"Não sou o Cristiano Ronaldo, ainda passo despercebido, mas foi incrível"

"Não sou o Cristiano Ronaldo, ainda passo despercebido, mas foi incrível"
Frederico Bártolo

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Com calma, João Almeida, o caldense de 22 anos da Deceuninck-Quick Step destaca a vontade de festejar vitórias em 2021 e assume que cresceu psicologicamente e ganhou o respeito de todos os rivais

Deu a Portugal 15 dias de camisola rosa, galgou um país em pandemia e colocou-o à frente da televisão. João Almeida bateu os recordes de tempo com uma camisola de líder numa Grande Volta, tanto de Acácio da Silva como de Joaquim Agostinho. Sendo quarto na Volta a Itália, superou até o melhor posto de sempre de um português (o quinto de José Azevedo) na corrida transalpina. O jovem de A dos Francos, da Deceunick-Quick Step, foi uma das grandes personalidades desportivas do ano e, a O JOGO, detalhou cada etapa dessa odisseia e o que espera do futuro.

Mais de dois meses depois de ser quarto no Giro e galvanizar um país, já tem noção do que conseguiu?
-Sei que alcancei um bom feito, as pessoas vibraram comigo. Ainda me vêm dizer que estão satisfeitas com o que fiz, com as alegrias que dei. Da minha parte, fiquei muito satisfeito com a minha época e sei que vai ser difícil alcançar estes patamares novamente, mas vou levar isto com calma. Não fazia ideia do que esperar para a primeira Grande Volta da minha carreira.

Ainda em Itália, tinha noção da euforia que Portugal viveu, com centenas de milhar de pessoas coladas aos ecrãs?
-Foi como se tivesse entrado numa máquina do tempo: fui para Itália e quando voltei vi tudo diferente. Não sou o Cristiano Ronaldo, ainda passo despercebido [risos], mas foi incrível. Tive pessoas que me disseram que nunca tinham visto ciclismo na vida e que nesses dias se agarraram à televisão.

Deu muitas entrevistas, teve uma receção monumental nas Caldas da Rainha e outra no Palácio de Belém, com o Presidente da República...
-Andei atarefado quando voltei, sim. Esse apoio foi incrível, difícil de explicar. Dentro dos possíveis tentei agradecer a toda a gente; queria que percebessem que estava agradecido. Foram homenagens bonitas, uma experiência diferente e, no caso do Presidente, foi inimaginável. Foi engraçado, pois lembro-me que comentei com a minha mãe que gostava de ter algo do género quando o Ivo e o Rui Oliveira receberam felicitações após as medalhas na pista.

Já expressou a alegria com o desempenho em Itália. Esperava liderar a equipa?
-Soube que ia ao Giro depois da Volta à Lombardia. Estava a andar bem, o Mattia Cattaneo e o Remco Evenepoel caíram e calhou-me a mim. Sabia que estava num bom momento. Fiz estágios de altitude, fui convocado, mas sem um objetivo. Estava eu, o James Knox e o Fausto Masnada para a geral, mas não sabia como poderia responder em provas de três semanas. Tive a camisola rosa ao terceiro dia, mas só no final da segunda semana fui considerado o líder da equipa. Protegiam-me a camisola até lá, mas era diferente. A equipa focou-se mais em mim nessa altura.

E a camisola rosa foi um objetivo desde cedo?
-No primeiro dia, no contrarrelógio de 15 km, queria ganhar tempo. Ficando em segundo e tão perto do primeiro, queria agarrar a rosa, porque o Filippo Ganna não era um trepador. No terceiro dia podia ficar com a rosa. Foram milésimos de vantagem: o Caicedo ia fugido, na frente, mas felizmente foi possível. Pensei que tinha uma vantagem maior, mas foi uma grande alegria.

A partir daí, até onde pensou chegar?
-Olhava para cada dia, para perceber com que forças estava. Fomos passando as montanhas e o respeito aumentou. Não senti que me desrespeitassem enquanto líder, estava focado em cada dia. No dia anterior ao Stelvio vi que as forças não eram as mesmas, que seria difícil manter a rosa.

Baixou de primeiro a quinto, mas teve força para fechar em quarto.
-Sabia do quinto lugar do José Azevedo [2001], mas não era nisso que pensava. A última etapa de montanha era muito dura. Ao perder a rosa ganhei tempo de recuperação, por não ter as cerimónias protocolares. Senti-me melhor fisicamente e quis o quarto lugar. O pódio era impossível, mas o quarto era alcançável. Eu era melhor que o Bilbao no contrarrelógio.