Fernando Santos para Cancelo: "Isso fazes no City. Aqui só estás a baralhar as coisas"

Fernando Santos durante o webinar "Futebol em tempos de Pandemia", organizado pelo Município de Leiria e transmitido esta segunda-feira na página de Facebook desta entidade.

Selecionador relembra um episódio para ilustrar o problema da falta de treinos na Seleção

Os calendários preenchidos dos clubes deixam pouco espaço para treinos nas várias seleções nacionais. O problema é antigo, mas recentemente foi agravado com as limitações provocadas pela pandemia de covid-19.

Na equipa portuguesa, por exemplo, Fernando Santos esteve vários meses sem ensaiar o grupo, o que lhe agravou ainda mais as dificuldades na criação de mecanismos e rotinas na equipa.

Esta segunda-feira, o selecionador recorreu a um exemplo curioso recentemente ocorrido com João Cancelo.

"A dinâmica do João Cancelo no Manchester City é diferente. Ele, enquanto lateral, joga também como médio, para depois libertar os médios para funções ofensivas. Ora, na Seleção, a função de um lateral é dar largura ou projetar a equipa na frente, por exemplo. São funções diferentes. E o que aconteceu? No primeiro treino de preparação para o jogo de Portugal contra o Azerbaijão, o Cancelo começou a ir para dentro. Então eu disse-lhe: 'Calma, isso fazes no Manchester City. Aqui ninguém compreende isso, estás a baralhar as coisas'. E ele respondeu: 'Tem razão, míster, tem razão'", contou Fernando Santos, no sentido de exemplificar os problemas que se lhe podem deparar quando a quantidade de treinos não é a mais desejável. E essa é uma das razões que, muitas vezes, o levam a optar por chamar jogadores que já estão familiarizados com as rotinas e ideias principais do grupo, quando até poderia haver outros a merecer uma convocatória.

"Se eu trouxer gente que não está habituado a vir à Seleção, é impossível", afirmou, segundo essa lógica, no webinar "Futebol em tempos de Pandemia", organizado pelo Município de Leiria e transmitido esta segunda-feira na página de Facebook desta entidade.

O técnico queixou-se da tragédia sanitária que já dura há mais de um ano, mas ao mesmo tempo relativiza:

"Não vale a pena fazermos um bicho de sete cabeças. Há dramas muito maiores, há pessoas que passam fome. Ficarmos aqui a chorar e não ir à procura da solução, não vai resolver. Futebol será o mal maior dos males menores, comparado com o que se passa nas casas das pessoas."

"O que temos a fazer com os nossos jogadores é não chorar e dizer-lhes que há gente a sofrer muito mais do que nós e que nós vamos saber ultrapassar isto, porque não há outra forma", acrescentou.