"É mais difícil ser campeão de Portugal do que ganhar na Europa"

"É mais difícil ser campeão de Portugal do que ganhar na Europa"
Frederico Bártolo

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Matias Platero, Raul Marín, Toni Pérez e Pedro Gil detalham a O JOGO as emoções que viveram no João Rocha na noite de domingo quando ajudaram o Sporting a conquistar o título europeu de hóquei em patins.

Matías Platero, Raul Marín, Toni Pérez e Pedro Gil somam 83 títulos na carreira. Não, não nos enganámos nas contas. O quarteto do hóquei do Sporting, vital para a conquista da Liga Europeia, no domingo, sentou-se ao lado de O JOGO para enumerar o vasto palmarés. Em comum? Todos tinham vencido a mais importante prova europeia de clubes antes de chegarem aos leões. Ainda assim, esta, dizem, foi a mais simbólica. "Para nós, argentinos, ganhar na Europa é incrível. Mas pelos adeptos, por ganhar em casa, esta foi especial", principia Platero, feliz pelo Reus duas vezes. Raul Marín, que venceu duas pelo Barcelona e a última ao lado do defensor argentino no Reus, concorda: "Sou originário de lá e essa, pela minha equipa de formação, é especial. Esta, porém, foi o maior espetáculo a que assisti, a melhor final-four de sempre."

Toni Pérez elevara o seu Liceo da Corunha ao estatuto de mestre, mas nem isso suplanta o que viveu no João Rocha: "Foi incrível porque não davam nada por nós [Liceo], mas este, pelo Sporting, é o maior título que tenho." Pedro Gil ganhou em 2009 pelo Reus e é, do alto dos 39 anos, elucidativo: "Foram muitos anos a jogar em Portugal. Sinto bem a rivalidade e a verdade é que foi a final sonhada pelos adeptos, mas só podia continuar um sonho se a ganhássemos. É mais especial do que a que venci em 2009 e mais simbólica que um Europeu ou um Mundial."

O JOGO quis saber os pormenores da festa. Platero ajoelhou-se para celebrar no rinque. "Estávamos confiantes e ao intervalo, a ganhar 4-1, sentíamos que era nossa. O FC Porto nem criava perigo", atira. Toni Pérez chorou convulsivamente ao colo de muitos colegas. "Foi o dia mais feliz da minha vida. Lembro-me da felicidade das pessoas. Fiquei em choque [olha, sonhador, para o topo do pavilhão]. Se o Paulo conversou connosco? Como? Havia jogadores na rede, outros na bancada. Foi a loucura... e depois cortámos-lhe o cabelo", detalha, rindo da rapadela que deram no cabelo do treinador. A banda sonora foi escolhida por Gonzalo Romero. "No me acuerdo", de Thalia ("Não me recordo", em português), espelha a afirmação de Pedro Gil de como é especial o Sporting ganhar a prova 42 anos depois: "As pessoas vão felizes para casa... ficam contentes dias, meses e anos. São imagens que perdurarão na memória." Pedro Gil patinou que nem um louco depois do momento mais feliz: "Parecia interminável [risos]."

Desde que a prova se tornou Liga Europeia, é a quinta vez que acaba por ficar para o organizador da final-four. Gil reconhece que não houve atribulação devido ao facto de os jogos terem corrido de feição: "Poderia ser um fator de pressão, mas estivemos sempre na frente. O Benfica igualou 4-4, mas nem um minuto depois estávamos na frente. E na final dominámos sempre." Toni prossegue: "Os adeptos entraram connosco, jogaram no rinque... nunca vi nada assim."

Todos concordam: a ideia é continuar a ganhar. O campeonato está difícil (o FC Porto teria de perder quatro pontos), mas a Taça de Portugal pode abrilhantar. "Seria coroar uma grande época, mas já é uma temporada de sonho só por vencer a Liga Europeia", reitera Platero. Só há um senão em continuar a ganhar. "Já estamos fartos das "Insta stories" do Pedro Roque [fisioterapeuta]", brinca Toni Pérez.

A VISÃO DOS CAMPEÕES

Pedro Gil, avançado do Sporting


Os colegas uniram-se para valorizar o "careca". A "superação" e a "magia" são as descrições dos colegas para o veterano Pedro Gil. A segunda Liga Europeia do palmarés mostrou a força lusa. "Três equipas portuguesas na final-four. Qualquer delas poderia ter vencido. Claro que ganhar ao tubarão Barcelona seria ainda de maior valor, mas só prova que Portugal está muito bem
no mundo do hóquei. É mais difícil ganhar o campeonato do que a Liga Europeia", afirma Gil, elogiando os lusos: "Em Espanha, estão muitos argentinos, mas não é fácil entrarem europeus. Ainda assim, o João Rodrigues está no Barça e entrarão mais portugueses."

Raul Marín, avançado do Sporting

Raul Marín foi, tal como Gonzalo Romero, a aposta para esta temporada. O bombardeiro foi definido como um "finalizador nato". Fez a carreira toda em Espanha e não saiu por falta de interessados: "O hóquei português tem os melhores jogadores. Portugal está a dar a volta ao mundo do hóquei. Queria viver esta experiência antes de acabar a carreira. Gostei do projeto e deixo claro: vim para ganhar títulos, se não fosse assim teria ficado em casa." Para Marín, o segredo da conquista foi a vitória no primeiro jogo da fase de grupos: "Aquele golo do Toni a dez segundos do fim contra o Forte dei Marmi iniciou a caminhada. Era ganhar ou ganhar."

Matías Platero, defesa do Sporting

Matías Platero foi descrito pelo trio como o "equilíbrio", dada a forma como é relevante a defender. Raul Marín foi seu colega no Reus e apelidou-o de "pitbull", porque está sempre "à caça dos adversários". Para Pedro Gil, é o "cadeado" que tranca a defesa." Matí é afável, dizem, exceto quando o apanham como rival. "Vira o Machu Picchu", diz, entre risos, Marín. A O JOGO, Platero valoriza o impacto dos adeptos: "Disseram que estavam connosco desde o início. Quando estás cansado, jogas bem na mesma. Oxigenaram-nos o corpo. Não acho que seja pela experiência que trazemos que fizemos a diferença. O plantel está bem distribuído."

Toni Pérez, avançado do Sporting

Toni Pérez é o homem do último toque. Sempre junto à baliza, o dianteiro até foi nomeado "tenista" por Pedro Gil, justamente pela forma como coloca o stique para finalizar. O espanhol conta ao pormenor como o Sporting o convenceu a sair de casa: "Estive muitos anos na Corunha, mas a forma como o Sporting demonstrou querer-me tocou-me muito. Sair dali era complicado, porque era a minha casa, mas só tinha de aproveitar. Esta oportunidade só surgiria uma vez." O espanhol avalia até a competitividade: "Um vencedor da Taça de Portugal pode ganhar a Liga Europeia. O hóquei português é o melhor do mundo."