Falcão: "O que eu queria era jogar com o Ricardinho"

Falcão: "O que eu queria era jogar com o Ricardinho"
João Sanches

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O melhor de sempre no futsal chorou a impressionante queda da seleção do Brasil nos "oitavos" do Mundial, mas, aos 39 anos, não exclui uma sexta presença num campeonato do mundo, em 2020

Aprendendo com os pecados, a seleção brasileira de futsal reergue-se para voltar a dominar. E ainda conta com Falcão, o histórico camisola 12...

Passou quase mês e meio desde a chocante eliminação do Brasil nos "oitavos" do Mundial de futsal. Já enxugou as lágrimas?

-É difícil de esquecer. Foi o pior resultado da história da seleção. Aquelas 30 pessoas que estiveram envolvidas vão carregar isso para o resto da vida. Poderíamos ter discutido o título, mas infelizmente não foi assim. Aconteceu com outras seleções que eram favoritas, como a Espanha. Ninguém imaginaria uma final entre a Rússia e a Argentina. Agora, é tocar a bola para a frente, a história está feita.

Como se justifica o insucesso de uma das grandes potências?

-No Brasil, em tudo o que se relaciona com futebol, a cobrança é muito grande. Porque sempre fomos bons. Mas toda a gente que acompanha o futsal sabe o que a gente passou nos últimos anos, os problemas políticos e de organização que a seleção encontrou. Com tudo o que aconteceu, nem combinava o Brasil ser campeão do mundo. Este resultado foi um alerta para que a seleção comece a ganhar o Mundial"2020 a partir de agora.

Como se faz?

-Com organização, retoma de patrocínios, dando condições para incluir jogadores que alinham na Europa em algumas convocações. Antes, ganhava-se sem isso; a equipa reunia-se em 20 dias e vencia. Agora, já não é assim, ficou comprovado. As seleções, principalmente as europeias, preparam-se em quatro anos. O resultado do Brasil foi o reflexo de tudo o que se passou. E o público sabe disso.

A quinta participação num Mundial foi mesmo a sua última? Dá para crer?

-[risos] Tenho 39 anos e, com uma preparação especial, sinto-me no melhor ano dos últimos cinco. Tenho jogado mais tempo e venho fazendo golos. Não sei se o público português teve oportunidade de me ver no Mundial e perceber o quanto eu estava a render, principalmente nos jogos mais exigentes. Estive em alto nível. O mesmo acontece na liga do Brasil. Fala-se que o campeonato espanhol é o melhor, mas não é. Não tem comparação. No Brasil, para se ter uma ideia, o campeão da época passada não chegou nem entre os oito melhores neste ano. E é impossível dizer quem vai sair campeão. Em Espanha ou é Barcelona, ou Interviú, ou El Pozo, ninguém tem dúvida. Como dizia, estou em alto nível, faço golos importantes e consigo jogar perto de 30 minutos por partida. Falar do Mundial"2020 é falar de uma coisa ainda longe. Admito que daqui por quatro anos já tenha parado de jogar. No entanto, como amo o que faço e encontrei um método para preservar o meu corpo, vou levando ano a ano, para ver se me surpreendo e surpreendo toda a gente.

É esse "o" desafio?

-Enquanto sentir que não estou a enganar ninguém, vou indo. Sei que fiz um grande Mundial e isso dá-me espaço para que continue na seleção. O meu grande desafio é pessoal, é prolongar a carreira. O Renan, fisioterapeuta, trabalha comigo todos os dias e está a dar-me vida para eu jogar. Aqueço separado e faço exercícios diferenciados para render o máximo. Em termos de títulos ou de conquistas, nada me falta. Consegui ser o melhor do mundo, de todos os tempos - e tudo comprovado em números. O grande desafio é com o meu corpo; é conseguir jogar mais anos e quebrar um paradigma: com a minha idade, as maiores referências já tinham parado.

Brasil eliminado no Mundial, câmaras logo apontadas a Falcão, ali na quadra, curvado e em lágrimas. E de repente a seleção do Irão cerca-o, aplaude-o e atira-o ao ar... Que lhe passou pela cabeça?

-Foi uma mistura de sensações. Eu estava ali, no pior momento da minha carreira em termos de resultados e no mais marcante para o Irão. O que fica para mim, daquele instante, é a imagem de respeito por tudo o que fiz.

Parecia um pedido de desculpa por terem afastado o Brasil e Falcão dos quartos de final...

-Pensei nisso. Coloco-me no lugar deles: era um momento para comemorar. Nunca nos tinham vencido. Mas eles viram-me ali, triste, olhando para eles, sentindo a falta dos meus filhos... E de repente o treinador puxou-me para me dar um abraço e os jogadores puseram-se à volta e tiveram aquela reação de me jogar para cima. Vou pensar sempre no resultado, mas jamais esquecerei o reconhecimento.

Voltou a jogar pela seleção há dias, num amistoso com o Paraguai (6-3). O novo ciclo já começou?

-Esperamos que seja o início de uma nova safra. A Confederação tem-me dado espaço para eu ajudar na angariação de patrocínios, há muita coisa boa para acontecer. Não posso virar as costas a uma camisola que vesti durante 20 anos. Jogando ou não, coloco-me totalmente à disposição, porque tenho consciência da força do meu nome e da importância da minha imagem.

Nem que seja numa partida de exibição, mas o desejo, promete Falcão, há de ser realizado

O conceito "joga bonito" foi bem defendido no Mundial?

-Nem o Brasil, nem Portugal chegaram à final, mas pudemos perceber a minha popularidade e a do Ricardinho. Éramos as referências para quem não acompanha tanto o futsal. Vimos muitas pessoas irem ao pavilhão só para assistir às nossas atuações. É verdade que nenhum de nós conseguiu chegar à decisão, mas, para esse público que não é do futsal, o estilo de jogo espetacular continua a ser um grande chamariz.

Falcão e Ricardinho na mesma equipa: ainda há tempo para isso?

-O momento de o trazer para o Brasil foi quando ele estava no Japão. Agora, ele joga na Europa, em Espanha, e os euros estão muito altos em relação à nossa moeda. Pode ser que daqui a uns anos, quando eu já tiver parado, ele venha para cá. O que eu queria mesmo era jogar com ele. Ainda há pouco tempo, estivemos juntos nos Estados Unidos, mas para jogarmos um contra o outro. Acredito que pelo menos um amistoso haveremos de fazer um dia na mesma equipa.