José Peseiro em silêncio

António M. Soares

O treinador não abriu a boca, não fez um gesto, não reclamou com o árbitro, nem ouviu qualquer comentário da bancada, deixando o estádio discretamente

José Peseiro esteve em Oliveira do Douro, ou melhor, esteve um treinador que só se viu em campo quando as duas equipas estavam prontas para o apito inicial. Naquele que foi o último jogo nos comandos do FC Porto, o ribatejano surgiu na zona técnica, depois do aquecimento e tomou o seu lugar, sem se proteger da chuva fina que caiu no campo do Oliveira do Douro. José Peseiro viu dali o jogo, sem abrir a boca para protestar com o árbitro, nem quando Cláudio caiu na grande área e ficou a reclamar penálti, a meio da primeira parte. Peseiro não fez um gesto, limitando-se a assistir ao jogo em pé, à frente do banco, sem dar indicações para dentro do relvado, corrigir, ou chamar qualquer jogador à atenção por qualquer erro cometido, ou passe mal medido. Após o segundo golo do FC Porto acabou mesmo por se sentar no banco, "escondendo-se" das câmaras de televisão.
A postura foi a de um homem só, a quem ninguém da bancada dirigiu uma palavra, fez um gesto, ou atirou um comentário. Pinto da Costa esteve rodeado das personalidades que marcaram presença na inauguração e não se viu publicamente ao lado do treinador. Ao remate perigoso de Lutchinho, que obrigou José Sá a uma grande defesa (17") nem uma reação se viu a Peseiro e ali continuou, na mesma postura e em silêncio. Já estava no banco, quando Oliveira do Douro reduziu antes do apito para o intervalo, mas nada se alterou. Só no regresso aos balneários, uma criança lhe fez sinal da bancada e lhe arrancou um polegar no ar, por entre um esboço de sorriso. Na segunda parte nada se alterou, Peseiro poucas vezes deitou a cabeça fora do banco, mas sem alterar a postura.