Bernal pode ter dois anos de afastamento: "Parece-me difícil que volte a ser um atleta de elite"

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 foto EPA

Já acordado e com movimento em todos os membros, corredor da Ineos enfrenta uma longa recuperação, segundo alguns especialistas. Com o ciclista que foi operado ao fémur e à coluna ainda nos cuidados intensivos, o debate sobre a sua recuperação preenche os dias na Colômbia. E as opiniões médicas não são muito animadoras

"Acham muito dramático dizer-se que vai perder a época toda? Seria uma maravilha se fosse apenas isso...", disse na quarta-feira, desassombrado, o médico colombiano Edgar Muñoz num programa de Rádio Caracol que analisou o futuro de Egan Bernal. O corredor da Ineos, que despertou ontem e já não está entubado, conseguiu mexer os quatro membros, um bom sinal, mas a sua recuperação deverá ser das mais longas de sempre para um atleta de alta competição.

"Parece-me difícil que volte a ser um atleta de elite", acrescentou Salvador Mattar, neurocirurgião e professor da Universidade Livre e Simón Bolívar, também na rádio colombiana. Outros especialistas, no entanto, são mais otimistas.

Bernal está ainda dentro das 72 horas mais importantes depois de duas intervenções cirúrgicas, a perna e rótula direitas e depois à coluna vertebral, devido ao choque com a traseira de um autocarro na quarta-feira, quando treinava com uma bicicleta de contrarrelógio, nas proximidades da sua cidade natal, Bogotá. O vencedor do Tour de 2019 e do Giro do ano passado iria a cerca de 50 km/h e percebeu tarde demais que o veículo tinha parado, ainda travando, mas não se conseguindo desviar.

"Não se deve encarar isto como uma lesão desportiva. É de maior envergadura, um acidente de viação. Recuperar para a alta competição vai exigir muito esforço. Distinguiria duas etapas: resolver o problema para a sua vida normal e só na segunda fase para o desporto. É verdade que os atletas não são feitos de uma massa normal, mas as lesões são graves e o processo demorado", explicou à Marca outro médico, Rippol, estimando que "entre 18 e 24 meses são um prazo razoável, mas após tanto tempo não será fácil regressar à alta competição".

Com o líder da Ineos ainda nos cuidados intensivos da Clínica La Sabana, o debate entre especialistas tornou-se intenso. "O quadro do ponto de vista desportivo é complicado, será muito tempo de recuperação, mas nos desportistas pode ser mais curto do que em cidadãos convencionais. Sou otimista, contrastando com alguns colegas que dizem mais de um ano, porque penso que a recuperação será a de uma pessoa jovem, com funções estruturais e metabólicas de alto rendimento", refere Freddy Avella, outro médico colombiano ouvido pela Rádio Caracol, que também considera "apressado dizer que Bernal não voltará a ser o mesmo".

Os colegas do corredor da Ineos, que este ano tentaria ganhar pela segunda vez a Volta a França, destacam-no como "um exemplo de resiliência", que competiu durante muito tempo com dores nas costas, devido a uma escoliose provocada pelo tamanho diferente das pernas. Mas os médicos recordam que, além da obrigatoriedade de não ter danos neurológicos na coluna, a zona da fratura do fémur terá influência na recuperação. E poder ser junto ao joelho não é o melhor dos sinais.

Colômbia reza pelo Niño Maravilla

Na Colômbia o maior desporto é o futebol, com Falcao e James como maiores ídolos, mas segue-se o ciclismo, com novo pico de popularidade desde que, em 2019, o "Niño Maravilla" foi o primeiro a ganhar a Volta a França. Bernal é uma estrela e o seu acidente deixou um país inteiro a rezar pela sua recuperação. De um ponto de vista financeiro, o corredor de Bogotá não terá problemas: o seu salário, que estava estimado em 2,7 milhões de euros anuais, terá aumento para cinco milhões coma renovação pela Ineos até 2026.

Vai haver inquérito

A Fiscalia General da Colômbia, equivalente ao Ministério Público, abriu um inquérito ao acidente de Egan Bernal, para apurar se existe alguma responsabilidade criminal. Além da análise ao relatório policial será chamado o motorista do autocarro, que tem 55 anos.