
(FILES) In this file photo taken on July 25, 2021 USA's Simone Biles competes in the artistic gymnastics balance beam event of the women's qualification during the Tokyo 2020 Olympic Games at the Ariake Gymnastics Centre in Tokyo. - Simone Biles withdrew from Olympics all-around gymnastics on July 28, 2021. (Photo by Antonin THUILLIER / AFP)
Antonin THUILLIER / AFP
A tetracampeã olímpica do Rio"16 tem "o corpo e a mente desconectados". São esses os efeitos dos "twisties", que assumiu estarem a afetá-la depois de se ter desequilibrado.
"Sinto que não estou a desfrutar. Queria fazer estes Jogos por mim, mas sinto que estou a fazer por outras pessoas. Entristece-me que me tenha sido roubado o prazer de fazer o que gosto para agradar os outros", estas foram as declarações de Simone Biles ao abdicar da final all-around, um dia depois de ter abandonado a final por equipas.
A federação norte-americana, que, no Twitter, explicou a ausência de Biles - "para poder concentrar-se na sua saúde mental ", lê-se em comunicado -, assegurou que "Simone continuará a ser avaliada diariamente, para determinar se participa ou não nas finais dos eventos individuais da próxima semana".
Biles, de 24 anos, chegou a Tóquio a defender o estatuto de tetracampeã no Rio"16 (equipas, all-around, salto e solo) e em busca de superar os nove ouros olímpicos de Larisa Latynina. Havia um mundo para deslumbrar e ainda mais um recorde a bater: conquistar o segundo ouro consecutivo no all-around, o que não acontece há mais de 50 anos, desde a checoslovaca Vera Caslavska, em 1968.
A pressão caiu-lhe em cima e a superestrela cedeu. Biles diz que perdeu a confiança e uma tristeza inexplicável abateu-se sobre a ginasta que afinal não é extraterrestre, mas simplesmente humana.
Praticante de uma modalidade que figura na lista das dez mais duras e perigosas, com características que a tornam superexigente, Simone Biles assumiu estar "a lutar contra a própria cabeça", despertando o mundo para um lado oculto. A ponta desse véu já fora levantada pela introvertida tenista Naomi Osaka, quando revelou problemas de "ansiedade social" há pouco mais de um mês, em Roland Garros.
Na BBC, a treinadora americana Christina Myers e a ginasta britânica Claudia Fragapane utilizaram o termo técnico "twisties" para explicar o conflito interior de Biles, que será comum na modalidade. "É um bloqueio mental que leva à perda do sentido de espaço e dimensão e consequente controlo do corpo, impedindo a segura receção no solo. Acontece quando o corpo e a mente desconectam", afirmou Myers.
"Ela tem um peso enorme sobre os ombros. Todos pensam que ela não é humana e que vai fazer sempre algo perfeito e do outro mundo. Mas ela é humana e a pressão foi demasiada. É muito perigoso quando a confiança falta. Podemo-nos magoar e eu passei por isso", contou Fragapane, que em abril, durante as incertezas da qualificação para Tóquio, viu o seu corpo bloquear; ao insistir, caiu mal e sofreu uma contusão cerebral, sendo hospitalizada.
O termo "twisties", que foi utilizado pelo própria Simone Biles para descrever o seu problema, é pouco conhecido fora da ginástica, mas rapidamente identificado pelos seus praticantes, que salientam o seu perigo.
