Saem aos seus e têm o mundo nas mãos: uma família com pergaminhos no andebol

Saem aos seus e têm o mundo nas mãos: uma família com pergaminhos no andebol
Rui Guimarães

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Em 1996, a 25 de dezembro, O JOGO juntou os então namorados Ricardo Costa e Cândida Mota. 24 anos depois, volta a fazê-lo, mas agora com Martim e Kiko.

"Vinte e quatro anos depois estarmos aqui de novo é bom sinal". Foi assim que Cândida Mota, sempre muito bem disposta, abriu as portas de uma espécie de segunda parte de uma trabalho que O JOGO publicou há exatamente 24 anos.

No dia 25 de dezembro de 1996, o nosso jornal juntou Cândida, que jogava no Colégio de Gaia e era internacional A, e o então namorado, Ricardo Costa, que já estava no FC Porto e era também internacional A. Hoje, acrescenta-se-lhes os filhos, Martim e Kiko [Francisco] Costa, que, com 18 e 15 anos, respetivamente, já jogam na primeira equipa do FC Porto. Jogam mesmo, e marcam golos que se fartam!

"Com a idade do Kiko, jogava na III Divisão de juvenis do Boavista", recordou Ricardo, que, tal como o filho mais novo, era ponta direita. "Eu, com 15 anos, se fosse o melhor dos Carvalhos já ficava todo feliz [risos]", diz. "E eu andava no Madalenense, a minha treinadora era a Zita, a mãe do Miguel Martins. Olha, lembro-me de ver o Miguel Martins, pequenino, a brincar com a bola, mas isso já foi no Colégio de Gaia", atira Cândida.

Estas observações surgiram na sequência de algo que Kiko contara segundos antes. "No oitavo e nono ano, as professoras davam uma folhinha para nós escrevermos qual a profissão que queríamos seguir, eu escrevia sempre "andebol" e em baixo escrevia "ser o melhor jogador do mundo". Escrevia sempre isso". A mãe corroborou: "Ele está sempre a dizer isso, que vai ser o melhor do mundo. E não é da posição dele, é mesmo o melhor jogador."

E Martim, o que diz? "Eu não sei, só o tempo dirá onde posso chegar, mas sei que sempre quis isto, quero ser jogador profissional", responde, perante um pai feliz a assistir, e depois a fazer um remate: "Se um for o melhor e o outro o segundo eu já fico contente..."

Recuemos no tempo, a parte que começou por ser da responsabilidade do treinador do Avanca. "A vida tem sido sempre uma surpresa, acima de tudo uma surpresa boa. Nós, eu e a Cândida, há 24 anos éramos uns jovens de 20 anos, talvez com muita imaturidade, mas já com algum sentido de responsabilidade. Éramos estudantes, eu tinha entrado quatro meses antes no FC Porto, num ano muito difícil do clube. Lembro-me de que foi dos anos mais difíceis em termos desportivos para mim. É o ano em que professor [José] Magalhães entra para diretor do andebol e era Jorge Rodrigues o treinador. Falava-se muito que o andebol do FC Porto podia acabar, um ano de incerteza; eu tinha vindo do Boavista. Agora, passados 24 anos, dizer ou pensar que estaríamos aqui de volta com os meus filhos, estava muito longe do meu imaginário", admitiu o ainda quinto jogador português mais internacional de sempre, com 210 jogos pelas Quinas, sendo 147 pela equipa A, e com 399 golos.

"Sinto muito orgulho, ainda para mais o Martim começou a ir para os pavilhões com quatro meses, ou seja, naturalmente isto surgiu. Aliás, o primeiro desporto que ele praticou, quando fomos para Espanha, nem foi andebol, ele fez dois anos de basquetebol", contou a antiga lateral-esquerda, a mesma posição a que joga Martim. "Antes, ele ainda jogou ténis", atirou o pai, com a progenitora a continuar: "Acho que metade da nossa vida passou-se dentro de um pavilhão e as coisas acabaram por acontecer com naturalidade. Eles estão no desporto que nós gostamos. Sempre viram o pai jogar em grandes equipas, iam muitas vezes aos treinos com ele. Depois, já tinham referências de jogadores...". "Tenho umas imagens do Kiko em Algeciras, a gatinhar pelo pavilhão fora. E do Martim tenho a ideia de ele ir aos treinos da tarde do Ademar comigo. Levava o lanche, ficava ali as duas horas quieto e depois ia fazer uns remates. Ele teria uns seis/sete anos e depois ficava a fazer uns remates ao Mirko Alilovic (guarda-redes croata de 35 anos), que hoje é jogador do Pick Szeged", prosseguiu Ricardo Costa. "Sim, o Pick Szeged está no nosso grupo da Liga dos Campeões. Já jogámos com eles", meteu-se Martim, que a 15 de outubro esteve na vitória por 25-19, apontando um golo em dois remates.

Ricardo é um conselheiro atento

Ricardo Costa, que se apresentou à reportagem de O JOGO com a camisola da Seleção Nacional que usou no Europeu da Croácia"2000 - Portugal foi sétimo, a melhor classificação de sempre até ao Europeu deste ano (6.º lugar) - revelou ser um pai atento. "A vida já tem tantas dificuldades, que não tem sentido sermos nós a metermos mais pedras no caminho. A desinibição mental é o primeiro passo para sermos realmente bons. Depois, há que pensar que a vida prega-nos rasteiras e devemos ter um plano B, uma rua ao lado, os estudos, o nosso trabalho, a nossa formação humana e saber que uma lesão nos pode atirar para fora da estrada e termos consciência de que há que seguir a vida, não deixamos de ser quem somos se perdermos um ou dois campeonatos", aconselhou.