Filipe Cruz: "Se mantiverem o foco, claro que conseguem chegar ao Europeu"

Filipe Cruz: "Se mantiverem o foco, claro que conseguem chegar ao Europeu"

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Rui Guimarães

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Um dos jogadores da geração de ouro do andebol português falou a O JOGO sobre a carreira, a vida de treinador e o estado atual da modalidade.

Filipe Cruz, um dos jogadores da geração de ouro do andebol português, comanda a seleção masculina de Angola desde 2010, tendo já estado em cinco edições da CAN (Taça das Nações Africanas), levado a equipa ao Campeonato do Mundo de França - onde não esteve, por ter a seu cargo a seleção feminina, com a qual foi aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro - estando agora no Mundial da Alemanha/Dinamarca. O JOGO conversou com o antigo lateral-direito, que em Portugal jogou no Comércio e Indústria, Vitória de Setúbal, Belenenses e ABC.

O que é feito de si?

Estou em Angola a trabalhar com a seleção de seniores e a coordenar o andebol masculino no 1.º de Agosto.

Tem acompanhado o andebol português?

Mesmo à distância tenho acompanhado. Com as novas tecnologias de informação mantenho contacto com quase todo pessoal que jogou comigo.

Tem alguma explicação para o facto de Portugal andar desde 2006 afastado dos grandes palcos internacionais?

Tenho alguma dificuldade em perceber qual o fenómeno que assola o andebol português. Portugal tem tido jogadores com muita qualidade e ate fisicamente com mais centímetros do que nos anos anteriores, mais a verdade é que tem tido imensas dificuldades para marcar presença na alta roda mundial e europeia. Outrora, o facto de a seleção ter como base os atletas do ABC, em termos estratégicos funcionou muito bem. Agora a estratégia é diferente e não tem funcionado.

O que falta ao andebol português para dar esse salto?

Acho que falta um maior compromisso dos integrantes da seleção. Olho para estas gerações e vejo muito potencial, muito talento, mas falta-lhe alguma coisa, quiçá motivação.

Tendo em conta que Portugal tem duas vitórias em dois jogos na fase de apuramento para o Campeonato da Europa de 2020, poderá ser desta que a seleção alcança qualificação?

Tudo é possível. Se mantiverem o foco, claro que conseguem chegar ao Europeu.

Depois de o ter feito como jogador, poderá voltar a trabalhar em Portugal, agora como treinador?

Só penso em ser feliz, seja em Portugal, em Angola, seja onde for. Como profissional, o importante são os projeto, são os desafios que me movem, seja clubes do topo ou de nível inferior.

Quais são as melhores recordações que guarda dos anos que passou em Portugal?

São muitas e boas recordações, mas destaco o sétimo lugar no campeonato da Europa na Croácia [2000, era Javier Garcia Custa o selecionador].

E as piores?

As piores, sem dúvida, foram as intervenções cirúrgicas aos joelhos.

Consegue dar-nos o seu sete ideal do andebol português?

Tenho dificuldade em escolher os sete, eram tão bons que se escolher sete estarei a ser injusto para os restantes. Se permite, vou escolher dois jogadores por posto. Na baliza os manos Morgado, na ponta-esquerda Rui Rocha e Ricardo Andorinho, na ponta-direita o Ricardo Costa e o Rui Almeida, a central o Victor Tchikoulaev e o Paulo Faria, a lateral-esquerdo o Carlos Resende e Eduardo Filipe, a pivô o Carlos Galambas e o Tiago Rocha, e a lateral-direito o Vladimir Bolotskhi e o Luís Gomes.

Como está o andebol em Angola?

Esta a caminhar com muitas dificuldades, quando um país revela alguma instabilidade económica é natural que isso se reflita no desporto. O desporto em Angola na sua maioria ainda é financiado pelo estado e, naturalmente, o andebol sente algum desinvestimento.

Há mais Filipes Cruz para poderem brilhar em equipas portuguesas?

É difícil encontrar, estamos a trabalhar na descoberta de grandes talentos e naturalmente tentar o enquadramento dos mesmos em equipas da Europa.

Quais são os grandes jogadores de Angola?

Nós não temos grandes referências de nível mundial, mas temos alguns com muito potencial. No entanto, pela falta dessas grandes referências, pautamo-nos pelo coletivo.

Que objetivos tem Angola para este Campeonato do Mundo?

Em 2017, no mundial de França, ficamos em último lugar. Agora temos como objetivo básico fugir ao último lugar, mas também potenciar os nossos atletas para as competições africanas. Nesta altura, vamos jogar a President's Cup, pelo que, no mínimo, ficaremos na 21.ª posição, já tendo alcançado o objetivo de melhorar o que fizemos em França.

Qual a principal mudança que o jogo registou desde os seus tempos de jogador?

Para além de agora jogar-se mais rápido, também houve algumas mudanças nas regras.

O que mudaria nas regras do jogo para tornar a modalidade mais atraente?

Creio que falta melhorar sobretudo a situação do jogo passivo. O andebol tem que evoluir como as outras modalidades, com um tempo determinado no ataque.

BILHETE DE IDENTIDADE

- Filipe Cruz

- Nascimento: 07/09/1969 (49 anos)

- Naturalidade: Angola

- 4 campeonatos em Portugal (três pelo ABC e um pelo Belenenses)

- 2 Taças de Portugal (ABC)

- 1 Supertaça (ABC)

- 150 internacionalizações A

- 472 golos A

- Filipe Cruz ainda é o quinto jogador com mais internacionalizações A por Portugal. Tendo estado em seis - Europeus de Portugal'1994, Croácia'2000 e Suécia'2002 e Mundiais do Japão'1997, França'2001 e Portugal'2003 - das oito fases finais de grandes competições em que a Seleção Nacional esteve presente, ao canhoto natural de Luanda só faltou estar presente nos Europeus da Eslovénia (2004) e da Suíça (2006). Carlos Resende (232), Eduardo Filipe (202), Carlos Galambas (186) e Luís Gomes (167) são os atletas que têm mais jogos do que Filipe Cruz pela seleção A.