Federação abre inquérito a denúncia de assédio de ex-árbitra: "Comecei a tomar banho e..."

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 foto Pedro Rocha/Global Imagens

Caso remonta a 2019, tendo sido agora conhecido pelo testemunho dado pela vítima num jornal universitário, visando "um árbitro com muito prestígio e com uma carreira bastante notável".

O Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Basquetebol anunciou esta quarta-feira a abertura de inquérito a uma denúncia de assédio feita por uma ex-árbitra na publicação Diferencial, órgão de informação dos estudantes do Instituto Superior Técnico.

No testemunho, a antiga árbitra dá conta de um episódio que remonta a 2019, ano em que decidiu experimentar a arbitragem e foi nomeada para apitar um jogo "um árbitro com muito prestígio e com uma carreira bastante notável", identificado com nome fictício.

"Toda a gente me disse 'aproveita, vais aprender imenso', 'não deixes de fazer perguntas', 'o João é mesmo óptimo, ouve tudo o que tem para te dizer'. O João, além de árbitro com uma enorme influência sobre quase toda a gente, tem também um cargo relevante nas estruturas de relevo na associação e na federação, pelo que a sua opinião sobre mim podia influenciar significativamente a minha "carreira" na arbitragem", escreveu a jovem.

Depois dos e-mails que precederam a partida se terem estendido "mais do que com qualquer outro colega" e a antiga juiz ter pedido boleia ao visado como fazia para outros jogos mais distantes, a dupla deparou-se com o cenário de existir apenas um balneário no pavilhão.

"'Se não te sentes bem, equipa-te na casa de banho, enquanto eu me visto'. Tive receio de ser vista como pudica e por isso não lhe pedi que saísse. Portanto, fui para a casa de banho e vesti-me, mas quando saí ele ainda não estava completamente vestido, ainda tinha as calças desapertadas e continuava a falar comigo como se não se passasse nada", recordou, relatando como se sentiu desconfortável também no fim do jogo.

"Quando já estava sem t-shirt e sutiã, ele começa a tentar abrir a porta, faz várias tentativas, até que eu visto e fecho um casaco e abro a porta, esperando que ele só quisesse ir buscar o telemóvel para estar distraído enquanto esperava. Mas quando entrou, sentou-se só numa cadeira e disse: 'é melhor ficar aqui dentro, senão as pessoas lá fora vão começar a falar e fazer perguntas, mas vai tomando banho'", continuou.

"Continuando a ser muito ingénua, como o balneário tinha uma parede entre os chuveiros e o sítio onde ele estava sentado, pensei que ele talvez fosse ficar quieto no seu canto. Comecei a tomar banho e ele perguntou 'posso ir?' e eu respondi 'já estou mesmo a acabar, já saio', ele voltou a perguntar e eu repeti o que tinha dito. Ele veio para os chuveiros, completamente nu, e aí saí logo mesmo, e ele perguntou-me 'já acabaste?' e eu disse que sim, e ele olhou para as minhas pernas e disse 'estás cheia de shampoo, não acabaste nada'", contou ainda.

Depois de ter faltado a formações e avaliações, a ex-árbitra explicou ainda que encontrou o alegado agressor nas Festas do Basquetebol e foi ao perceber que uma oficial de mesa, na altura menor, estava a receber mensagens do árbitro, decidiu quebrar o silêncio.

Ao longo do processo, a jovem falou com três advogados, mas foi-lhe dito que o processo prescrevera e que ia ser arquivado.