O jogo de "Fuga para a vitória" foi entre padeiros e cordiais aviadores nazis

O jogo de "Fuga para a vitória" foi entre padeiros e cordiais aviadores nazis

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José Manuel Ribeiro

#desportoemtempodeguerra - Em 1942, o campeonato de futebol da Ucrânia estava suspenso e Pelé entrou no relvado para humilhar os alemães. Ou qualquer coisa do género

O "Jogo da Morte" é um clássico das dietas de futebol. As pessoas conhecem-no, remotamente, do filme "Fuga para a vitóra" ou "Victory", no original, que juntou o realizador John Huston a Pelé, Ardiles e Sylvester Stalonne. Não por acaso, o argumento foi escrito por Yabo Yablonski (com Djordje Milicevic), de ascendência ucraniana, o país que viveu o drama original, embora para chegar ao fundo da história tenha sido preciso dar uma grande volta. O que sabemos ao certo: estamos em junho de 1941 e o campeonato da Ucrânia é cancelado, em parte por causa da iminente ocupação nazi, em parte porque não há dinheiro para pagar aos jogadores.

Alguns elementos da equipa do Dínamo de Kiev estão já a trabalhar numa padaria, uns meses mais tarde, quando o "Reichkomissariat" alemão decide aplicar as suas táticas de "pacificação e normalização", que incluíam futebol. Quando um colaboracionista influente tenta recrutar os antigos homens do Dínamo para um novo clube chamado Rukh, eles recusam e decidem criar a sua própria equipa, que completam com três jogadores ex-Lokomotiv de Kiev.

Chamam-lhe FC Start, que em ucraniano também significa começo. Tudo corre bem. O futebol é fenomenal e as goleadas sucedem-se, por regra aplicadas a equipas militares dos aliados alemães ou de setores da indústria. Os primeiros nazis pelo caminho jogam no PGS e são obliterados com um 6-0 devastador. À cabeça do FC Start, está Ivan Kurmenko, "a fera", de quem se diz que treinava com três bolas metidas umas dentro das outras, daí os remates balísticos do meio do campo que dizimavam os adversários.

E a partir daqui, podemos escolher: a versão genuína, o romance ou a propaganda soviética, que cria o epíteto "Jogo da Morte". As duas últimas misturam-se. Coléricos com a goleada, os alemães mandam vir de Berlim a brilhante Flakelf, equipa oficial da Luftwaffe (a força aérea nazi), ariana do guarda-redes até ao último pelo dourado do massagista. O primeiro confronto dá-se a 6 de agosto de 1942. Os aviadores são reduzidos a farinha pelos padeiros (5-1), o que origina uma revolta ensandecida nos regimentos alemães e maior ainda na hierarquia. É imediatamente marcada a desforra para três dias depois, o famoso 9 de agosto.

O FC Start está debilitado pela sucessão de jogos, pelo trabalho noturno na padaria e pela subnutrição. Estão dezenas de milhares no estádio. Em redor das quatro linhas, as SS dispõem fileiras de soldados com cães pastores. Um oficial desce ao balneário ucraniano para informar a equipa de que será ele o árbitro e que é obrigatório cumprimentar o adversário e o público com a saudação nazi, incluindo o "Heil Hitler".

As camisolas vermelhas dos jogadores, a remeter ostensivamente para a União Soviética, não ajudaram na primeira impressão do juiz e pior ainda ficou quando os ucranianos ergueram os braços e, num rasgo de dramatismo, a meio do gesto da saudação levaram a mão ao peito e gritaram "Fizculthura", a saudação desportiva soviética. Seguiu-se a imprescindível brutalidade dos nazis, um golo alemão no aproveitamento abusivo de uma cobarde lesão a pontapé e, no auge do desespero, um tiro encurvado e mitológico do herói Kurmenko.

Estava 3-1 ao intervalo, quando um enxame de oficiais das SS se deslocou ao balneário para ameaçar os jogadores, mas sem conseguir vergar a têmpera ucraniana. Ainda faltavam uns minutos para os 90", quando o árbitro acabou com o jogo antes que o 5-3 final se ampliasse. Calculistas, os alemães esperaram quatro dias até chamarem toda a equipa à padaria, onde todos os jogadores foram detidos e levados para o quartel general da Gestapo.

Denunciado por uma irmã como agente dos serviços secretos da URSS, o avançado Korotkikh morreu logo ali, sob tortura, enquanto os demais seguiram viagem para um campo de concentração em Siretz, acusados de roubo e sabotagem. Em 1943, três deles foram fuzilados, à boleia com mais uma lenda, essa sim, similar ao argumento de "Fuga para a vitória". Teria sido o comandante do campo, Paul Radomski, a mandar fuzilar cada terceiro prisioneiro depois de um derradeiro jogo entres estes e uma equipa da guarnição nazi. A "fera" Kuzmenko estava entre os mortos.

Agora o que sabemos da verdade, a começar logo por aí. Não houve qualquer jogo em Siretz, embora os três jogadores tenham sido de facto fuzilados, Kuzmenko incluído. A razão do massacre (42 prisioneiros) nunca se esclareceu, mas terá estado relacionada com o cão de Radomski. Testemunhas oculares e jogadores do FC Start sobrevivente contam do jogo de 9 de agosto de 1942 uma história bastante diferente.

Não houve pastores-alemães, nem ameaças do árbitro, nem sequer agressividade em excesso por parte dos aviadores da Flakelf, apenas uma grande "cordialidade, desportivismo e cavalheirismo". Também não houve pressões, nem ameaças ao intervalo e as camisolas vermelhas, aliás todo o equipamento dos ucranianos, foi providenciado pelos nazis, que festejaram nessa noite com os adversários e até tiraram fotos juntos.

Uma grande parte dos jogadores foram, efetivamente, presos pela Gestapo, mas nove dias depois do jogo e não quatro. Os sobreviventes garantem que não foi vingança dos alemães e alguns apontam o dedo ao treinador colaboracionista do Rukh, com quem o FC Start jogou depois de bater o Flakelf. Depois do 8-0 final, teria sido essa personagem a denunciar vários dos adversários como ex-agentes do NKVD - e há indícios de que alguns seriam mesmo, até porque o Dínamo de Keiv era o clube do NKVD.

Korotkikh morreu, de facto, sob tortura. Às mãos dos alemães, faleceram, na verdade, cinco dos jogadores e não quatro. Quanto à grande mãe soviética, o que fez, depois de reconquistada Kiev, foi recambiar alguns dos sobreviventes para a Sibéria, acusados de colaboracionismo. O "Jogo da Morte" nunca teve, aliás, qualquer impacto na Imprensa da confederação, porque os jogadores eram considerados refratários, cobardes que haviam recusado combater pela pátria.

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