
Fernando Mamede
Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens
O antigo presidente da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) Jorge Vieira lamentou esta quarta-feira a morte precoce de Fernando Mamede, considerando-o um "talento absolutamente extraordinário" e uma dos protagonistas da "grande revolução do alto rendimento" em Portugal
"Naturalmente, para o atletismo português, o Fernando Mamede é uma referência. Fez parte de um grupo de atletas, depois de Manuel de Oliveira, treinados por outro grande mestre, Mário Moniz Pereira, que foram uma referência do atletismo português no mundo, mas também em Portugal foram a grande revolução do alto rendimento", destacou o ex-presidente da FPA, em declarações à Lusa.
Para Jorge Vieira, a "geração fundamental" de atletas da qual fez parte Fernando Mamede e Carlos Lopes, entre outros, permitiu "romper com o mito, quase urbano" de que Portugal não estava "predestinado" para grandes resultados desportivos a nível internacional.
"Por todas as suas características, [a morte de] Fernando Mamede é uma perda para todos nós, mas que é uma ordem natural da vida, [ainda que] precocemente. Além dos grandes resultados que obteve, foi sempre alguém que remou um pouco contra aquilo que ele julgava que era a maré, na altura, e também sofreu com isso", frisou o antigo dirigente.
Jorge Vieira lembrou que o recordista estava "bastante doente" e, "ultimamente, tinha poucas aparições ao nível público", considerando que "foi uma figura muitas vezes maltratada".
"Julgo que merecia outro tipo de consideração por tudo aquilo que fez. Os campeões não são só aqueles que chegam às medalhas nos Jogos Olímpicos, são também todos os que fazem grandes trajetos desportivos, e o do Fernando Mamede foi um trajeto enorme ao nível internacional. É uma referência para o atletismo português, para o desporto português, faz-nos falta e deixa-nos saudades", lamentou.
Além de um "talento absolutamente extraordinário, como provavelmente existiram poucos no mundo", para Jorge Vieira, Fernando Mamede "foi um ser humano de excelência a todos os níveis".
"Ao nível fisiológico, ao nível psicológico, seria um "case study" e teria sido extraordinário se tivesse vivido nos tempos de hoje, mas foi sempre um indivíduo com umas qualidades extraordinárias, muitas vezes incompreendido", concluiu.
Fernando Mamede, nascido em Beja, foi detentor durante cinco anos do recorde mundial dos 10.000 metros, entre 1984 e 1989, tendo marcado presença em três edições dos Jogos Olímpicos (Munique1972, Montreal1976 e Los Angeles1984).
Sempre ao serviço do Sporting, clube em que ingressou em 1968 através do também lendário professor Mário Moniz Pereira, Mamede bateu ainda 27 recordes nacionais e três europeus.
A marca mundial do atleta alentejano, de 27.13,81 minutos, foi alcançada em 02 de julho de 1984, em Estocolmo, e durou até o mexicano Arturo Barrios fixar o máximo em 27.08,23 cinco anos depois, em Berlim.
Mesmo assim, passados mais de 40 anos, Mamede continua a ser o último atleta europeu detentor do recorde mundial dos 10.000 metros.
Especialista em provas de fundo, Mamede conquistou ainda uma medalha de bronze no Campeonato do Mundo de corta-mato de 1981, em Madrid.
De acordo com a comunicação social portuguesa, que cita fontes da Federação Portuguesa de Atletismo, Fernando Mamede terá falecido devido a complicações cardíacas.
Ministra do Desporto lembra "um dos ídolos do atletismo nacional"
A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, expressou hoje "profundo pesar" pelo óbito de Fernando Mamede, "um dos ídolos do atletismo nacional", que morreu na terça-feira, aos 74 anos.
"É com profundo pesar que o Governo de Portugal se despede de Fernando Mamede, recordista mundial dos 10.000 metros e um dos ídolos do atletismo nacional. Fernando Mamede será sempre um exemplo maior para o desporto português. Aos familiares e amigos as mais sentidas condolências", assinalou Margarida Balseiro Lopes na rede social X.
O Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) qualificou Fernando Mamede de "uma das figuras maiores do atletismo português", lembrando a forma como "marcou de forma indelével o desporto nacional, destacando-se pelo seu talento, dedicação e pelos feitos que elevou o nome de Portugal além-fronteiras".
"A sua trajetória excecional, marcada pela dedicação, disciplina e espírito de superação, inspirou gerações de atletas e amantes do atletismo. Fernando Mamede deixa um legado ímpar, que permanecerá como exemplo de excelência e de compromisso com o desporto", observou o IPDJ, na rede social Instagram.
Fernando Mamede foi o melhor de sempre sem um grande título
Fernando Mamede foi o melhor atleta português de sempre em provas de pista, tendo detido o recorde mundial dos 10.000 metros, mesmo sem nunca ter conquistado um grande título, em três presenças olímpicas.
Sem a coroação nas principais competições internacionais, cresceu o mito sobre o alentejano de Beja, que morreu na terça-feira, aos 74 anos, por nunca ter conseguido confirmar o seu potencial e talento nos grandes palcos - o denominado "complexo Mamede".
A medalha de bronze no Mundial de corta-mato de 1981 é a honrosa exceção numa carreira intermitente, que tem como pináculo os 27.13,81 minutos nos 10.000 metros do recorde do mundo, estabelecidos em 02 de julho de 1984, em Estocolmo.
No DN Galan, assim se chamava o meeting sueco, Mamede impôs-se a Carlos Lopes, segundo com o tempo de 27.17,48, e que o ajudou a melhorar o recorde que estava na posse do queniano Henry Rono (27.22,48), num feito imortalizado numa produção musical da dupla Éme e Moxila.
O meio-fundo e fundo português, sob a orientação do carismático Mário Moniz Pereira, confirmavam o estatuto à escala planetária, com um registo que durou cinco anos, até ser batido pelo mexicano Arturo Bárrios (27.08,23), e que é ainda a segunda melhor marca portuguesa de sempre, atrás do recorde nacional de António Pinto (27.12,47).
Nascido em 11 de novembro de 1951, Fernando Eugénio Pacheco Mamede cresceu em Beja, tendo enfrentado uma doença pulmonar grave aos três anos. Apesar disso, encontrou no atletismo uma paixão, destacando-se nas competições regionais, até Moniz Pereira o ter descoberto e contratado para o Sporting, em 1968.
Foi sempre de verde e branco - o Sporting foi o único clube que representou, entre 1968 e 1990 - e sob a orientação do treinador de sempre que bateu o recorde mundial, três recordes da Europa e 27 nacionais, da milha aos 10.000 metros.
O homem dos recordes participou em três Jogos Olímpicos, Munique1972, Montreal1976 e Los Angeles1984, sem nunca conseguir demonstrar o seu potencial, tendo, nos Estados Unidos, um mês depois de estabelecer o recorde do mundo, ficado comprovada a má relação com a pressão competitiva.
"Era a prova mais fácil para eu ganhar uma medalha... Não sei o que sinto, não sei o que se passa. Sei tudo, sei que sou o recordista do mundo, que sou mais rápido do que eles. Mas, depois, fica tudo tão confuso. A minha cabeça não aguenta toda aquela confusão... Que grande burrada eu fui fazer... Como é que isto foi possível?", desabafou Mamede, após a corrida que marcaria a parte final da sua carreira.
Ainda tentou enveredar pela maratona, mas desistiu na estreia, em Fukuoka.
Longe das pistas, continuou atento ao desporto nacional, com presenças regulares em eventos do Comité Olímpico de Portugal e da Federação Portuguesa de Atletismo, ao mesmo tempo que assumia alguns períodos de depressão, confirmando a personalidade vulnerável que o traía nas grandes competições.

