"Se o vírus chegar à Índia com a mesma força da Europa, terá proporções inimagináveis"

"Se o vírus chegar à Índia com a mesma força da Europa, terá proporções inimagináveis"
Carlos Pereira Santos

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ENTREVISTA (Parte 2) - Duas épocas na Índia tornaram Jorge Costa conhecedor de causa de um país que acaba de decretar o maior isolamento à escala mundial - são mais de 1300 milhões de habitantes e um vírus à solta.

Jorge Costa mostra-se preocupado com o impacto do coronavírus na Índia, onde trabalhou nas duas últimas épocas. "Terá proporções inimagináveis", avisou a O JOGO. O decreto que obriga mais de 1300 milhões de indianos a ficar em casa "será difícil de cumprir", diz ainda, apreensivo. Esta entrevista é bem mais do que isso, mas tem de começar por aí.

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O governo indiano vai conseguir manter os mais de 1300 milhões de habitantes do país em casa?

-Do que conheço do povo indiano, dos seus hábitos, acho muito difícil o cumprimento desse decreto. É muita gente. Estão habituados a andar na rua, a estarem em grupo, e não são um povo muito disciplinado. Há outro problema: têm uma frota aérea muito boa, as ligações entre as cidades fazem-se quase sempre de avião, porque as estradas são muito más. Leva-se 14 horas de carro para fazer um trajeto que, de avião, é de uma hora. E há uma grande aglomeração de pessoas nos aeroportos - sempre. E isso é mais um problema. Se o vírus chegar à Índia com a mesma força que atingiu a Europa, será uma coisa muito má e de proporções inimagináveis.

Mantendo-nos na Índia, mas agora a nível da sua experiência. Foi um projeto falhado?

-De maneira nenhuma, acho que foi um projeto muito conseguido, atendendo a que o Mumbai, no primeiro ano, era a equipa com o orçamento mais baixo e no segundo tinha o segundo orçamento mais baixo. Com pouco, conseguimos fazer muito.

Este ano falhou o apuramento para o play-off de campeão...

-Sim, por dois pontos, mas no primeiro ano fomos ao play-off, terminámos em terceiro lugar. Foi muito bom, mesmo muito bom. Este ano não conseguimos ultrapassar as naturais dificuldades de uma equipa com poucos recursos, muito afetada por lesões ao longo da temporada.

Vai continuar na Índia?

-No Mumbai, seguramente que não. A equipa foi comprada pelo City Group, que tem ideias definidas, diferentes das minhas, e não fazia sentido eu continuar. De resto, não sei, porque a época terminou há duas semanas e os donos dos clubes estão ainda na expectativa, até por causa desta situação do coronavírus. Vamos ver.

Foi difícil trabalhar na Índia?

-Confesso que ao fim da primeira semana comecei a pensar que não ia aguentar aquilo. A Índia cruzou-se no meu caminho há cinco anos, mas acabei por não ir para lá; estava noutro projeto. Quando aceitei, há dois anos, o convite, aceitei também um desafio desconhecido, mas depois de passada a primeira semana, e de alguma incerteza, acabei por começar a compreender onde estava, a olhar para a cultura do país com curiosidade e com vontade de vencer o desafio. Hoje tenho a certeza de que o consegui e de que foi uma excelente aposta.

E porque é que foi tão difícil no início?

-É tudo diferente daquilo a que um europeu está habituado, mas é um daqueles casos em que se pode dizer que primeiro estranha-se e depois entranha-se - aconteceu-me isso. A cultura é completamente diferente, mas as pessoas são boas, simpáticas, gostam de vibrar com as vitórias, vivem-nas com felicidade. Os indianos são um povo muito amigo, fazem-nos sentir muito bem. Deixei lá muitos amigos.

E o futebol é muito diferente?

-Sim, mas tem qualidade. Tenho um amigo treinador na China que costumava seguir os nossos jogos e que me disse um dia que o futebol na Índia é superior ao chinês. Não sei se será assim, mas a liga indiana tem muita qualidade.

Está no bom caminho, então?

-Não, porque a Índia começou a fazer as coisas por cima. Num país onde o críquete é rei, a ideia da liga indiana é atingir a importância do críquete, mas não é fácil. Como disse, a Índia começou a fazer a casa pelo telhado, contratando jogadores em fim de carreira mas com nome no mundo do futebol, como o Robert Pires, o Roberto Carlos ou o Anelka, por exemplo, e esqueceu-se da formação. Há muitos jogadores indianos de qualidade, mas, se apostarem na formação, daqui a dez anos terão hipóteses de concorrer com o críquete. Vão ter de dar um passo atrás par dar um de gigante à frente. Há potencial, mas têm de apostar primeiro na formação.

O que o impressionou mais?

-A organização da liga, que nalguns casos chega até a ser demasiado rigorosa, pelo menos em relação àquilo a que estamos habituados. As regras são muito duras e são para cumprir, porque as sanções não são para brincar, são pesadas.