
ACRO Clube da Maia
Carlos Carneiro
Para fazer este trabalho, a reportagem de O JOGO teve de ir a dois espaços de treino. Primeiro às instalações próprias do ACRO, a seguir a um pavilhão propriedade da Câmara Municipal. Com 21 anos, o emblema maiato tem em Lourenço França o diretor técnico desde a fundação e em José Carlos Ribeiro o presidente há cerca de um ano, que pede à edilidade um pouco "mais de carinho".
Imagine o espaço de quatro armazéns numa zona industrial. Agora pense que tal serve para a prática de desporto. Estranho, não é? É tão esquisito que ao chegar ao local só mesmo entrando se percebe. São 2500 metros quadrados e é aí, na freguesia de Vermoim, que se situam as instalações próprias do ACRO Clube da Maia. Porém, como essa área não é suficiente para albergar os 485 atletas, na última contagem, a estas juntou-se, há cerca de três anos, uma outra superfície, propriedade da Câmara Municipal. É impressionante a visita às infraestruturas próprias, são centenas de miúdos, menos miúdos, mais graúdos, numa mescla de gestos, habilidades e exercícios que tornam a ginástica encantadora. "O ACRO Clube da Maia nasceu em dezembro de 2004. Foi um grupo de treinadores e ginastas que começaram a praticar aqui num parque público da Maia. Não tínhamos outro sítio. Depois, paulatinamente, fomos encontrando algumas instalações, a Escola Secundária da Maia, mesmo alguns armazéns que fomos conseguindo alugar. Estivemos muito tempo na Escola de Nogueira da Maia e depois, em 2011, encontrámos este espaço. Primeiro, alugámos apenas uma parte, uma destas naves, e, ano após ano, fomos alargando e neste momento é isto que veem aqui", detalha Lourenço França, dizendo que "na ginástica acrobática o ACRO é o clube com mais títulos em Portugal e até internacionais, com campeões do Mundo e da Europa".
"O clube funciona, digamos, da boa vontade de um grupo de pessoas, como José Carlos, que é o presidente, e que tenta levar isto para frente com o número máximo de crianças a fazer aquilo que mais gostam. E depois elas vão crescendo, vão gostando do que fazem, deixam de ser crianças e passam a ser adolescentes, depois são adultos e continuam aqui. Muitos dos treinadores que temos foram ginastas do ACRO Clube da Maia e continuam ligados à modalidade", prossegue Lourenço, enquanto, em redor do local onde a reportagem de O JOGO conversava, se mantêm atividades e performances, mas, acima de tudo, rostos de quem adora o que está a fazer. "Como é que se gera tanta gente? Com muito amor, é basicamente isso. Se não fosse assim eles já tinham ido embora", diz, nem de propósito, o Diretor Técnico do Clube.


Uma pandemia que foi quase fatal para o ACRO
Num clube cujos resultados não são o objetivo orientador, o que motiva um diretor técnico como Lourenço França foi uma das questões que surgiram. E com resposta contextualizada. "Nós, há cinco anos, vai fazer seis, enfrentámos uma crise muito grande. A pandemia foi quase fatal para nós, porque este é um clube que depende do número de inscritos, dos ginastas que praticam e das organizações que faz. E, não podendo fazer essas organizações, uma das fontes de receita ficou muito limitada. Todos estes treinadores trabalhavam diariamente com os seus ginastas via zoom, mas não é a mesma coisa, como é óbvio. Depois, a ginástica acrobática foi considerada modalidade de alto risco, tal como o judo ou o râguebi, e isso fez com que nós não pudéssemos treinar tanto quanto queríamos. Posto isto, ao fim de cinco anos, ver o clube com quase o triplo de praticantes que tinha em 2020 é um grande objetivo concretizado", afirma, explicando: "Aquilo que nós queremos é que estas crianças que entram aqui, algumas com 18 meses, na classe dos bebés, numa atividade que fazem com os pais, vão seguindo classe a classe e se vão mantendo como ginastas do ACRO Clube da Maia".

José Carlos Ribeiro, presidente
MIAC é o grande "patrocinador"
Depois de muitos anos sob a presidência de Manuel Barros, o líder do ACRO Clube da Maia é agora José Carlos Ribeiro. "A principal fonte de financiamento vem das avenças que os ginastas pagam todos os meses, acrescido dos eventos que realizamos todos os anos. Promovemos, anualmente, várias iniciativas, sejam elas desportivas, sejam cénicas, enfim, formas de angariar verbas para poder fazer face às despesas do clube, que são mesmo muito grandes", afirma. "As despesas começam pelo custo enorme das instalações. Esta onde estamos [armazéns em Vermoim] custa-nos cerca de 6 mil euros por mês, só as rendas, fora os dispêndios inerentes como o consumo de energia, a água, a climatização, etc". Ribeiro, que do papel de pai de uma ginasta passou ao de presidente - "estava aqui há uns anos como pai, fui ajudando e depois surgiu naturalmente como mais um passo", explica -, refere que entre todas as ações geradoras de rendimento, "a principal é o MIAC [Maia International ACRO Cup, este ano a realizar entre 4 a 8 de março, sendo esperados mais de 1300 ginastas]", tendo respondido à pergunta sem hesitações: E a Câmara? "Contamos com uma participação da Câmara Municipal da Maia, que é importante, é um parceiro muito importante do clube, mas não chega a 10% do orçamento. Eu julgo que, por toda a nossa história, merecíamos um pouco mais de carinho e até de outras entidades".

Lourenço França, diretor técnico
Ginástica desde os três no FC Porto
"Eu comecei na ginástica com três anos, como estes pequeninos que estavam aqui à frente na fotografia, por vontade dos meus pais. Comecei no FC Porto, depois percorri vários clubes, Boavista, FC Gaia, tudo enquanto ginasta, e fui tirando o curso de desporto na FADEUP", dá-se a conhecer Lourenço França, 52 anos. "Comecei a dar treinos também muito cedo, porque sabia que era o que queria fazer da vida, eu queria ser professor, gosto de ensinar e especializei-me nessa área", conta ainda França, que está no ACRO há 21 anos. "Estou cá desde a fundação, como já havia ajudado a fundar outros, como o Ginásio Clube da Maia, por exemplo", mas tendo uma história curiosa: "Comecei num clube que também fundei, que era a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Desporto e Educação Física. Criámos o clube enquanto alunos para dar cumprimento a uma necessidade curricular e começar com algo realmente nosso". "A minha profissão é professor de Educação Física, na Escola Secundária Aurélia de Sousa [Porto], mas estou requisitado pela Federação há mais de uma década, sou só treinador", completa.


