
Christian trocou as sapatilhas pelas sandálias e agora corre 2500 quilómetros por ano
Susana Luzir
O dinamarquês Christian Maibohm nasceu com uns pés fora do normal e depois de muitas lesões decidiu trocar as sapatilhas por umas sandálias que imitam as da tribo Tarahumara, no México. Agora corre uma média de 2500 quilómetros por ano, em trilhos de montanha.
Christian nasceu com uns pés fora do normal, o que é um grande aborrecimento para quem tem a paixão de correr ultramaratonas... nos trilhos de montanha. Com os pés curtos e muito largos, foi experimentando vários modelos de sapatilhas e, a custo de alguns músculos rasgados, muitas unhas perdidas e incontáveis bolhas nos pés, só encontrou a paz quando começou a correr com umas sandálias que imitam as construídas pelos próprios Tarahumara, uma tribo de indígenas mexicanos que tem por hábito correr 320 quilómetros, de uma só vez, em dois dias.
"Não há uma forma de calçado que se adapte ao meu pé", explica-nos o cientista dinamarquês Christian Maibohm. Este licenciado em Física, de 43 anos, vive em Portugal há dois anos, depois de ter agarrado uma vaga no Laboratório Internacional Ibérico de Nanotecnologia para desenvolver a tecnologia dos lasers de alta potência, para ser aplicada aos microscópios que vão tentar descodificar os segredos das células. Não foi difícil distingui-lo dos demais corredores no Foz Côa Douro Ultra Trail Adventure: pelas sandálias, claro, e por um kilt concebido pela namorada portuguesa, Magda, com o desenho da bandeira da Dinamarca e da Gronelândia, terra onde nasceu.
Christian começou a correr na estrada em 2008 e em 2010 ensaiou as primeiras corridas nos trilhos, mas os problemas com os pés foram uma constante até à descoberta do livro "Nascido para Correr", de Christopher McDougall, onde leu sobre as façanhas dos Tarahumara. "Primeiro experimentei o calçado minimalista de cinco dedos, mas tinham demasiado material entre os dedos. Descobri depois a empresa que fazia uma sandália de corrida que imita as da tribo. O primeiro modelo tinha a sola muito fina para os trilhos, mas o segundo já era mais apropriado. E o resto é história, tenho corrido com elas há cerca de quatro anos, com uma média anual de 2500 quilómetros. Não tenho tido lesões, provavelmente porque sou obrigado a correr com um ritmo mais lento e a fazer os apoios com a parte frontal do pé", explica.
A corrida mais longa deste gigante dinamarquês (1,80 metros) com pé de princesa (calça o n.º 41) foi de 130 quilómetros. "Estou a adorar este país. Aqui posso fazer praticamente uma corrida por fim de semana", finaliza.
Inspiração na tribo de corredores
Os feitos de corrida da tribo de indígenas Tarahumara, naturais do estado de Chihuahua, numa zona montanhosa do norte do México, causaram impacto quando o jornalista norte-americano e ex-maratonista Cristopher McDougall os apresentou ao mundo no livro de 2009 "Nascido para correr". Estes superatletas, que de forma rotineira fazer cerca de 300 quilómetros, em situações extremas são capazes de correr 700 quilómetros (quase 17 maratonas) em 48 horas. Fazem-no descalços ou com umas sandálias feitas pelos próprios.
Foi este livro que inspirou Christian Maibohm a tentar o uso deste tipo de sandálias. Mas nem tudo são rosas: "Claro que há outro tipo de problemas que decorrem do uso de sandálias. A água e lama são algumas delas. A areia fixa-se nos pés e com o tempo parece lixa, o que me obriga a ir lavando os pés pelo caminho. Depois não tenho apoio lateral e à frente e o pé tem a tendência para deslizar para fora. Mas no geral estou bastante contente", sumariza.
