Cancelo em entrevista: "Um ex-jogador falar mal de outro em público acho feio"

Cancelo em entrevista: "Um ex-jogador falar mal de outro em público acho feio"
Cláudia Garcia, Itália

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Antigo jogador do Benfica fala sobre peso de Jorge Jesus na decisão de abandonar a Luz aos 20 anos, ausência do Mundial, mercado e desilusão com o Inter apesar da grande época.

Aos 24 anos e com qualidades raras para um lateral-direito: alto, rápido e muito criativo, Cancelo é um dos jogadores mais cobiçados deste mercado. A Velha Senhora assistiu à sua evolução no Inter e não quer perder um jogador que já mostrou o seu valor na Serie A. Como grande aliado tem o próprio Cancelo que, apesar de não ter falado sobre detalhes da negociação, deu a entender que prefere continuar em Itália. A melhor proposta que chegou até agora ao Valência foi do Wolverhampton, mas Cancelo revelou ao O JOGO que prefere jogar a Liga dos Campeões e o seu empresário, Jorge Mendes, já sabe que terá de encontrar uma solução que agrade ao atleta e ao Valência, que quer 40 milhões de euros para o liberar. O Inter, por enquanto, saiu da corrida, porque não exerceu o direito de compra até 30 de maio, conforme o estipulado no contrato de cedência. Poderá fazê-lo apenas depois do dia 1 de julho, mas aí já pode ser tarde, porque os espanhóis precisam de vender Cancelo até ao fim do mês.

O Inter não comprou o seu passe até 30 de maio. E agora? Juventus, Wolverhampton estão interessadas, onde vai jogar o Cancelo?

- Eu tenho contrato com o Valência até 2021, então sem clube não fico. Até alguém me apresentar uma proposta concreta, não posso dizer nada. Posso dizer que três, quatro jogos antes do último encontro contra a Lázio, chegou-se a falar que o Inter me queria comprar definitivamente e que já tinha falado com o Valência, mas até agora não me chegou nada e ninguém do Inter mostrou interesse em mim. Vou esperar por propostas e vou analisar bem.

Ficou desiludido com o Inter?

- Que esperava mais, esperava. Esperava que o Inter, pelo menos, me dissesse alguma coisa no final da época: "Olha não temos dinheiro para te comprar, boa sorte para o teu futuro", mas não aconteceu. Ninguém me disse absolutamente nada, mas reconheço que o Inter foi um passo muito importante na minha carreira. Vamos ver o que vai acontecer.

Depois desta época positiva em Itália, dá preferência a continuar na Série A?

- Adaptei-me a Itália e estou bem lá, tenho muita vontade de jogar a Liga dos Campeões. Conquistei esse objetivo de jogar a Champions com o Inter e, se não for possível com o Inter, gostava de jogá-la na mesma. Sinto que conquistei esse objetivo.

Chegou a Itália com o rótulo de saber atacar melhor do que defender, mas conseguiu convencer Spalletti a usá-lo como lateral. Como é que se adaptou ao estilo italiano?

- Tudo é uma questão de treino. O treino em Itália é muito tático, ensinam-nos muito a nível defensivo e o mister Spalletti é muito bom nesse aspeto. A partir do momento em que comecei a jogar, fui-me adaptando à equipa e a equipa a mim e o meu êxito é visível a todos.

Foi um começo difícil: sofreu uma lesão que o deixou fora quase dois meses e depois as oportunidades tardaram. É verdade que em janeiro quis voltar ao Valência?

- É verdade que pensei em voltar, porque disseram-me uma coisa e depois foi outra. Eles tinham razão naquilo que diziam, porque é verdade que me lesionei, mas eu também tinha. Em dezembro, vi que não jogava muito e não queria que fosse uma época perdida. Eu nunca duvidei nem nunca vou duvidar das minhas capacidades e continuei a trabalhar. Os meus colegas tinham folgas e eu continuava a trabalhar todos os dias no centro de treinos sem nunca perder de vista o objetivo que era ser titular. Fui titular contra o Sassuolo (a 23 de dezembro), aproveitei a oportunidade e as coisas melhoraram a partir daí. Sabia que tinha potencial para ser titular do Inter. Joguei e tive êxito em duas das ligas mais competitivas do mundo.

Já agora, quais são as principais diferenças entre as ligas espanhola, italiana e a portuguesa?

- Em Portugal, joguei mais na segunda liga com o Benfica B, com a equipa principal joguei só contra o FC Porto e contra o Gil Vicente pela taça, mas acho o futebol português um pouco abaixo do espanhol e do italiano. O espanhol é lindo de se ver, para o público, é mais aberto, há muita criatividade e é bom para se jogar. O italiano é mais tático, há muita entreajuda dentro da equipa, os jogadores são muito mais preparados e inteligentes ao nível defensivo e todas, todas as equipas, são muito organizadas, desde a primeira até à última classificada. É um campeonato muito difícil de se jogar.

Em termos táticos, o que é que fez nos treinos que nunca tinha feito antes

- Fazemos muito mais vídeo e muito mais ginásio também. Depende dos treinos, mas preparam muito a nossa equipa a pensar com quem vamos jogar: se é 3x5x2, 4x3x3, se é 4x4x2 e assim trabalhamos muito em função do adversário. No Valência, trabalhávamos mais em função da nossa equipa.

Em Itália, falou-se muito dos atritos que teve com Spalletti ao longo da época, mas ele confiou em si. Que trabalho fez com Spalletti para melhorar na parte defensiva?

- Atenção, o Spalletti não é um treinador defensivo. Ele gosta de uma equipa que sabe jogar, que gosta de ter a bola. É verdade que tivemos alguns atritos, porque os dois temos sangue quente e disparamos, mas foi um treinador que me ensinou muito. Entre nós, sempre houve respeito, apesar dos atritos e, a partir do momento em que comecei a jogar mais, ele deu-me uma liberdade incrível, percebi que o treinador acreditava em mim e senti muita confiança da parte dele.

A vitória com a Lázio garantiu a presença do Inter na Liga dos Campeões seis anos depois, qual foi a chave para vencer esse jogo na casa de um adversário que era favorito e precisava apenas de um empate?

- Esse jogo vai ficar marcado para sempre na minha memória, acho que marcou a minha vida. Queríamos ganhar, mas sabíamos que era um jogo dificílimo. Durante o encontro, parecia que a Lázio tinha o jogo controlado, mas a nossa equipa mostrou o que foi durante a época, apesar das críticas de que fomos alvo: demonstrámos ter um grupo muito forte e unido. Merecíamos aquela vitória e Deus esteve connosco, porque eu acredito muito em Deus. Depois de tantas críticas, de ouvir tanta gente a dizer que este e aquele jogador não valem nada, que não merece jogar no Inter, acho que foi um calar de boca geral.

Em relação às críticas, está a referir-se às palavras da antiga glória Bergomi (disse que não pagaria 35 M€ por Cancelo, porque era impreciso defensivamente)?

- Eu nem li, a minha namorada é que vê e vai-me dizendo algumas coisas. Não me importa nada que me critiquem, eu até fico mais picado com as críticas e todos podem ter a sua opinião, mas um ex-jogador falar mal de outro em público acho feio. É feio falar mal de um jogador que joga no clube onde tu jogaste, eu nunca vou fazer isso.

Para preparar o jogo com a Lázio, o Spalletti chamou ao centro de treinos os vencedores do "triplete" de 2010. Como é que o vosso grupo interpretou esta "provocação"?

- Isso acabou por contribuir para a vitória, tudo é uma força. A mim fez-me bem, porque eu gosto de adversidade, fico mais picado quando sou criticado do que quando me elogiam, gosto que me critiquem para mostrar que não sou assim tão mau. E, depois daquilo, eu disse: "Nós vamos ganhar este jogo" e eu vi nos olhos de cada um dos meus colegas que todos queriam ganhar para provarem o que são, mesmo os que estavam no banco estavam a lutar para que ganhássemos.