O título europeu de futsal passou por aqui

O título europeu de futsal passou por aqui
João Maia

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Uns estiveram na génese do futsal, outros olharam para ele como uma marca e depois houve os que criaram os novos craques portugueses, o pensador deste Europeu e o mágico que leva a marca a todo o lado. Estas são sete das figuras que explicam o porquê de o país estar encantado com esta modalidade.

É por demais evidente que Ricardinho tinha de encabeçar esta lista. O capitão da Seleção Nacional é o expoente máximo do futsal português e está para a modalidade como Cristiano Ronaldo está para o futebol. Cinco vezes melhor do mundo, as últimas quatro consecutivas, fazem com que todos os clubes de topo sonhem ter um jogador como o Mágico, e não foi à toa que o canhoto ganhou esta alcunha. Rejeitado no futebol, ídolo do futsal, 153 golos em 158 jogos espelham bem a influência do ala desde que passou a representar a Seleção Nacional. Quando agora foi eleito o melhor jogador do Europeu, a UEFA informou que um dos critérios para a escolha do português foi a atitude e o respeito que demonstra na quadra, substantivos que têm caracterizado a carreira de Ricardinho, que leva o futsal português a ser conhecido um pouco por toda a parte, não só pela imensa qualidade que tem, mas também pela atitude com que se dedica ao jogo.

O Mágico já passou por Japão e Rússia e, atualmente, no Inter Movistar (Espanha) tem tamanha influência sobre os amantes do futsal que, ao sair lesionado da final, até os adeptos do vizinho ibérico desataram a cantar o nome dele. Considerado, em 2015, o melhor jogador do século do futsal português, batendo as lendas André Lima e Carlos França, com uns esclarecedores 94,84 por cento de votos, a grande questão é se Ricardinho já não é o melhor de sempre. Posto isto, é óbvia a influência do craque no desenvolvimento da modalidade. Ricardinho criou até uma Academia com o seu nome que tem cerca de 45 atletas com idades entre os 4 e os 12 anos. Joga, decide, desenvolve, incita, inspira. Não levem a mal se Ricardinho for considerado a cara do futsal português.

Quem conhece Jorge Braz, fala de um homem de "qualidades humanas ímpares", como confidencia o amigo Paulo Tavares, treinador do Braga/AAUM, um "trabalhador incansável, estudioso, metódico, que percebe o jogo como ninguém e que o estuda durante horas e horas a fio". Para se chegar a campeão europeu, é preciso ser-se bom e a apresentação feita por Paulo Tavares indica que a Seleção Nacional está, de facto, bem entregue. Jorge Braz esteve na sombra de Orlando Duarte até que, em 2010, foi convidado para suceder ao histórico selecionador.

Quando assumiu o cargo, ainda tinha ao dispor históricos como João Benedito, Arnaldo Pereira, Gonçalo Alves ou Joel Queirós, mas o passar dos anos fez com que uns se retirassem e outros perdessem o fulgor. Impôs-se, portanto, uma natural renovação de gerações, que Braz foi operando de forma lenta e progressiva. Começaram a aparecer nomes como Tiago Brito, André Coelho, Pany Varela, Nilson ou o próprio Bruno Coelho, herói de Ljubljana. Atento e observador de tudo o que se passa na modalidade, a nível de clubes e associações - é presença notada em vários encontros e torneios de formação -, Jorge Braz teve ainda mais mérito nesta conquista por saber lidar com a ausência do segundo jogador, a seguir a Ricardinho, com mais experiência e categoria internacional: Cardinal, pivô que desfalcou a Seleção por estar lesionado. A dor de cabeça poderia ter afetado a estratégia portuguesa, mas Braz soube dar a volta e mostrou que anda há muito a preparar o futuro, ao mesmo tempo que já garantiu um lugar na história por ter levado a modalidade ao olimpo.

Foi a 10 de dezembro de 2011 que Fernando Gomes ganhou as eleições para a presidência da FPF. Com a nova Direção entrou uma equipa que fez o que nenhuma gestão anterior tinha feito: investir a sério. Pôr os olhos no título Europeu do Benfica, conquistado no ano anterior (2009/10), e perceber o brutal potencial de crescimento da modalidade foi a chave. Das ideias do líder do órgão federativo, de Tiago Craveiro, diretor-geral da FPF, de Pedro Dias, nomeado diretor para o futsal, uma das grandes caras da modalidade, ou de um eficaz departamento de comunicação, logo se implementaram novas ideias. Determinada a tornar o futsal a modalidade coletiva de pavilhão mais praticada no país, a equipa de Fernando Gomes tratou de criar campeonatos nacionais de formação, algo que até então não existia. Apareceram provas de sub-20 e sub-17, Taças Nacionais de juniores, juvenis e iniciados, uma Taça Nacional de juniores femininos, a própria Liga de Futsal feminina, e ressurgiu o Torneio Interassociações, vocacionado para a deteção de talentos.

Com isto veio o inevitável.Quando Fernando Gomes tomou posse, o futsal tinha 17 363 atletas federados na formação, de ambos os sexos. Na época passada, esse número passara para 22 373. Um aumento de mais de cinco mil jovens que entraram para a modalidade. Não é coisa pouca. Além disso, a FPF repensou a Taça de Portugal - e criou a Taça da Liga - em formato de final a oito, com três dias de competição gratuitos. Os patrocinadores surgiram e as transmissões televisivas do campeonato vão alcançando bons resultados. Na Eslovénia, Portugal foi campeão e por cá está montada uma máquina que fará crescer ainda mais o futsal.

Orlando Duarte foi selecionador nacional de futsal? A história diz que sim, mas os jogadores treinados por ele dizem que Orlando foi treinador, diretor, seccionista, treinador dos guarda-redes... Passou a selecionador nacional em 1997, substituindo o coronel Fernando Lopes, que foi o primeiro selecionador da história da modalidade em Portugal, num tempo em que futsal era uma palavra estranha para muitos ouvidos, incluindo os da FPF. "A federação era ele", sintetiza o antigo internacional Israel. A organização em nada era comparável à de agora. Por exemplo, Portugal levou para a Eslovénia tantos elementos de staff, incluindo os selecionadores, quanto jogadores: 14, com direito a psicólogo ou cozinheiro. No final da década de 1990 e no início do milénio, Portugal ia às grandes competições com Orlando Duarte, "um roupeiro, um fisioterapeuta e um responsável técnico", conta Israel.

O treinador teve tamanha influência no desenvolvimento da modalidade que Jorge Braz, ex-adjunto de Orlando, na hora de reagir à conquista do Europeu se emocionou a falar do "amigo". Mesmo com a diferença de condições, Portugal conseguiu bons resultados: três presenças em Mundiais e cinco em Europeus na era de Orlando Duarte. Logo na estreia em campeonatos do mundo, a Seleção ficou em terceiro lugar na Guatemala e, nos Europeus, conseguiu um quarto lugar (2007) e uma medalha de prata (2010). Pelo meio, foi ele o líder da geração de ouro portuguesa, formada por lendas como Carlos França, Naná, André Lima, Pedro Costa, Arnaldo e Joel Queirós, entre muitos outros. E foi com ele que surgiu Ricardinho...

A média de idades dos 14 campeões europeus cifra-se nos 30 anos. Há seis jogadores abaixo desta faixa etária e quatro deles têm um passado recente ligado ao Braga/AAUM. Aqui chegamos à fundamentação para que a equipa minhota seja considerada uma das figuras do desenvolvimento do futsal, talvez a mais contemporânea deste leque. A fusão entre o clube e a Universidade do Minho formou um projeto que visa apostar no jovem jogador, enquanto tem a oportunidade de ingressar na vida académica. André Coelho e Tiago Brito, transferidos este ano para o Benfica, fizeram-no, ao mesmo tempo que foram dois dos grandes obreiros para que o Braga chegasse na época passada à final da Liga de Futsal. Entretanto, Fábio Cecílio já tinha rumado às águias em 2015 e pela Cidade dos Arcebispos ainda está Nilson, que em breve será mestre em Recursos Humanos.

É certo que nesta prosa é preciso mencionar nomes como os do Nelas, Tabuaço, Freixieiro e Sporting, onde este lote começou a jogar futsal. Mas há mais emblemas por esse país fora prontos a colocarem cá fora novos talentos. A verdade é que o Braga/AAUM teve a coragem - e a paciência - de rentabilizar nomes desconhecidos na altura e que agora se transformaram em estrelas. E ainda há mais jovens portugueses a crescerem no Minho: Vasco Ribeiro foi o melhor guarda-redes do Campeonato Nacional de sub-20 de há dois anos; Tiago Fernandes, emprestado pelo Benfica, é um canhoto que promete; e Rui Silva é um fixo no qual se depositam esperanças.

Uns foram pioneiros no futebol de salão, outros praticavam futebol de cinco e depois apareceram aqueles que lançaram o futsal. Para falar da génese da modalidade, tem de se mencionar nomes de emblemas como Fundação Jorge Antunes, Instituto D. João V, Miramar, Correio da Manhã, Freixieiro, Santos da Venda Nova e, recuando ainda mais no tempo, Ismaelitas, Coimbrões e PCR São João da Madeira. Foram estes alguns dos vários motores de arranque da modalidade em Portugal. A década de 1990 conheceu uma divisão entre as três variantes. Com semelhanças, mas também com diferenças, como a bola ou algumas regras, tudo foi aglutinado em futsal quando, em 1997, a Federação Portuguesa de Futebol assumiu para si esta pasta.

Antes disso, em 1991 e 1992, Sporting e Santos da Venda Nova tinham ganho a Taça Nacional e, nos quatro anos seguintes, em que foram disputados os primeiros campeonatos, os leões ganharam três provas e o Correio da Manhã venceu uma. O futsal passou a disputar-se em todo o país, surgiram novos clubes, outros desapareceram ou caíram no esquecimento de patamares inferiores. Importante também referir ser o Sporting o único dos clubes fundadores do campeonato de futsal que continua na I Liga. Honra seja também feita aos que aderiram ao repto da Federação para integrarem o primeiro campeonato nacional feminino, disputado em 2013/14. Aqui surgem nomes como Benfica, Golpilheira, Novasemente, Vermoim, Quinta dos Lombos e Santa Luzia, entre outros, que mostraram que o futsal também pode ser praticado no feminino.

Para que o futsal não acabasse ao fim de alguns anos, até porque a concorrência de modalidades históricas como o hóquei em patins era fortíssima, foi preciso haver muita carolice de vários dirigentes de clubes históricos. Festejar o título de campeão europeu foi a cereja no topo do bolo desde que a modalidade foi criada. Nomes como José Manuel Leite, Mário Brito - pai e filho (na foto) -, José Antunes, Carlos Alves, Eduardo Pinto, Armindo Cordeiro, António Paisana, Vítor Peralta, João Rocha, Silva Pereira, Alberto Silveira, José Eduardo (o ex-futebolista do Sporting) ou Alípio Matos (dividiu-se entre treinador e dirigente) foram alguns dos muitos responsáveis - e isto de citar nomes é sempre um trabalho inglório - que estiveram na base da modalidade ou foram responsáveis pela sua fusão, ora nos clubes, ora em cargos diretivos na Federação Portuguesa de Futebol ou em associações. José Manuel Leite (Miramar), José Antunes (Fundação Jorge Antunes) e Mário Brito (Freixieiro) foram alguns dos casos que sustentaram, do próprio bolso em certas alturas da história, o dia a dia dos respetivos clubes.

Deste lote, José Manuel Leite, falecido em 2011, e Mário Brito conseguiram alcançar o sonho de serem campeões de futsal. Armindo Cordeiro, histórico dirigente do Benfica, esteve, por exemplo, envolvido na criação da secção dos encarnados. Estes nomes, provavelmente muitos deles desconhecidos para o leitor, tiveram um peso decisivo no incremento do futsal e não foi de estranhar que, por exemplo, Mário Brito (NA FOTO), em declarações a O JOGO publicadas no dia da final entre Portugal e Espanha, estivesse emocionado com o encontro decisivo que a Seleção Nacional ia disputar, pois, dizia o dirigente, todos os que com ele trabalharam sonharam com aquele dia. Uns tiveram a oportunidade de o ver e festejar, outros não foram a tempo, mas a memória encarrega-se sempre de lembrar quem foi importante na construção da história desta nova potência que é o futsal português.