Vasco da Gama comemora cem anos e vai continuar a fazer muito com pouco

Vasco da Gama comemora cem anos e vai continuar a fazer muito com pouco

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Catarina Domingos

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Clube sediado no Parque das Camélias, no Porto, celebra esta quinta-feira cem anos, orgulhando-se de, entre tantas dificuldades, ter uma marca forte no basquetebol nacional.

"Nunca tão poucos, com tão pouco, fizeram tanto pelo basquetebol" - a frase é de Manuel Nunes, presidente entre 1981 e janeiro de 2009 (altura em que morreu), e está gravada numa placa à entrada da Oficina Alves Teixeira, no Parque das Camélias, no Porto, descrevendo na perfeição o percurso do Sporting Vasco da Gama, que esta quinta-feira comemora cem anos de existência, tendo uma grande obra feita no basquetebol, depois de, curiosamente, a primeira modalidade ter sido o futebol.

Caracterizados por uma grande força de vontade, até pelas constantes carências, os vascaínos tornaram-se, mesmo assim, um dos emblemas mais titulados do panorama nacional, celebraram mais de uma centena de troféus a nível distrital e formaram mais de 20 jogadores internacionais. "Realmente, a frase do sr. Manuel Nunes é muito rica, porque tudo se resume a poder financeiro. Nós, com tão pouca estrutura, formamos atletas, colocamos gente na Seleção, gente noutros clubes...", solta Manuel Rodrigues, presidente desde 2017, mas chegado ao clube na fase do "assalto", em 1975, seguindo as pisadas do avô e dos pais, que jogaram basquetebol no histórico portuense.

Depois de fundado na Casa 7 da Rua 6 do Bairro Herculano, o Vasco da Gama andou sempre por recintos alheios até ir parar ao Parque das Camélias, próximo da primeira sede e de onde foi expulso na década de 50 pela Direção-Geral de Transportes Terrestres para se construir ali uma central de camionagem, o que nunca avançou. "Isto era um local de espetáculo, com combates de luta livre, de boxe, e que também tinha o basquete. Depois fecharam isto. No pós-25 de Abril, uma altura em que muitos espaços eram tomados de assalto, nós aproveitámos, em pleno dia, para recuperar o que já nos pertencia desde os anos 50", contextualiza o dirigente.

Nos dias de hoje, Manuel Rodrigues diz que o Vasco da Gama "sobrevive", tendo como principais fontes de receita o aluguer do pavilhão a duas escolas durante o dia, a mensalidade dos praticantes, donativos e o parque de estacionamento, com capacidade para 50 lugares. E é por ele que os jogadores têm de passar para se irem equipar. "Somos um clube de elite no terceiro mundo. Se estiver a chover, eles vão pelo meio da chuva do pavilhão para os balneários. Nunca estive noutro clube, não sei como é, mas o que nos distingue é o afeto. Os atletas vêm para aqui porque querem, não há dinheiro para dar a ninguém, mas damos afeto. E depois também somos atrativos porque ganhamos. Nos últimos anos temos tido a sorte de ganhar mais vezes que os outros a nível da formação", defende.

Com cerca de 120 atletas e equipas em todos os escalões, depois de esta época ter sido criada a equipa sénior feminina (segunda na Zona Norte B da II Divisão, mas com menos um jogo do que a primeira); e havendo até "baby-basket", o responsável assinala que o número de inscritos tem estagnado. "No centro da cidade, há cada vez menos população portuense, aqueles a que nós chamamos tripeiros, e é muito difícil alguém morar em Gondomar ou em Vila Nova de Gaia e trazer um filho para treinar aqui. É o comodismo, os pais vão buscar os filhos à escola a correr e depois levam-nos para casa. Antigamente, toda a gente dos bairros das Fontainhas, do Herculano e da Sé vinha para o Vasco da Gama. Se não fosse para jogar basquete, entretinham-se a jogar futebol; havia sempre algo", recorda.

Mas outro dos desafios trazidos por essa descaracterização da zona histórica da cidade foi superado com sucesso no ano passado, com a aquisição dos direitos do Parque das Camélias, uma garantia de futuro deste emblema centenário. "Estamos num terreno muito apetecível, e até há bem pouco tempo não havia cedência do espaço para ninguém. Nós conseguimos isso e foi uma vitória", destaca Manuel Rodrigues, sabendo que as dificuldades diárias vão persistir. "Havia melhoramentos que eram óbvios, vamo-nos ajeitando na medida das possibilidades. É como numa casa: só se fazem obras se houver dinheiro. Mas cada vez mais temos de criar condições aos nossos atletas, são eles que dão prestígio ao clube."

Fundação: tudo começou no Bairro Herculano

Hoje espaço de Alojamento Local (AL) para turistas, a Casa 7 da Rua 6 do Bairro Herculano, no centro do Porto, vai ficar sempre para a história do Vasco da Gama, pois foi ali que, a 20 de fevereiro de 1920, um grupo de jovens operários fundou o clube. Os sócios fundadores foram os irmãos Quintela, Armando Plácido, João Vidrago, Boaventura, José Garrido e José Norton. Estes dois últimos foram os primeiros presidentes conhecidos, antecedendo os carismáticos Joaquim Alves Teixeira e Manuel Nunes.

Fernando Sá: "Este é o nosso porto de abrigo"

O dia em que O JOGO esteve no Parque das Camélias coincidiu com uma visita de Fernando Sá, que ajudou a recuperar momentos da história do Vasco da Gama, onde se iniciou com 11 anos, seguindo as pisadas de três dos nove irmãos, José, Rogério e Filipe. Além de se formarem todos no Vasco, os quatro jogaram no FC Porto, tendo os dois primeiros feito parte do título nacional de 1982/83, o primeiro da era Pinto da Costa.

"Todos os que jogaram basquetebol no Vasco da Gama dizem o mesmo: é o nosso porto de abrigo. Se houver alguma dificuldade, temos sempre a porta aberta. Até pelas condições, foi um clube que ajudou muito na nossa formação. Treinávamos com frio no inverno, quando chovia só fazíamos treinos de passe. Tudo isto eram provas de superação", relata, recordando o presidente Manuel Nunes. "É das pessoas que mais admiro no desporto, um exemplo de bondade. Foi responsável por levar muitos atletas à escola, por permitir que muitos, que nunca tinham tido a oportunidade de tomar um banho de água quente... Não sei quantos jogos fiz cá, como jogador e como treinador, mas ele, no final, só tinha uma pergunta para nos fazer: "Magoou-se alguém?" Nunca perguntou se tínhamos ganho ou perdido", lembra.

Em 1999/2000, após sair do FC Porto, Sá regressou às origens para abraçar a carreira de treinador, começando logo a ganhar - atualmente é o irmão Filipe que integra a Direção. "Voltar foi a parte boa de ter deixado de ser profissional, porque não foi uma fase fácil da minha vida. Vir para cá treinar, estar perto das pessoas que me faziam sentir bem, ajudou-me muito. Ainda por cima fomos campeões nacionais de juniores B no meu primeiro ano", conta o técnico, que nas épocas em que esteve no Vitória de Guimarães levou vários jogadores das Camélias para a Cidade-Berço.

Um berço de nomes sonantes

Além do quarteto da família Sá, o Vasco da Gama foi o ponto de partida para muitos outros basquetebolistas bem conhecidos do panorama nacional, tendo mais de duas dezenas chegado a internacionais, fosse nos escalões de formação, fosse pela Seleção Nacional sénior. Há até uma espécie de corredor da fama com todos os nomes e fotografias na sede do clube, localizada no lado oposto ao Parque das Camélias, onde começaram então Tó Ferreira, Raul Santos, Jorge Almeida, José Cardoso, Jonas, Pedro Miguel Neves ou Rui Mota, entre outros. A grande maioria mantém contacto com o clube. "O Pedro Miguel, por exemplo, costuma vir cá", conta o presidente Manuel Rodrigues sobre o base que depois foi para o FC Porto e se sagrou cinco vezes campeão pelo Benfica (entre 1991 e 1995).

Nos anos mais recentes, foi no histórico emblema portuense que se formaram João Torrie, Miguel Toreia, Litos Cardoso (estreou-se na Liga Portuguesa com apenas 16 anos), Gustavo Teixeira (campeão europeu de sub-20 - Divisão B) e Hugo Ferreira (no último verão rumou aos Estados Unidos, onde é "rookie" pela Universidade de Cleveland State, da NCAA1).

CURIOSIDADES

Influências vindas do Brasil

O nome do histórico portuense foi inspirado no emblema brasileiro Clube de Regatas Vasco da Gama (Rio de Janeiro, 1898), pois, à época, a família de Joaquim Alves Teixeira, um dos grandes impulsionadores do clube, estava emigrada no Brasil, existindo essa troca de influências.

Do alcatrão às três paredes

Desde o regresso ao Parque das Camélias, em 1975, e nos 29 anos seguintes, só havia condições para treinos ao ar livre, com o recinto em alcatrão e a descoberto. Em 2004 nasceu a Oficina de Basquetebol Alves Teixeira, com cobertura, mas apenas três paredes. A parede em falta só seria construída em abril de 2010, com a ajuda da Câmara Municipal do Porto.

Vasco deu nova vida ao piso do Rosa Mota

Outro marco importante na história do Vasco foi a aquisição do piso do Pavilhão Rosa Mota, em abril de 2013. "Foi-nos cedido pela câmara, estava debaixo de uma bancada a levar com chuva. É do melhor que pode haver, mas precisa de manutenção e o Vasco não tem dinheiro", diz Manuel Rodrigues.

Comemorações com livro e jantar

As celebrações do centenário do Vasco da Gama começam esta quinta-feira, com o hastear da bandeira na sede e uma missa em memória de vascaínos falecidos na igreja de Santo Ildefonso. Sábado é dia da apresentação do livro "Memórias", na Casa da Beira Alta, na Rua de Santa Catarina, e de jantar comemorativo, no Parque das Camélias, com a presença do secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo, e do presidente da Federação Portuguesa de Basquetebol, Manuel Fernandes.

Velhas guardas vão jogar

A comemoração dos cem anos vai prolongar-se pelo próximo fim de semana, para o qual está a ser preparada a realização de um jogo de velhas guardas do clube no Parque das Camélias.