é de artigos desportivos, e logo de uma marca com uma imagem profundamente ligada ao desporto: a Red Bull. A equipa de Fórmula 1 da bebida energética é apenas a ponta do icebergue, a presença da lata em muitas das publicações de Hélder Nunes nas redes sociais uma gota no oceano da estratégia de "marketing placing" da marca austríaca.

Quando aos dois anos começou a patinar, Hélder Nunes estava longe de imaginar que aos 22 anos já seria campeão da Europa por Portugal e capitão do FC Porto. "Comecei a patinar aos dois anos com aqueles patins da Chicco que podíamos usar com sapatilhas", recorda, sentado na esplanada do centro comercial vizinho do Dragão Caixa onde, duas décadas depois, tanto pode dar 20 voltas sem que ninguém o reconheça, como, em outros dias, parar uma porção de vezes para tirar fotografias ou ter alguém a pedir-lhe a camisola. "Há dias em que ninguém me reconhece, outros dias o contrário", conta, sorrindo, ao mesmo tempo que confessa lidar bem com a fama. "É uma fama bem diferente da de um futebolista".

Não tem jeito para cozinhar, assume a rir, mas tem um jeito enorme para jogar hóquei em patins. Por isso chegou cedo ao FC Porto, por isso já foi sondado pelo Barcelona. "Costumo dizer que nasci com os patins nos pés. O meu pai, o meu tio, jogaram hóquei em patins; nasci em Barcelos, uma cidade de hóquei em patins", explica como se desde cedo estivesse "condenado" a fazer carreira em cima dos patins. Começou perto de casa, ainda sem ser sénior, trocou o Óquei de Barcelos pelo Braga e mais tarde o HC Braga pelo FC Porto, clube onde chegou aos 18 anos para jogar com alguns dos seus ídolos. "Aos 17 anos, dei uma entrevista a dizer que o meu ídolo era o Reinaldo Mallea, nunca tinha visto ninguém tão rápido como ele. E hoje jogo com ele. Joguei com o Reinaldo Ventura, o Caio, o Pedro Gil, todos eles jogadores para quem olhava e dizia "estes gajos jogam tanto, meu Deus"".

Hélder garante que pretende continuar a ser um caso sério na modalidade. "O Ricardo Barreiros, com quem joguei no FC Porto, chegou cá com duas Ligas dos Campeões e era o último a sair do treino; o Pedro Gil fez parte do deca do FC Porto e conquistou o que se calhar ninguém conquistará na seleção espanhola. Aqueles jogadores do FC Porto que ganharam dez campeonatos não ficaram satisfeitos por ganhar apenas quatro", diz para explicar como olha para a sua carreira daqui em diante. "Podemos ser muito bons e reconhecidos, mas são os títulos que definem uma carreira", diz.

Panados da avó, NFL e uma bola a 146 km/hora

Hélder Nunes enfrenta um dilema porque não gosta de cozinhar, mas adora comer. Cuidados com a alimentação? "Quase nada, sou esquisito a comer e basicamente não gosto de verduras", diz antes de revelar o prato favorito: "Arroz de feijão com panados", de preferência da avó. E, explica, come sempre que tem fome.

Um dia normal começa às 9 horas, inclui quase sempre dois treinos, o merecido descanso entre eles e, quando sobra tempo ou está de folga, inclui transmissões televisivas de modalidades desportivas. "Gosto muito de ver futebol americano. Se puder, fico acordado até final de um jogo da NFL", diz, explicando a preferência por ser uma modalidade de contacto. "É um desporto que me fascina, gosto de ver o Super Bowl". E hóquei em patins? Hélder assume que revê todos os seus jogos e que, ao contrário da namorada, não tem dificuldades em perceber na televisão o que se passa no ringue. "Ela, por vezes, acha que a bola passou pelo meio das pernas do guarda-redes e eu, logo à primeira, vejo que a bola entrou rente ao ferro". Hábito, diz antes de contar que, certo dia, mediram a velocidade de um remate dele: 125 km/hora. "O Reinaldo Ventura tem um a 146 km/hora. Imagino que deva doer mesmo aos guarda-redes."