Santi Abad: "O basquetebol arruinou a minha vida"

Santi Abad: "O basquetebol arruinou a minha vida"

Nunca passou de uma grande promessa do basquetebol espanhol dos anos 80. Retirou-se aos 33 anos e, agora, conta numa entrevista ao diário El Mundo que sempre sofreu de depressão: "Ter de conciliar a tristeza com o desporto é horrível, um esforço terrível".

"Arrependo-me de toda a minha carreira, mas, era inevitável", diz Santi Abad, outrora um "jogador maldito" do basquetebol espanhol. Nos anos 80, foi uma grande promessa da modalidade, no entanto, nunca passou desse rótulo, até se retirar, aos 33 anos. Durante todo esse tempo de picos de brilhantismo em campo e fama de personagem "difícil", sofreu de depressão. Começou a tratá-la apenas depois de deixar a competição e decidiu agora falar sobre a doença, numa entrevista ao El Mundo: "Se não tivesse jogado basquetebol, não sei o que teria sido de mim. Eu nasci para aquilo, tinha um dom. (...) O basquetebol arruinou-me a vida, mas, também era a única coisa que sabia fazer".

"A doença continua aqui, mas, já posso falar sobre ela sem começar a chorar", diz Santi Abad, quando se lhe pergunta por que decidiu tornar pública a luta que trava com a depressão. "Porque estou estável emocionalmente e não quero esconder mais o que se passa. Oxalá sirva de exemplo, porque estou certo de que, hoje mesmo, (...) há desportistas com depressão. E eu posso falar disso. Outros não."

Mesmo nos melhores momentos da carreira, a vida do basquetebolista era um inferno. A pressão nos treinos assumia um peso esmagador, que a estrutura da alta competição não soube aliviar. "Ia para casa a chorar, depois dos treinos. Tanto que, às vezes, tinha de parar o carro. Não tinha vontade de treinar, mas continuava a fazê-lo", conta. "Um dia, disse para mim mesmo que não podia mais e pedi ajuda ao traumatologista do clube. Com toda a boa fé do mundo, ele falou com o clube e o treinador ficou a saber. Uns dias depois, tentou passá-lo à imprensa para justificar as críticas que me fazia: "Vêem, Santi está louco...". Não voltei a pedir ajuda".

Santi Abad convivia com uma rotina doentia: "Ter de conciliar a tristeza com o desporto é horrível, um esforço terrível." "Não me apetecia levantar da cama, tinha stress, ansiedade, não tinha vontade de viver. A minha vida era uma merda. Dormia três ou quatro horas, mas era um portento físico. Era capaz de não dormir e, no dia seguinte, jogar como uma besta", conta.

Quando se retirou, entrou em depressão profunda. "Não consigo mexer-me. Não consigo respirar. É quando, realmente, não quero viver, quando peço ajuda e começo a medicar-me. Vou ao psiquiatra e inicio um tratamento porque estou numa situação quase paliativa. Só dormia e emagrecia, dormia e emagrecia". A luta para recuperar o equilíbrio emocional durou "anos" e, hoje, Santi Abad sente que é um dever falar do assunto, para ajudar os que experimentam igual sofrimento, em silêncio.