Moncho López em entrevista a O JOGO: "Tivesse cada cidade espanhola um Rui Moreira"

Moncho López em entrevista a O JOGO: "Tivesse cada cidade espanhola um Rui Moreira"
Catarina Domingos

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Enquanto não se sabe se voltará a haver basquetebol em Portugal esta época, o treinador do FC Porto deu entrevista a O JOGO, mostrando que quer ficar no Dragão, mas respeitando qualquer decisão que seja tomada; desejando que ainda se jogue esta época e abordando a forma como Espanha lidou com a crise pandémica

A viver em Portugal há mais de uma década, o galego, natural de Ferrol, optou por permanecer com a família no Porto durante o confinamento. "Não tenho outra morada em Espanha", refere o treinador. E Moncho revela como tem passado estes dias de isolamento.

Tem saudades da rotina que tinha antes da paragem forçada?
-Tenho muitas saudades dos treinos e jogos, mas não tanto pelo facto de fazer aquilo que é o meu trabalho, mas sim pelo que significa: voltar à normalidade, ao nosso mundo livre de circunstâncias tão constrangedoras como as atuais.

Porque ficou em Portugal nesta fase?
-Estou com a minha esposa e a nossa filha. Esta é a nossa casa. Há muitos anos que fixámos a nossa residência no Porto e, de facto, não tenho outra morada em Espanha.

Assusta-o a situação de Espanha?
-Estou muito preocupado, e também triste, por ver como a classe política utilizou a crise para interesses partidários. Os portugueses podem estar muito orgulhosos dos líderes políticos e não falo apenas do Presidente da República e do Primeiro-ministro. Disse muitas vezes aos meus amigos e familiares que, se em cada cidade espanhola houvesse um Rui Moreira, tudo seria melhor. Felizmente a minha família está bem e a região da Galiza é uma das que menos impacto sofreu.

Como tem passado estes dias em isolamento? O que gosta de fazer e não fazia antes?
-Sou muito disciplinado com horários, e começo cedo o dia para fazer alguma atividade física e depois distribuir o tempo entre o trabalho e as coisas de casa. A parte boa é que estou muitas horas com a minha filha e todas as refeições são em família. Aproveito para ler mais, sobretudo em papel; é uma maneira de evitar estar tempo a mais em frente ao ecrã da tablet e do computador.

Moncho López e a aproximação do fim de contrato: "Sempre esperei pelo FC Porto"

Já passou mais de um mês desde que Moncho López esteve pela última vez no banco a orientar um jogo dos azuis e brancos, que estavam em contagem decrescente para defender a Taça de Portugal. Com o futuro do basquetebol incerto, o técnico diz que ainda quer jogar esta época.

Ainda acredita que haverá campeonato?
-Acredito, mas sei que é muito difícil e as probabilidades dependem de uma série de circunstâncias imprevisíveis neste momento. Nós, profissionais do desporto, temos a obrigação de querer retomar a competição, pelos compromissos contratuais com os nossos clubes e porque está nas nossas mãos transmitir à sociedade que temos que estar calmos, ter paciência e confiar que tudo vai correr bem, mesmo com esta realidade que estamos a viver.

O FC Porto quer jogar? Em que modelo?
-O FC Porto quer retomar a competição, mas dentro de uma lógica de igualdade para todas as equipas que queiram fazê-lo. Alguns clubes podem ter muitas dificuldades para, num curto espaço de tempo, reunir o necessário para voltar à atividade. Depois de haver condições gerais de regresso à vida social e à atividade económica, tem de se dar tempo aos clubes que precisem de planear viagens de regresso dos seus atletas do estrangeiro. Seria incoerente um clube estar a fazer treinos coletivos quando outro tem jogadores ainda em quarentena ou isolamento. O modelo de competição dependerá do número de equipas.

Concorda com o pressuposto de não haver campeão pela classificação de 11 de março?
-Não faz nenhum sentido proclamar um campeão nas atuais circunstâncias. Nesta altura, o único campeão da Liga é o atual detentor do título, a Oliveirense. Há modalidades em que, se uma prova for suspensa por razões de força maior, o regulamento diz que quem lidera nesse momento é o campeão. Mas isso aqui não acontece. Acredito que depois da pandemia faça sentido colocar essa regra. Assim, todos começam em pé de igualdade e a saber o que acontecerá numa situação deste género.

Se não se voltar a jogar, ficará um sabor amargo?
-Será triste, mas nada é comparável à tristeza que me provoca o que estamos a viver, com tantos doentes e tantas mortes. Não faz sentido um desportista queixar-se, quando vemos pessoas a perder o emprego, pequenas empresas em risco de falência, vítimas de violência doméstica confinadas com os agressores, dificuldades em atender as necessidades da população em idade escolar... O sabor amargo é o dos profissionais da saúde, a lutar de olhos nos olhos com a doença; ou o esforço pouco reconhecido dos professores a tentar manter o ensino.

Está em final de contrato, assim como vários jogadores do plantel. Já tomou decisões sobre o seu futuro?
-O mais importante são as decisões imediatas, resolver os problemas para mantermos o plantel ativo e estarmos preparados para jogar se a competição for retomada. Todas as conversas e decisões relativas ao futuro têm que ser adiadas, sou o primeiro a assumir isso e transmiti-o ao Vítor Hugo.

Este momento difícil dá-lhe vontade de prolongar o seu trabalho?
-Se fala em continuar como treinador no FC Porto, o meu percurso responde por mim: desde 2009 não me coloquei no mercado e sempre esperei que o FC Porto decidisse o seu futuro na secção de basquetebol. Nesta altura, nada muda em relação à minha maneira de pensar, mas é obvio que os finais de ciclo acontecem no desporto e que a direção vai tomar a melhor decisão para o presente e futuro da equipa, como sempre fez.

Emocionado com as palavras de Pinto da Costa

Moncho López chegou ao Dragão em 2009, "após uma época em que o FC Porto não venceu qualquer título, foi oitavo na fase regular e eliminado nos quartos de final do play-off"."Dez anos depois o FC Porto soma 14 títulos nacionais. Sem contar com esta, nas sete épocas em que orientei a equipa na Liga fomos campeões duas vezes, as mesmas que a Oliveirense e uma menos do que o Benfica", realça. Por isso, "há muitos momentos marcantes". "O mais recente foi na entrega da última Supertaça ao Museu: o presidente definiu-me como treinador da casa. Fiquei emocionado por tudo o que isso significa", completa.

As perdas de Tanner McGrew e Max Landis: "Lesões que foram mesmo dramáticas"

À data da interrupção da Liga, os dragões eram terceiros, com 40 pontos, a três do líder Sporting.

O que recordará se não houver mais competição numa temporada marcada pelas lesões graves?
-Nunca esquecerei essas lesões nem os momentos vividos a seguir, foram mesmo dramáticas e com um impacto brutal em termos emocionais na equipa, além da evidente diminuição de capacidade competitiva. Sempre encontrei no nosso diretor, Vítor Hugo, apoio e estímulo para que mantivéssemos o foco e a ambição de sermos campeões.

Se não tivesse havido baixas, o FC Porto teria outra classificação?
-Não vale a pena fazer esse exercício de imaginação. Há que dizer que a época do FC Porto estava a ser boa. Ganhámos a Supertaça, estávamos prontos para vencer a Taça de Portugal e matematicamente apurados para o play-off, no qual se decide o campeão nacional. Mas é verdade que, na data em que há a lesão do Max Landis, a nossa equipa era líder e a única sem derrotas em jogos oficiais.

Uma equipa que não parou
Apesar do confinamento, Moncho López conta que "os atletas mantêm atividade física, com os planos individuais de trabalho do preparador físico e sessões online entre todo o grupo". Na equipa técnica, o teletrabalho não foi novidade. "As nossas tarefas já tinham muito disso e continuamos com as mesmas dinâmicas. Passamos várias horas a analisar vídeos de jogos e treinos, a desenvolver ações de formação interna e a trabalhar nos diferentes cenários que podem vir a acontecer."

A partida dos norte-americanos
"Aconselhei a todos ficar, mas compreendi o receio dos mais novos, assustados quando os EUA pediram para regressarem, com risco de ficarem indefinidamente na Europa se não o fizessem. Com três dos quatro que foram tem sido simples manter o contacto. Está tudo bem com eles e com as suas famílias. Envio material tático para manterem a ligação ao nosso trabalho; estão a conseguir fazer treinos de preparação física e mesmo alguns treinos com bola em pavilhão", relata o técnico.