"Sporting é íman que atrai atletas", diz Pedro Soares em exclusivo a O JOGO

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Jorge Amaral / Global Imagens
Recém-sagrado campeão europeu de clubes, o treinador da equipa de judo do Sporting, secção que refundou em 2007, explica que a dinâmica imposta está na base do sucesso.
Sentado na sala de judo em que formou e continua a formar campeões, Pedro Soares, de 44 anos, foi sendo felicitado pelos seus atletas, pela conquista inédita de um título europeu, enquanto falava com O JOGO.
Uma semana depois, qual a sensação de ganhar a Champions?
-Foi um título recebido com alguma tranquilidade, mas também muita emoção e alegria. Não foi obra do acaso, porque há um percurso de cinco anos na Europa e para trás houve um percurso nacional, onde nos emancipámos. A seguir, em termos europeus, houve o primeiro bronze na Liga Europa, que nos permitiu subir a este escalão e depois três bronzes nesta prova. Era mais ou menos expectável que numa das edições seguintes chegássemos ao ouro. Podia demorar um ano, três ou cinco. Sabíamos que precisávamos de um dia bom e aconteceu. E foi uma verdadeira prova por equipas, porque praticamente todos tiveram oportunidade de competir. Curiosamente, o primeiro encontro foi o mais difícil. Todos os atletas corresponderam sempre e isso fez com que a equipa chegasse mais perto da perfeição.
A cobrança vai ser maior?
-Cobrança não há, há que ter cultura desportiva para saberem que estamos a competir com as melhores equipas da Europa e, por inerência, do mundo. Podemos ser eliminados na primeira ronda ou na semifinal sem que a prestação tenha sido desprestigiante. Ganhámos 3-2 ao Valência e aquela equipa, se calhar, iria à final connosco, caso ficasse do outro lado do quadro. É como na Champions no futebol, em que Real Madrid, Juventus ou Bayern podem ser eliminados numa fase precoce. Não é uma prova fácil e por isso só vencemos ao fim de cinco anos. É um desafio, existe o compromisso de defender este título e todos os atletas têm a consciência de que daqui para a frente será diferente.
Venceu esta prova como atleta. Sente-se mais realizado como treinador?
-É uma realização muito maior, pois é o patamar mais alto da carreira de um treinador de clube. Como atletas ganhamos muita coisa e no dia a seguir já estamos noutra prova. Como treinador é indiscutivelmente o momento mais alto da minha carreira, até porque não cheguei ao Sporting ontem. Formei todos estes atletas, acompanhei-os nos momentos bons e maus e sou eu que escolho voos, hotel, fisioterapeuta, dia e hora do regresso.
O Sporting é um clube formador. Qual é o segredo para tantos êxitos?
-O clube foi montado para ter essa dinâmica. Cheguei em 2007, com meia dúzia de jovens que trouxe da Damaia, um deles o Jorge Fonseca, e precisei de um catalisador para lhes mostrar o que era o atleta de alto rendimento. Fiz dois Jogos Olímpicos, mas já estava fora do prazo e o João Pina abriu horizontes a estes atletas. Depois veio a Joana Ramos e a partir daí jovens de outros clubes que quiseram juntar-se a um grupo que se destacava pelos resultados. A bola de neve continuou a crescer e a quantidade traz sempre alguma qualidade. A dinâmica nunca se perdeu e julgo que não há segredo. Por sermos fortes e trabalharmos bem, o Sporting é quase um íman que atrai atletas de qualidade.
"GOSTAVA DE IR SÓ COM OS DA CASA"
Apresentou uma equipa com dois mongóis e um campeão do mundo, Nikoloz Sherazadishvili. Como faz o recrutamento?
-O Niko já está no clube há cinco anos, como o Orujov, que só não competiu porque mudou de categoria de peso. O Oleinic lesionou-se no cotovelo e, a um mês da prova, entrei em contacto com os mongóis, porque também achei que por serem colegas de seleção e amigos trariam maior espírito de equipa. O recrutamento passa por convencê-los a representar o clube e eles disseram logo que sim, pela dimensão do Sporting. E não é fácil dizer que sim numa prova que está entre o Grand Slam de Osaca e o Masters.
O Niko foi campeão do mundo este ano. Como detetou o potencial dele?
-Com o meu percurso, comecei a ter visão abrangente, uma visão cá de cima. Há cinco anos, o Niko nem sequer era campeão de Espanha e não é difícil sê-lo. Eu achava que era um rapaz interessante, com enorme margem de progressão e humildade. Foi isso que me levou a apostar nele, além do facto de estar aqui ao lado. Via nele um futuro campeão do mundo, mas nenhum estrangeiro tem lugar garantido. Abdiquei do Orujov por ter o Anri. Que equipa abdicaria de um vice-campeão olímpico e mundial?
Será possível ir à Champions só com a prata da casa?
-Gostava e vamos trabalhar para isso, mas não depende só de nós, por causa da condição morfológica. Não conseguimos ter um 90 quilos de qualidade para esta prova. Havia o Célio em Portugal, mas abandonou. Não está nas nossas mãos. Seria injusto não ter aspirações de vencer a Champions por não ter um 90 kg. A União Europeia de Judo permite aos clubes terem estrangeiros, o que torna tudo mais lógico e equilibrado.
Qual o investimento num atleta estrangeiro?
-Depende do prize money. Se formos primeiros, ganhamos 35 mil euros. Disse aos mongóis que, se se portassem bem, compravam um carro; se se portassem mal, compravam um cavalo para andar na montanha... Não é o cachê que os faz vir, porque não é muito e não direi quanto é, mas o aliciamento do prize money. Se ganharmos, não custa nada pagar-lhes bem.
"RESPEITO SER-ME-Á DEVOLVIDO"
Pedro Soares sente-se bem no emblema verde e branco e tenciona guiar os leões a mais títulos europeus. Tendo total confiança no atual presidente, Frederico Varandas, só espera pela resolução de uma situação que o tem perturbado.
No final da Champions, disse-nos que terminava uma etapa na carreira técnica. Não está de pedra e cal no Sporting?
-Hoje em dia isso não acontece em lado nenhum, mas não tenho vontade de sair e quero vencer mais umas Ligas dos Campeões. Mas as coisas nem sempre correm como queremos, às vezes aparecem-nos adversários dentro da própria casa, o que não esperamos. Do fundo do coração, espero que tudo se resolva e que respeitem o trabalho que fiz ao longo destes anos e o suor dos meus atletas. Não tenho nenhuma imposição a fazer, nem urgência na resolução desta situação, mas é algo que me vai perturbando. Vou aguardar e acredito que tudo se resolverá a bem. E, assim, espero continuar de pedra e cal no Sporting e continuar a conquistar mais títulos para este clube.
Está a falar da contratação dos ucranianos Georgii Zantaraia e Daria Bilodid...
-Contratação feita pelo gabinete olímpico e não pela Direção ou presidente, nem por mim. Só tenho a falar bem desta Direção e do presidente, de quem gosto muito. Quero acreditar que foi um mal-entendido e assim tenho de esperar serenamente. Com o percurso que tenho, primeiro como sócio há 30 anos e depois pelos anos que deixei neste clube, em termos de trabalho, quero acreditar e tenho a certeza de que o respeito me vai ser devolvido. Confio muito neste presidente e sei que tudo se vai resolver. É importante que haja paz e não quero acreditar que haja fantasmas na própria casa. Pelos meus atletas, quero que voltemos a ter paz.
