O único medalhado olímpico português revela: "Nunca revi a prata de Atenas"

O único medalhado olímpico português revela: "Nunca revi a prata de Atenas"
Frederico Bártolo

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Sérgio Paulinho recordou a O JOGO uma carreira inigualável

Sérgio Paulinho foi no domingo 21. º no contrarrelógio de Sangalhos, corrida de regresso do ciclismo num ano difícil, pois estava parado desde a Volta ao Algarve. Mas, com O JOGO, a conversa foi outra e versou a carreira de um medalhado olímpico que dedicou quase todos os 18 anos de carreira profissional a ajudar outros. Ele não se sente, mas é um dos maiores corredores nacionais de sempre.

A medalha de prata nos Jogos de Atenas"2004 continua a ser um feito único 16 anos depois. Como a vê?

-Não ligo muito aos resultados que faço. Ao contrário dos meus colegas, que reveem as corridas, nunca o faço. Até hoje, nunca revi a corrida. A minha mãe gravou a prova e tudo e nunca puxei para trás. Às vezes, os colegas brincam comigo e mostram-me no Youtube o momento e tal, mas eu, sozinho, ir ver? Não. Sei que foi uma medalha importante, pois foi a única na modalidade. Foi um feito, mas podia ter sido melhor aproveitado pelo ciclismo português. Podiam ter aparecido ajudas maiores para as equipas, para a própria Federação. Faltou projeção à medalha.

Nesses Jogos atacou com o italiano Bettini. Sabia que ele era o mais forte no sprint?

-Foi uma coisa de momento, esse ataque. Tínhamos o Gonçalo Amorim, o Nuno Ribeiro e o líder era o Cândido Barbosa. Era o nosso melhor sprinter e queríamos ajudá-lo, pois a prova tinha características para ele. Segui o Bettini, no entanto. Estavam o Ulrich e o Vinokourov na roda, mas acabaram por ficar para trás. Eu continuei. Fui sempre a puxar, porque estava em jogo uma medalha. Tinha noção de que seria ele a ganhar, sim, pois era o melhor das clássicas a nível mundial. Claro que há aquela esperança, principalmente quando soubemos que tínhamos 40 segundos sobre o pelotão à entrada da última volta do circuito.

Lembra-se do que disse o selecionador nacional?

-Portugal partilha os carros com outras seleções. Sei que era uma nação sul-americana e até eles puxaram por mim. Não me recordo do que o Poeira disse, mas lembro-me de o ver ao longe a chorar; e a correr para mim, para me abraçar.

A medalha foi tão inesperada quanto o Mundial ganho pelo Rui Costa em 2013?

-O Rui já fazia parte de um lote de candidatos. Tinha vencido duas etapas no Tour, ganhou a Volta à Suíça nesse ano, já a segunda da carreira. Foi um ano fantástico para ele. Já o viam como um dos favoritos. Olhando para aquele grupo, o Valverde era o mais rápido e favorito, mas quando o Rui se aproximou do Rodríguez, senti que tinha mais um pontinho para ganhar.

Sabe que está entre os melhores de sempre em Portugal?

-Nem gosto de comparar. O Joaquim Agostinho foi e sempre será o melhor ciclista português. Não vejo ninguém a fazer o que ele fez. O José Azevedo esteve perto de fazer como o Agostinho. O Rui Costa ganhou um Mundial e disputa corridas. Tive a felicidade da medalha, mas tirando isso ganhei uma etapa na Vuelta e no Tour e pouco mais. Foi um acrescento inesperado. Não sinto falta de reconhecimento de Portugal.

Numa carreira de ciclista, o que é mais difícil?

-Estar 150 dias longe dos filhos e a quilometragem. Treinamos cinco horas, muitas vezes à chuva. Não saímos de casa para beber um copo. Gosto de cozidos à portuguesa e de comer. É difícil.

Há quem ache que vocês, depois das etapas, não têm força para nada...

-Depois da etapa há a massagem. Dormimos muitas vezes a sesta. Jantamos e vamos até ao autocarro da equipa. É o melhor do ciclismo, podermos contar as peripécias do dia, pois é tão stressante que não dá para falar antes. Nas equipas do World Tour havia colegas que nem sequer conhecia, alguns com quem nunca corri.

Liliana, com quem está casado desde 2009, é o escudo de Paulinho. "Morávamos na Suíça para eu estar mais perto das corridas e ela, até doente, levava os meninos [Beatriz, de dez anos, e Dinis de sete] à escola, pelo meio da neve", conta Sérgio, lembrando a tristeza: "Os meus filhos não gostam de me ver a correr. Depois do acidente na Volta a Espanha com uma mota, choravam quando eu saía. Foi um trauma verem-me a fazer o penso. O Dinis anda de bicicleta, mas não quer ser ciclista. Custava-me deixá-los 150 dias por ano: levei as lágrimas deles na bagagem"