Sérgio Paulinho recorda ambiente entre Contador e Armstrong: "Tão mau..."

Sérgio Paulinho recorda ambiente entre Contador e Armstrong: "Tão mau..."
Frederico Bártolo

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Paulinho, colega de Alberto Contador durante boa parte da carreira, viveu por dentro a rivalidade entre o espanhol e Armstrong. Ganharam e nem houve festejos

Correu 10 anos com o Contador e ajudou-o a ganhar sete Grandes Voltas...

-Admiro-o muito. Teve um problema de saúde grave, superou-o e voltou mais forte. Era difícil trabalhar com ele, punha-nos muita pressão, pois não gosta de perder nem a feijões. Chegava perto de nós e perguntava se tínhamos dormido bem. Quando o perguntava, queria atacar nesse dia. Nem era preciso dizer mais nada. Perdia dois minutos e atacava para recuperar. Reagia a quem o dava como morto.

O Tour de 2009, com a rivalidade entre ele e o Lance Armstrong, não terá sido fácil...

-... Desde o primeiro dia, pois o Contador sentiu-se prejudicado por partir em último no prólogo, quando chovia. Depois, na chegada a Montpellier, o Lance atacou e tinha colegas na frente a puxar. O Contador estava num grupo atrás e nem sabia o que fazer. Deixaram de se falar aí.

Houve confronto físico?

-Na partida de Andorra, na oitava etapa, houve um bate-boca feio. Eu era colega de quarto do Alberto, mas falava com o Lance. Aliás, até lhe disse que ele era o meu ídolo - o doping não alterou a forma como o via, a admiração ao vê-lo correr. Ele riu-se na altura... Havia sempre tensão e pensávamos que os dois podiam explodir e sair da corrida. O Lance foi terceiro, o Alberto ganhou. Foi o melhor Tour, mas não o desfrutei a 100%. Foi a maior vitória coletiva na maior dificuldade. O ambiente era tão mau que em Paris eles foram embora, com as esposas, enquanto nós, os gregários, ficamos a festejar depois do jantar.

Depois de 12 anos no estrangeiro, Sérgio regressou a Portugal para a equipa do coração, a Efapel, e a uma Volta a Portugal onde brilhara em início de carreira.

Foi sexto na Volta de 2004. Achou que podia ganhar a de 2017?

-Tinha a consciência de que podia discutir. Um pódio era difícil, mas a meta de um top 5 era possível. Não o consegui, fiz nono em 2017 e com 1m26s de diferença para o quinto. Em 2018, queria ir à luta, mas fui operado e cheguei sem a mesma condição. Disse que queria objetivos diferentes.

E agora, é impossível?

-O Jóni [Brandão] veio para equipa em 2019 e passou a ser o objetivo dar-lhe a Volta. Eu ficaria com uma corrida por ano. Por exemplo, em 2019 fui terceiro no Joaquim Agostinho. Sonhei ganhar uma Volta, sim, mas agora é quase impossível. Quem sabe se o meu filho não o consegue [risos]. Ficaria muito feliz e quero ajudar a Efapel a ganhar, porque temos mais soluções este ano. Falta-me isso pela equipa.

Os portugueses que andaram pelo estrangeiro não vencem a Volta. Sabe explicar essa dificuldade?

-Vimos do estrangeiro limitados na capacidade física, porque somos levados ao limite durante os meses todos da época. Trabalho da mesma forma que trabalhava no estrangeiro, sinceramente, mas os mais novos estão melhor preparados. No meu caso, sinto que não mudei o chip. Foram 12 anos a trabalhar para outros e não se muda isso num dia. O Tiago Machado também passa por isso, estamos habituados ao método e não tivemos, em muitos anos, de resolver uma corrida e estar no momento certo antes da subida final.

O seu diretor desportivo tem menos 12 anos do que o Sérgio. Como gere isso?

-Não sou mais do que ninguém. Todos temos opinião. Gerimos com respeito: todos sabem que o dono da equipa é o Carlos Pereira e que o diretor é o Rúben. Ele dá a tática e debatemo-la depois. O Rúben está sempre aberto a isso. É importante que estejamos de acordo. Isso une-nos.