"Estava preparado para ficar dois anos sem jogar"

"Estava preparado para ficar dois anos sem jogar"

Nasceu em Londres há 20 anos e é um recém-chegado a um histórico do futebol inglês e europeu. Tiago Ilori, reforço do Liverpool, comenta em entrevista exclusiva a O JOGO as suas primeiras impressões nos reds e, sobretudo, o que o levou a não renovar contrato pelo Sporting, a forma como se sentiu "castigado" e "pressionado" e o que estava disposto a arriscar para fazer valer o que considera como seus direitos. Tinha contrato até 2015, valeu um encaixe de 7,5 milhões e assegura o seu sportinguismo

"Só quero que fique uma coisa bem clara: gosto muito, mas mesmo muito, do Sporting." É com esta frase que Tiago Ilori termina o telefonema com O JOGO, depois de dar a primeira entrevista como futebolista do Liverpool. Para trás, tinham ficado as expectativas para esta nova aventura e as explicações para o adeus ao clube do coração, onde estava "encostado" por não ter renovado contrato.

Como têm sido esses primeiros dias em Liverpool?

Em termos de organização e profissionalismo, isto é uma coisa muito à frente. Não tinha noção. Fiquei impressionado com o ambiente, com a maneira como nos tratam e com a forma como se preocupam connosco.

Quais os planos que o clube tem para si?

Explicaram-me que estão a tentar jogar de uma forma mais "europeia", com mais técnica e posse de bola. O Brendan Rodgers disse-me que eu encaixava nisso, que iria ter um grande futuro aqui no Liverpool e que, com ele, eu iria crescer mais. Disse-me que estava à minha espera há muito tempo.

Assusta-o o preço que custou?

Tenho noção de que é muito dinheiro. É uma aposta que eles estão a fazer, mas viram valor em mim e apostaram nisso.

Se fosse diretor-desportivo de um clube, pagava tanto por um central de 20 anos?

Se realmente acreditasse que valia a pena o investimento, se acreditasse num jogador e tivesse o dinheiro para gastar, acho que sim.

O que levou a que não tivesse renovado com o Sporting?

Fizeram-me uma proposta de renovação e estivemos em negociações. Acabei por não aceitar, não tanto pelo ordenado, mas devido a algumas cláusulas e pela duração do contrato. Tinha noção de que poderia ser bom ficar no Sporting para jogar mais e ganhar experiência, mas não tinha medo de dar aquele passo em frente nesta altura. Depois, as coisas arrefeceram. Não é que eles tenham perdido o interesse, mas numa negociação tem de haver aproximação das pretensões de ambas as partes. E eles nunca mais se tentaram aproximar.

Acha que não houve um esforço para renovar consigo?

No início, até houve um esforço grande. E não me posso queixar, porque sei as condições que me propunham. Os valores não eram maus, mas havia coisas que me preocupavam. Não me sentia bem com algumas cláusulas e a duração do contrato. Gosto muito do Sporting, mas não queria estar lá para o resto da minha vida; queria dar um passo em frente, fosse agora ou mais tarde. Com um contrato com tantos anos de duração, tinha receio que se um dia quisesse sair, eles podiam não me deixar.

Se não tivesse surgido o Liverpool, teria renovado?

No início, até estive perto de um acordo. Mas depois nunca mais disseram nada, nem voltaram a apresentar uma contraproposta. Tinha mais dois anos de contrato, havia tempo e não tinha que ser pressionado para renovar com condições que eu não queria. Acho que não renovava mesmo.

Quando é que deixaram de falar sobre a renovação?

Foi mais ou menos quando parti a mão. Enquanto estive na Seleção, mostraram muito interesse. Quando regressei para a pré-época, lesionei-me e a partir daí pareceu que deixaram de tentar.

E aconteceu alguma coisa nesses dias?

Que eu saiba, não. Eu estava na equipa A e tinham-me dito que era jogador da equipa A, mas quando me lesionei fiquei a fazer o tratamento na equipa B e continuei aí quando a equipa voltou do Canadá. Treinava com a equipa B e às vezes até ficava à parte, com outros jogadores que não tinham a situação resolvida. Pareceu-me um bocado um castigo.

Começou a época e nem sequer era convocado pela equipa B. Alguma vez lhe disseram que era pela recusa em renovar naquelas condições?

Pessoalmente, nunca me deram uma explicação e eu também nunca perguntei. Só o treinador da equipa B é que me disse que eu sabia o porquê de não estar a jogar. Acho que o tinham dito aos meus representantes, mas nunca a mim.

Sem renovar, estava preparado para ficar até dois anos sem jogar?

Sim, estava. Acho que faria o que fosse necessário. Se não me iam deixar jogar porque eu não renovava, não fazia sentido obrigarem-me a ficar no Sporting, ainda por cima tendo uma proposta. Assim, arriscavam-se a não ganhar nada daqui a algum tempo.

Mas, nesta idade, não o assustava ficar tanto tempo sem jogar?

Assustava. Ficar dois anos sem jogar não seria bom nem para mim, nem para um jogador de 30 anos. É algo que pode acabar a carreira de um jogador. Mas senti que estava a ser pressionado para assinar um contrato que eu não queria assinar. Com mais dois anos, não tinha que assinar nada. Sentia-me nesse direito.

Tentar a saída por uma via legal nunca foi uma hipótese?

Nunca, nunca. Queria fazer tudo para que isso não acontecesse. Sabendo que não queria renovar com o contrato que estava em cima da mesa, já me tinha mentalizado que, com as propostas que tinha, ia sair.

Esta nova Direção do Sporting já renovou com 17 jogadores. É sinal de que há muitos que aceitam as condições do clube...

Cada um tem que tomar a sua decisão. Acho que nenhum deles fez mal. Eles é que sabem o que pretendem do clube e o que o clube pretende deles. Se isso foi o melhor para eles, então acho muito bem que tenham assinado. E se aceitaram as condições é porque alguma coisa está bem.