
Auriol Dongmo
Nuno Brites / Global Imagens
A fé foi um dos motivos para tentar a sorte de rumar a Portugal, altura em que abdicou de representar os Camarões em 2017, depois de ter sido 12.ª no Rio'2016, em oposição contra a falta de cultura desportiva no país africano.
Auriol Dongmo subiu ao lugar mais alto do pódio dos Mundiais de Belgrado, como nova campeã do mundo indoor de lançamento do peso, uma devota de Fátima recuperada da "coisa mais horrível da vida" em Tóquio2020
Em agosto de 2021, na capital nipónica, o quarto lugar, a cinco centímetros de uma medalha olímpica, tinham levado a portuguesa a declarar aquela a pior coisa por que tinha passado, mas a tendência para dominar as adversárias na sua especialidade não abrandou.
A lançadora, natural de Ngaoundéré, nos Camarões, naturalizada portuguesa em 2019, tinha explicado, após esse desgosto, que "não há promessas". "Não é cumprir se me der 'x', é a santificação do dia a dia", admitindo a tristeza com o desfecho da competição.
"Tudo o que acontece na nossa vida é porque Deus quer. Não posso ficar chateada com Deus, estou um bocadinho triste, com certeza, mas vai ser Ele que me vai dar forças para avançar", assegurou então.
E avançou, com a mesma fé em Deus, e devoção a Nossa Senhora de Fátima, que a acompanharam num arranque de 2022 em que bateu sucessivamente o recorde nacional e estabeleceu as melhores marcas mundiais do ano - em Belgrado, reforçou esse estatuto, com 20,43 metros, recorde pessoal e nacional.
A barreira dos 20 metros, essa, já há muito estava estabelecida como objetivo para trazer redenção a "muitos sacrifícios" que teve de fazer, Auriol e família, mais o treinador, para vingar na Europa, e hoje parecia "uma ninharia", com quase meio metro de avanço no melhor ensaio.
A fé foi um dos motivos para tentar a sorte de rumar a Portugal, altura em que abdicou de representar os Camarões em 2017, depois de ter sido 12.ª no Rio'2016, em oposição contra a falta de cultura desportiva no país africano.
Nessa altura, já era bicampeã africana e recordista nacional, com 18,37 metros, uma marca alcançada em 03 de junho de 2017, à qual juntou o recorde português em 25 de janeiro de 2020, que tem reforçado a passos seguros.
Oriunda de uma família católica, cedo ouviu falar nas aparições de Fátima, e na perspetiva de prosseguir a carreira em Portugal contactou o Sporting através das redes sociais. Acabou por assinar pelos "leões" e rumar em março de 2017 a Leiria, onde ficou mais perto de Fátima e foi mãe, em junho de 2018.
"Agora tenho uma motivação extra para lutar não só por mim, mas também pelo meu filho. Fez de mim mais resiliente e mais focada no meu desejo de alcançar melhores resultados", afirmou, em entrevista à World Athletics.
Em Portugal, passou a ser treinada por Paulo Reis, que a tornou praticamente imbatível: ganhou 16 das 17 provas que disputou em 2020 e seguiu a bom ritmo até Tóquio'2020, em que não venceu, como em Torun, na Polónia, nos Europeus de pista coberta.
Aí, há pouco mais de um ano, em 04 de março, lançou 18,55 para assegurar para Portugal o primeiro título feminino em lançamentos em Europeus.
"Olhei para ela [a sueca Fanny Roos, medalha de prata após bater o recorde nacional com um lançamento de 19,29 metros], e para a marca, e disse para mim: "Auriol, o primeiro é o teu lugar, não é de mais ninguém', e lancei com isso na minha mente", contou, na altura, a atleta, citada pela Federação Portuguesa de Atletismo (FPA).
Após o triunfo, lembrou o filho e o treinador, Paulo Reis, que fez "muitos sacrifícios" para a colocar no topo, tendo anteriormente assumido o objetivo de chegar aos 20 metros, hoje cumprido em Belgrado, aos 31 anos, por um país que abraçou, e que a abraçou.
"Eu amo o país e as pessoas. Desde que cheguei em 2017 toda a gente tem sido muito boa para mim", vincou Dongmo, na entrevista à World Athletics.
Longe da "coisa horrível", a "alegria imensa" do ouro, mesmo que não tenha conseguido explicar onde foi "buscar força" para ir ao ouro, sobretudo depois da norte-americana Chase Ealey lançar acima dos 20 metros (20,21 m).
"É uma alegria imensa e uma medalha que eu queria mesmo. Pedi a Deus que me desse esta medalha", referiu Dongmo, que admitiu que vai trabalhar agora para os Europeus e Mundiais ao ar livre, "porque nada cai do céu".
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