"Fazemos ciclismo com amor"

Carlos Flórido

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O êxito do ciclismo de pista, que em oito anos obteve 38 pódios europeus e mundiais e apurou uma atleta para os Jogos, tem um nome: Gabriel Mendes, o selecionador nacional que superou expectativas

Gabriel Mendes tem 46 anos, é da Marinha Grande e formado em Ciências do Desporto. Sem grande currículo como ciclista, candidatou-se ao cargo de selecionador nacional e tem conduzido um pequeno grupo de atletas a êxitos sem precedentes. A O JOGO falou desde o Centro de Alto Rendimento de Anadia, onde ainda trabalhava, mesmo tendo terminado a época.

Acabaram as corridas, mas continua a trabalhar. Podemos saber em quê?

-Não sou apenas selecionador, também faço formação, controlo e avaliação de treino. E todos os nossos instrumentos requerem manutenção. Haverá um momento de pausa, mas ainda não é agora.

Essa capacidade de trabalho e ser meticuloso são os seus segredos?

-Confesso que sim. Sou da Marinha Grande e vivo o ciclismo intensamente, já o acompanhava com o meu pai. Corri até aos sub-23, momento em que decidi estudar e troquei a área de Economia pelas Ciências do Desporto na Universidade da Beira Interior. Fiz uma tese relacionada com a otimização da posição do ciclista, estudando os efeitos da alteração da posição no consumo de oxigénio. Sou apaixonado pelo ciclismo desde jovem. Fazemos isto com amor. Não sendo assim, é difícil ultrapassar algumas barreiras.

Qual é o seu maior sonho enquanto selecionador?

-Um deles está concretizado: foi conseguir qualificar o país, em tão pouco tempo, para os Jogos Olímpicos de Tóquio, com a Maria Martins. Faltou-nos o masculino, mas tivemos várias contrariedades. Uma de início, num Campeonato do Mundo que não nos correu bem, e depois fomos à procura dos pontos que nos faltavam, chegamos a tê-los, mas tivemos infelicidades.

Refere-se às lesões, devido a quedas, de Ivo, Rui e Iúri?

-Sim. Não tanto do Ivo, que entretanto recuperou, mas do Rui, que caiu e estava indisponível para o Mundial, e depois do Iúri. Ele entrou no programa de pista e começou a trabalhar especificamente para isso em 2019. Fez o Europeu na Bélgica, com o Rui Oliveira, e depois as taças do mundo até ter uma queda em Hong Kong. Essas duas quedas condicionaram muito o trabalho. Mesmo com plano B, C e D, por muito pouco não conseguimos. Aprendemos que ainda temos muito para fazer.

Falhar esse apuramento foi a sua maior desilusão?

-Não encaro isto como desilusão. Pensaria isso se fosse falha nossa. Acho que trabalhamos bem. Fizemos tudo o que estava ao nosso alcance e tenho é orgulho no trabalho de toda a equipa.

Qual a maior alegria que já viveu no cargo?

-Foram tantas! Em Campeonatos do Mundo e da Europa já são 38 pódios. Todos os anos tenho alegrias. Não consigo dizer que um momento é superior a outro.

Este final de época, com seis medalhas e dois títulos europeus de elite, não é o melhor de sempre?

-Foi um ano difícil. Os sucessos no Europeu de Sub-23 foram uma recompensa e o de elite significou terminar de forma espetacular. O Iúri, por exemplo, ficou com um grande currículo desde agosto, mas o sucesso e o trabalho foi de todos.

"Decidi estudar após uma queda"

Correu até sub-23. Porque trocou o ciclismo pelos estudos?

-Poderia ter sido profissional. No ano em que o Cândido Barbosa foi campeão da Europa fiz um bom início de época, estava na equipa de Sintra e fui a testes na seleção. Era atleta mais de terreno plano...

Era sprinter?

-Era mais rolador. Aquilo não era fácil para os mais jovens. Tal como hoje, fazíamos corridas com os profissionais e sentíamos muitas dificuldades. Sofri uma queda em Santarém e, como sabia o que queria, decidi estudar. Tenho a vida bem resolvida. Desses anos fiquei com boas recordações e uma formação como pessoa; o ciclismo ensina a superar dificuldades.

Ainda foi professor?

-Dei aulas de Educação Física durante uns dez anos.

Que o levou a candidatar-se ao cargo de selecionador?

-No mestrado precisava de atletas para trabalhos de investigação e um amigo meu, o Fernando Mota, ajudou-me a encontrá-los; e acabei por ajudar a equipa dele. Portanto, voltei ao ciclismo. No início de 2010 surgiu o concurso para selecionador de pista e apresentei uma proposta. Não sabia se seria o escolhido, mas reuni com Artur Lopes e José Calado e aceitei.

Foi aprendendo ao mesmo tempo que ensinava?

-Todos vamos aprendendo ao longo da vida.

Mas não era um especialista em pista?

-Durante a minha formação fui procurando fazer a ponte para aquela que era a minha modalidade. Tinha conhecimentos de base, mas é evidente que quando entrei na federação não existiam sobre o ciclismo de pista. Foi Artur Lopes que me mandou fazer uma formação na União Ciclista Internacional. Estive três meses na Suíça. Para quem já tinha os conhecimentos do ciclismo de estrada, transferi-los para a pista não foi difícil. Quando estava lá pensava sempre como poderia otimizar isto ou aquilo...