Nélson Évora é eterno? Uma carreira relançada já depois dos 30 anos

Nélson Évora é eterno? Uma carreira relançada já depois dos 30 anos

Nélson Évora 'reaprendeu a voar' e a segunda fase da sua brilhante carreira, depois das gravíssimas lesões de 2012 e 2014, aproxima-se mesmo dos seus melhores momentos.

Nélson Évora vai fazer 35 anos dentro de sete semanas e a sua história no atletismo não acaba certamente em Glasgow, com a sua 11.ª medalha em grandes competições de triplo salto.

Verdadeiro sinónimo de resiliência, com sucessivos regressos de lesões graves e carreira relançada já depois dos 30, o melhor atleta português da última década garante que quer ir pelo menos até aos Jogos Olímpicos de Tóquio, no próximo ano, e que há que contar com ele em setembro, nos Mundiais de Doha.

Depois da ligação de anos a João Ganço, o seu treinador desde menino, e com quem foi campeão olímpico e mundial, Nélson Évora 'reaprendeu a voar' e a segunda fase da sua brilhante carreira, depois das gravíssimas lesões de 2012 e 2014, aproxima-se mesmo dos seus melhores momentos.

Os 17,11 metros que hoje lhe deram a medalha de prata europeia em pista coberta, em Glasgow, são o seu melhor do ano e estão ao nível dos 17,20 que valeram o título há dois anos e os 17,10 com que se sagrou campeão absoluto no ano passado, em Berlim.

Fecha a época de 'indoor' como o sétimo mundial, terceiro europeu, e a subir de forma, clara garantia de que aposta nos Mundiais de Doha, para que já tem mínimos.

De pais cabo-verdianos, Nelson nasceu a 20 de abril de 1984, em Abidjan, onde então o pai trabalhava. Laços à Costa do Marfim e mesmo a Cabo Verde são pequenos, já que está em Portugal desde os seis anos, com 'raízes' em Odivelas, na região da grande Lisboa.

Foi justamente em Odivelas que João Ganço o descobriu. O então professor de Educação Física, já um entusiasta de atletismo (criou um centro de treinos na Escola Secundária da Ramada), não teve problemas em convencer o vizinho e grande amigo do seu filho a experimentar as corridas e os saltos.

Dava para perceber que era um sobredotado, tanto no salto em altura como no salto em comprimento, e com 11 anos já se treinava no Benfica, com enorme sucesso como juvenil e júnior.

João Ganço percebeu que o grande sucesso poderia vir do triplo salto, que passou a ser a primeira opção muito clara, sobretudo a partir de 2004, o primeiro ano como sub-23.

Atenta ao potencial incrível de Nelson estava também a Federação Portuguesa de Atletismo, que tudo fez para que em 2002 estivesse naturalizado e pudesse representar Portugal. Logo aí começaram a cair recordes nacionais e as medalhas a aparecer.

O primeiro grande ano da carreira é 2006, quando ultrapassa pela primeira vez os 17 metros e sucede a Carlos Calado como recordista nacional. Era então, com 22 anos, um 'outsider' que já começava a ser notado nas grandes competições e o melhor não tardou a chegar.

Em 2007, em Osaca (Japão), é campeão do mundo, com 17,74 metros, o recorde nacional que só seria ultrapassado no ano passado por Pedro Pichardo, cubano naturalizado. Em 2008, em Pequim'2008, é campeão olímpico, com 16,67, e em 2009, em Berlim, é vice-campeão, com 17,55. Tinha então 25 anos e muito tempo para progredir, ainda.

Mas as lesões começaram a aparecer, a 'minar' a brilhante carreira. Em 2010, uma fratura de esforço na tíbia levou à primeira interrupção importante, falhando os Europeus.

Em 2011, nova lesão no calcanhar, antes do seu verdadeiro 'ano zero', que foi 2012.

De novo, fratura na tíbia no aquecimento para uma prova, logo no início da época. Depois da operação temeu-se o pior, em termos desportivos, já que não competiu em 2012 e regressou no ano seguinte sem conseguir os mínimos para os Mundiais.

O joelho direito também deu problemas, em 2014, obrigando a artroscopia, mas nesse mesmo ano estava já em crescendo, chegando a um muito interessante sexto lugar nos Europeus de Zurique.

Sempre disse que queria voltar ao seu melhor e que a carreira não estava terminada, com a 'sequência negra' de lesões. Provou-o em 2015, passando várias vezes os 17 metros e terminando a época com uma medalha de ouro nos Europeus 'indoor' e bronze - a única que lhe faltava... - nos Mundiais.

Mas Nélson sentiu que o seu caminho estava a 'esgotar-se', com o treinador que tinha, João Ganço, e com o Benfica, onde lhe propunham uma redução substancial nos pagamentos, após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro (foi sexto). Estava-se no final da época de 2016 e, para surpresa de quase todos, rumou ao Sporting e fixou-se em Madrid, no grupo do cubano Ivan Pedroso, antigo campeão do salto em comprimento.

A época de 2017 correu da melhor forma, com a renovação do título europeu de pista coberta e nova medalha de bronze no Mundial. E 2018 foi igualmente muito bom, com medalha de bronze (e recorde nacional -- 17,40) no Mundial de pista coberta, e terminou ainda melhor, com o título europeu de ar livre... o único que lhe faltava.

Em grande e sem problemas físicos de monta desde 2013, cria as melhores esperanças para os Jogos Olímpicos de 2020 e reafirma que ainda não deixou de pensar nas metas de que falava há seis anos - 'voar' para a barreira dos 18,00 metros e o mítico recorde do mundo do britânico Jonathan Edwards (18,29).

Nélson Évora

Data de Nascimento: 20 de abril de 1984, em Abidjan, Costa do Marfim (34 anos).

Naturalizado português em 2002 (Cabo-verdiano de origem).

Clube: Sporting (antes, Benfica, FC Porto e Odivelas).

Treinador: Ivan Pedroso (até 2016, João Ganço).

Melhor marca pessoal: 17,74 metros (2007) - Recorde de Portugal até ser batido em 2018 por Pedro Pichardo.

Campeão Mundial em 2007, vice-campeão em 2009, bronze em 2015 e 2017, 5.º em 2011. Campeão olímpico em 2008, 6.º em 2016. Campeão europeu de pista coberta em 2015, 2017, bronze em 2019. Campeão europeu em 2018, 4.º no Europeu de 2006, 6.º no Europeu de 2014. 3.º no Mundial de pista coberta de 2008 e 2018.