Análise de Jorge Rito à Seleção Nacional: "Falhas na finalização na base da primeira derrota"

Análise de Jorge Rito à Seleção Nacional: "Falhas na finalização na base da primeira derrota"
Jorge Rito

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Jorge Rito, um dos mais reputados treinadores nacionais, explica ao pormenor o Europeu de Portugal em crónicas escritas para O JOGO.

Ao iniciar a minha presença neste jornal como cronista convidado a comentar os jogos da Seleção Nacional de andebol durante o Campeonato da Europa, quero expressar os meus agradecimentos ao jornalista Rui Guimarães por me ter lançado um repto, que, obviamente, me orgulha bastante, mas também me coloca em cima dos ombros uma enorme responsabilidade.

Tentarei sempre, do ponto e vista do treinador, dar a minha opinião sobre o que cada jogo oferecer, seja no plano tático, estratégico ou mental, com o maior rigor possível.

Depois de assistir à forma concludente como a seleção dos Países Baixos derrotou a húngara, a jogar no seu ambiente, percebi que a luta pelos lugares de apuramento neste grupo iria ser a quatro e não a três, independentemente do que viesse a acontecer no jogo entre Portugal e a Islândia. No entanto, começar o Campeonato da Europa com uma vitória daria a Portugal uma motivação acrescida para o resto da caminhada. Mas começar com uma vitória, sabendo das dificuldades que surgiram durante o processo de preparação, poderia mesmo ser considerado um milagre, ou a prova de que mesmo em ambientes caóticos os portugueses conseguiriam sobreviver.

Infelizmente, não foi isso que aconteceu.

Defesa: mesmo sistema, protagonistas diferentes

Portugal, sem surpresas, iniciou o jogo com a sua habitual defesa 6x0, mas com Cavalcanti a fazer dupla com Iturriza na zona central e Fábio Magalhães juntamente com Gilberto Duarte como segundos defensores. Ou seja, apesar de o sistema defensivo ser o habitual, os protagonistas eram diferentes. As rotinas, apesar da entrega dos jogadores, não estavam suficientemente amadurecidas (pelas razões que já referi anteriormente).

A Seleção Nacional evidenciou enormes dificuldades nas situações de 1x1 criadas pela Islândia, especialmente para explorar as capacidades do lateral direito, Magnusson, ora com cruzamentos simples com o central, ora com permutas na 1ª linha, que após aclaramentos do pivô ficava em situação muita favorável para um confronto individual com os defesas centrais. Quando o jogo ofensivo dos islandeses não era resolvido desta maneira, surgia do outro lado a capacidade finalizadora de 1ª linha. Ou seja, a manta estava curta, quando estávamos profundos sofríamos golos aos 6 metros, quando ficávamos mais atrás apareciam os remates de 1ªlinha.

Apesar das dificuldades que íamos sentido na defesa, aos 20 minutos de jogo o resultado estava em 7-8, favorável aos islandeses. Neste período, apareceu Capdeville a mostrar toda a sua qualidade e evitar que a diferença no marcador se acentuasse.

Apesar das inúmeras intervenções fantásticas do guarda-redes português, raramente a seleção portuguesa conseguiu sair em contra-ataque, o que explica, de algum modo, o reduzido número de golos na primeira parte.

Ataque: mesma disciplina, falhas na finalização

Considero justo dizer que a nossa seleção, no ataque, mostrou a sua habitual organização e disciplina tática. Percebi que o selecionador tinha como estratégia alternar as propostas táticas de ataque, entre movimentos de permutas na 1ª linha, ou cruzamentos seguidos de inversões de passe, com o envolvimento dos pontas com passagem para dois pivôs. Esta estratégia resultou. Basta ver o que foi conseguido com esses movimentos: exclusões, livres de 7 metros, penetrações aos 6 metros. Falhou a nossa eficácia de remate. Quando o resultado estava em 7-10, aos 23 minutos da 1ª parte, Portugal passa a jogar 7x6. Neste período a nossa Seleção marca 3 golos mas sofre 4. Quando o selecionador tenta recuperar o bloco central da defesa mais trabalhado e mais rotinado, Iturriza e Daymaro, este é excluído...

Portugal sai para o intervalo com uma desvantagem de 4 golos, que no meu entender não refletia o que se tinha passado nesse período do jogo. Com um pouco mais de acerto na finalização, apesar de não termos defendido bem, poderíamos ter saído para o intervalo encostados aos islandeses. E, como viemos a verificar, essa diferença acabaria por ser decisiva no final do encontro.

Ao 7x6 só faltaram mais golos

Na segunda parte, a estratégia ofensiva da equipa islandesa para atacar os princípios da nossa defesa 6x0 foi a mesma, só que com outro protagonista, agora do lado contrário, Cristianssen. As situações criadas para que este jogador pudesse explorar a sua finta nos duelos de 1x1 surgiam muitas vezes através de falsas entradas dos pontas, para perturbar a ação do segundo defensor no momento da sua aproximação.

Portugal, apesar da preocupação do selecionador em ir tapando os buracos, não conseguiu defender ao nível a que estamos habituados a ver. Não podendo contar com as transições ofensivas, a única solução para marcar golos residia no ataque posicional.

Aos 35 minutos da 2ª parte, com resultado em 12-16 para os islandeses, o selecionador português optou por recuperar o 7x6. Compreendo a decisão do Paulo, era preciso dar um sinal de ambição aos jogadores para o que faltava do jogo. Em 10 ataques realizados com esta opção tática resultaram 6 golos, 3 remates foram falhados aos 6 metros e Daymaro fez uma violação de área. Portanto, mais uma vez, acertámos na opção tática mas falhámos em situações claras de golo. Algumas exclusões no processo defensivo não permitiriam continuar a explorar o 7x6.

A diferença de 6 golos (14-20) aos 40 minutos de jogo obrigou a seleção portuguesa a correr desesperadamente atrás do marcador, o que acabou por influenciar a qualidade das tomadas de decisão dos jogadores portugueses.

A 15 minutos do final do jogo, o selecionador noutra prova da sua ambição para este jogo, quando o resultado estava em 17-22, coloca Gilberto Duarte como defesa avançado, num sistema 5x1 com a intenção de quebrar a circulação de bola dos islandeses, provocar erros nas tomadas de decisão através de uma maior pressão defensiva e consequentemente recuperar bolas. Não fosse o Gilberto Duarte ter falhado um contra-ataque e a seleção portuguesa conseguiria reduzir para 3 golos de diferença...

Não há tempo para treinar, mas o rendimento vai subir

Após este jogo, Portugal continua com as mesmas possibilidades de ser apurado para a fase seguinte da prova. Neste duelo com os islandeses mostrámos que, em condições de preparação diferentes, poderíamos ganhar.

Não há muito tempo para treinar, mas acredito que, se não houver contratempos, o rendimento da seleção vai subir, assim como o rendimento individual de alguns jogadores que não estiveram ao seu melhor nível na estreia.

No rescaldo deste primeiro jogo do Europeu, a seleção portuguesa tem de identificar os principais erros, corrigi-los dentro daquilo que o tempo permitir e, acima de tudo, lançar-se na preparação para o próximo jogo com um fator motivacional extraordinário, que é a história recente deste grupo de trabalho (6º no Campeonato da Europa, 10º no Campeonato do Mundo e apuramento para os Jogos Olímpicos).

Nos dois últimos anos, capitalizámos uma elevada experiência competitiva que hoje nos permite olhar todos os adversários olhos nos olhos, sem receios.

Boa sorte Portugal!

Jorge Rito

[treinador de andebol]