João Almeida, um campeão do sofrimento: a equipa, a gestão e os recordes

João Almeida, um campeão do sofrimento: a equipa, a gestão e os recordes
Carlos Flórido

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Ciclista português resistiu, acabou esgotado, mas manteve a liderança do Giro para um 13.º dia. Almeida é um jovem que sabe gerir

Como diria o outro, isto até agora foram "peaners". A primeira das quatro etapas demolidoras da Volta a Itália disputou-se no domingo e, para surpresa da maioria dos especialistas, teve quatro protagonistas que não estariam na lista dos principais favoritos quando, no início do mês, se partiu de Palermo.

O principal deles, um rapaz de 22 anos de A dos Francos, nas Caldas da Rainha, resistiu ao ataque dos restantes, Wilco Kelderman e Jai Hindley, de uma Sunweb que se revelou a equipa mais forte da corrida, e Tao Geoghegan Hart, um dos valores de futuro da Ineos e vencedor da 15.ª etapa, no alto de Piancavallo. João Almeida foi quarto e o trio passou a ser a sua maior ameaça.

Se a tirada com quatro montanhas, a última delas com 14,3 km inclinados a 7,8%, começou mal para os portugueses, com Rúben Guerreiro a não conseguir entrar na fuga e a perder a sua camisola azul para Giovanni Visconti, a expectativa centrava-se toda na ascensão a Piancavallo, que se iniciou com a Sunweb a ditar o ritmo. Domenico Pozzovivo, um trepador, foi o primeiro a perder o contacto, pouco depois seguido por Pello Bilbao, Jakob Fuglsang e Vincenzo Nibali. Com Rafal Majka e Patrick Konrad a não durarem muito mais, todos os nomes habituais davam lugar a... uma nova geração.

"Sabia que alguém iria atacar. Foi o Kelderman, que estava superforte", comentou Almeida, admitindo: "O ritmo foi muito alto desde início, mas senti-me bem todo o dia." O jovem português, primeiro sub-23 a vestir de rosa 13 dias seguidos no Giro, cedeu a 7,2 km do alto, numa das acelerações de Hindley, que puxou sempre Kelderman e Hart, mas depois revelou uma maturidade pouco comum. Mantendo-se a cerca de 30 segundos do trio, nunca deixou aproximar os grupos que vinham atrás, ganhando cerca de um minuto aos homens mais cotados.

"Sofri muito no final, mas mantive a camisola e estou orgulhoso", disse Almeida no fim, desvalorizando os esgares de sofrimento: "Não quero saber da minha cara, só manter a camisola."

Agora com apenas 15 segundos de vantagem sobre Kelderman, mas todos os outros já distanciados na casa dos três minutos, o português quase reduziu a luta a dois. E o advérbio aplica-se porque se trata do Giro, ainda com 203 quilómetros de montanhas pela frente. No Tour ou na Vuelta, o sonho de rosa de Almeida, novo herói português, estaria já ali, pronto a ser festejado no próximo domingo!

Equipa fica curta a subir

Vocacionada para clássicas, a Deceuninck-Quick Step, equipa mais vitoriosa da década - este ano já soma 37 triunfos -, tem protegido bem João Almeida, mesmo alinhando no Giro com um plantel sem as maiores figuras. Ontem, e num final de alta montanha, as debilidades do conjunto belga ficaram à vista. James Knox (7.º) e Fausto Masnada (11.º) deixaram o português sem apoio na fase final.

Jovem que sabe gerir

Quando, a 7,2 km do alto de Piancavallo, João Almeida perdeu o contacto com Wilco Kelderman, Jai Hindley e Tao Geoghegan Hart, temeu-se o pior. Mas o português de 22 anos, com uma maturidade tremenda, soube gerir a distância para os rivais na casa dos 30 segundos, mantendo ao mesmo tempo os grupos de Rafal Majka e Vincenzo Nibali à distância. Uma exibição que impressionou.

Os recordes da rosa

Os seis dias de liderança de Acácio da Silva (Tour e Giro) e cinco de Joaquim Agostinho (Vuelta) já lá vão há muito. No domingo, João Almeida tornou-se no terceiro corredor da atualidade com mais dias de rosa (atrás de Nibali e Dumoulin) e, entre os sub-23, superou os máximos históricos de Eddy Merckx, Giuseppe Saroni, Gino Bartali e Luigi Marchisio, todos eles líderes 12 dias numa só edição.