Perfil: o mundo condena-o, mas os Estados Unidos agradecem-lhe

Perfil: o mundo condena-o, mas os Estados Unidos agradecem-lhe
Bruno F. Monteiro

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Rudy Gobert foi notícia pelos piores motivos no momento em que o mundo luta contra a pandemia do Covid-19.

As imagens de Rudy Gobert a tocar em gravadores e telemóveis de jornalistas quando (sem saber) já se encontrava infetado com a Covid-19 geraram indignação mundial depois de o teste ao jogador ter dado positivo. Um colunista do "Arizona Central" chegou ao extremo de o apelidar de "Tifoide Rudy".

A rápida propagação do novo coronavírus nos Estados Unidos, porém, tem alterado um pouco a opinião dos norte-americanos sobre o francês nascido em Saint-Quentin, uma pequena cidade a norte de Paris. A brincadeira ainda é rotulada de mau gosto, mas um colunista do "USA Today" e outro do "Salt Lake Tribune" acreditam que todos lhe devem um agradecimento, porque foi graças ao poste dos Utah Jazz que a sociedade percebeu o perigo que este vírus constitui, provocando um efeito dominó que parou o desporto no país. A NBA (basquetebol) e a NHL (hóquei no gelo) estão suspensas. A NCAA (associação que organiza os desportos universitários) cancelou todos os torneios, incluindo o famoso March Madness (basquetebol). A MLB (basebol) adiou o início da época. E a NFL (futebol americano) parou todos os treinos antes do draft.

Até ser notícia pelos motivos mais infelizes, Gobert estava, aos 27 anos, a viver a melhor época na NBA. Tinha disputado o primeiro All-Star da carreira - jogou pela equipa de Giannis Antetokounmpo - e via o orgulho do pai a crescer de dia para dia. "Isto significa tudo para ele", contou Gobert ao "The Undefeated". "Quando falamos, sinto que estou a viver um sonho que ele nunca concretizou", acrescentou. O francês é filho de Rudy Bourgarel, um ex-jogador natural de Guadalupe, que ficou à porta do maior campeonato de basquetebol do planeta em 1989. A frustração levou então Bourgarel até França, onde conheceu a mãe do agora poste dos Jazz. Ainda assim, foi Corinne Gobert quem cuidou de Rudy e dos dois irmãos, trabalhando como cabeleireira e esteticista para pagar um apartamento numa região onde a mistura de raças nem sempre era entendida. "Sou mestiço. Mas para os miúdos brancos eu era negro. Nunca fiquei ofendido", explicou o francês.

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Gobert começou por experimentar outros desportos. Praticou judo, atletismo, karaté e boxe até enveredar pelo basquetebol, na sequência de um acidente com uma faca, em que acabou com um golpe de cinco centímetros numa mão ao tentar decapitar um dragão de plástico. Deu nas vistas pelos franceses do Cholet Basket e em 2013 foi selecionado pelos Jazz na 27.ª posição do draft. Desde então, assumiu-se como um dos rostos da franquia de Utah e conquistou o prémio de Melhor Defesa do Ano por duas ocasiões (2018 e 2019). Agora, luta para se defender do novo coronavírus.