Um conto de fadas com história

André Morais

Como se contratou, como se trabalha e que recordes estão prestes a cair? Esta é a história da equipa B mais forte da história do futebol português, que só no Real Madrid encontra um conto de fadas paralelo

Em toda a Europa, só o Real Madrid (1983/84) conseguiu fazer de uma equipa B campeã do segundo escalão mais importante do país. A "Quinta del Buitre" meteu, mais tarde, uma série de jogadores na seleção espanhola. Michel, Butragueño e Martín Vásquez são, por ventura, os mais conhecidos. Remeter Francisco Ramos, André Silva, Gleison ou Ismael Díaz para um futuro tão brilhante parece, ainda, precipitado. Mas esta equipa B azul e branca tem tudo para gravar, também, o nome na história do futebol. Falta apenas uma vitória e, se o Chaves não ganhar em Portimão amanhã de manhã, o onze escolhido por Luís Castro até pode entrar já campeão. De que fibra é feita, afinal, esta equipa? E como se construiu o conto de fadas que está prestes a terminar com um final feliz?
O trabalho do treinador e o talento dos jogadores são, à primeira vista, o vetor principal do sucesso. Mas o guião desta história começou a ser escrito pelo departamento de scouting, reformulado ao abrigo do projeto Visão 611. Foi ele que trouxe Ismael Díaz, Omar Govea e Erik Palmer, por exemplo. O primeiro foi descoberto no Mundial de sub-20 da Nova Zelândia. Os outros dois apareceram em competições da Concacaf para seleções de escalões de formação. Gleison e Maurício foram observados internamente, Rodrigo e Chidozie foram sugeridos pelos respetivos empresários. Em comum têm as condições de contratação: chegam com ordenados baixos e emprestados por uma época com direito de opção.

Matriz de trabalho
com Folha nos juniores
A tarefa seguinte é da equipa técnica de Luís Castro e da que António Folha orienta nos juniores. A deslocação do treinador, ex-adjunto de Castro, para os sub-19 foi, também, estratégica. Definir um plano de trabalho comum é uma ideia generalizada e mais ou menos propagandeada. Separar dois treinadores com um passado comum é uma forma de a operacionalizar mais rara e que a deixa mais próxima do sucesso. Diogo Verdasca, Chidozie, Rúben Macedo, Rui Moreira, Sérgio Ribeiro e Leonardo foram juniores na época passada, subiram aos B e afirmaram-se imediatamente. Até 2015/16, esta adaptação imediata ao futebol profissional foi sempre mais difícil. Graça, por exemplo, quase não jogara na temporada de transição. E até André Silva ou Rafa passaram um primeiro ano na sombra de Gonçalo Paciência e David Bruno, entretanto cedidos.
Menos treinos,
mais recuperação
A constante partilha de jogadores entre juniores, equipa B, formação principal e seleções foi o maior problema da temporada. Há vários com mais de 50 jogos nas pernas e, por isso, o treinador dispensou muito mais horas para o gabinete de recuperação física e mental do que aquilo que tem sido habitual. Houve vários treinos substituídos por sessões de relaxamento e outros até para que os jogadores pudessem conviver e descomprimir do excesso de responsabilidade. É, também por isso, que a equipa chega a esta fase com um andamento incrível. Duas das três últimas vitórias foram conseguidas no minuto 90+5"...