"Tenho a sorte ou a infelicidade de não poder fazer teletrabalho"

"Tenho a sorte ou a infelicidade de não poder fazer teletrabalho"
Redação com Lusa

Tópicos

Sara Moreira tem uma "luta diária" para ser mãe e atleta durante o confinamento.

Sara Moreira revela que conciliar o papel de mãe com o atletismo tem sido "uma luta diária, uma adaptação constante" no confinamento, mas diz ter tudo "sob controlo" enquanto prepara a maratona que pode valer-lhe o passaporte para Tóquio2020.

Ser atleta, mulher e mãe durante as últimas semanas "tem sido uma luta diária, uma adaptação constante", confessa à Lusa, sem hesitações, a maratonista do Sporting, antes de ressalvar que o primeiro confinamento foi "mais complicado".

"Em primeiro lugar, porque o Guilherme tinha acabado de entrar no primeiro ano, por isso era uma criança ainda na primeira fase da aprendizagem. Precisava muito de alguém sempre com ele, por isso foi muito complicada a gestão de ter de estar com ele ao mesmo tempo que tinha de treinar. Numa primeira fase, sobretudo, foi difícil, até porque na altura ainda estavam de pé os Jogos Olímpicos. Eu ainda estava a treinar - como estou neste momento - para o apuramento olímpico e foi muito difícil encontrar um equilíbrio entre o treino e o poder acompanhá-lo", sustenta.

Nas últimas semanas, no entanto, "as ferramentas", como lhes chama, são outras, quer porque a escola do filho de sete anos "encontrou uma forma das coisas serem mais fáceis", quer porque "o próprio Guilherme cresceu" e não é "tão dependente".

"E eu, por outro lado, já encontrei as minhas estratégias, ou seja, aquilo que tenho de fazer: há dias em que treino antes de ele começar as aulas, para depois o poder acompanhar; noutros tem o pai, que está numa situação de desemprego - no fundo, não é uma vantagem, mas acaba por poder acompanhá-lo. Está mais fácil, mas não deixa de ser complicado, principalmente porque o Guilherme é uma criança muito enérgica e a escola fazia-lhe bem, no sentido de poder libertar [energia], de poder brincar", conta.

Habituada às pistas e ao asfalto, que a levaram a Pequim2008, Londres2012 e Rio2016, Sara Moreira diz não se sentir confortável no "papel de quase professora", havendo "dias que correm melhor e dias que correm pior".

"Temos de superar e eu, sinceramente, acho que o desporto me deu essa capacidade, da resiliência, da luta constante. Acabo por passar aquilo que sou no desporto para os meus dias com ele e em casa. Tenho não sei se é a sorte ou a infelicidade de não poder fazer teletrabalho. Acredito que [para] quem está em teletrabalho não seja uma situação fácil, mas, no meu caso, ter de fazer o meu trabalho fora, ter de sair, de me deslocar, de fazer o treino, que é uma coisa tão física e tão desgastante, e depois ter de regressar a casa para o acompanhar, acaba por ser uma gestão complicada", pontua.

Em confinamento, o dia-a-dia da atleta de 35 anos foi "adaptado" às rotinas do filho. "Quando uma criança anda na escola - pelo menos na minha situação era assim -, deixava-o de manhã e tinha o dia todo para gerir conforme o meu planeamento de treino, de recuperação e de descanso, que também é fundamental no meu trabalho. Agora, ao estar com ele, as coisas não são bem assim: há dias em que não consigo descansar, tenho toda a gestão das refeições, e tudo o que é a vida do Guilherme está dependente, diariamente, sete dias por semana, de mim. É desgastante. Confesso que é muito mais cansativo", assume.

Atualmente a preparar uma maratona, e ainda sem mínimos para garantir uma quarta participação olímpica, Sara Moreira treina "uma média de quatro horas diárias", pelo que não esconde estar desejosa de que as escolas reabram.

"Ontem, por acaso, levei-o comigo para o local de treino, para não ter de pedir a ninguém para ficar com ele. E para ele, enquanto criança, também é bom, porque, no sítio onde fui, ele pode correr um bocadinho e estar mais à vontade, que é uma coisa que ele precisa e não tem acontecido. E dizia-lhe: "filho, espero que nos próximos 15 dias possas ir para a escola". Tenho mesmo muita esperança que isso venha a acontecer. Estou a necessitar que isso aconteça", confidencia a campeã europeia da meia-maratona de 2016.

Se, no ano passado, o primeiro confinamento foi "um choque" - "eu não estava preparada, e acho que ninguém estava, para uma situação destas" -, agora, a antiga campeã europeia dos 3.000 metros em pista coberta (2013) sente ter tudo "sob controlo".

"Adaptámos a parte do planeamento para a competição e as coisas começaram a correr de forma natural. Não é fácil, mas, havendo um planeamento, sentes logo que estás a conseguir controlar tudo de uma forma mais normal. Este ano, as coisas estão mais simples. [...] Apesar de, em termos físicos e mentais, ser muito mais desgastante e cansativo, estou a conseguir controlar. O facto de estar a treinar como tenho de treinar, duas vezes por dia, e a conseguir, de certa forma descansar - quando não consigo descansar durante a tarde, deito-me mais cedo à noite. Claro que há muita coisa que fica para trás, nomeadamente a parte de ter a casa arrumada, as coisas organizadas", detalha.

Mas, neste confinamento, a atleta-mãe Sara Moreira obrigou-se a distinguir o que é "verdadeiramente importante" do que "pode ser feito amanhã".