Luís Castro condena guerra: "Ninguém fez nada. O que interessa estar a dizer agora que se vão reunir?"

Luís Castro condena guerra: "Ninguém fez nada. O que interessa estar a dizer agora que se vão reunir?"
Lusa

Luís Castro exemplificou essa desejada harmonia com a adaptação pacífica do Shakhtar Donetsk, o clube ucraniano mais bem-sucedido no século XXI, à casa do rival Dínamo Kiev, após ter sido forçado a separar-se da sua cidade

O treinador português de futebol Luís Castro, que orientou o Shakhtar Donetsk, entre 2019 e 2021, escutou hoje "testemunhos incríveis" de antigos companheiros em Kiev face ao agravamento da situação político-militar na Ucrânia.Campeão ucraniano pelo Shakhtar Donetsk, em 2019/20, o técnico mostrou-se como "porta-voz de muitas pessoas" que "só querem viver em paz", desígnio que "os grandes líderes do mundo têm de ouvir, esquecendo orgulhos fúteis e trabalhando com diálogo".

"Às vezes, dizemos que o dinheiro pouco importa. Quero é ter paz. É o que as pessoas querem. Quem vive em paz, vive feliz. Esqueçam tudo. Sentem-se, mas não façam o que nos fizeram nos últimos dias. Ninguém fez nada. O que interessa estar a dizer agora que se vão reunir para tomar medidas aqui e ali? As medidas deveriam ter sido tomadas antes, com palavras de esperança para aqueles que estão a sofrer", apelou.

A tensão no leste agravou-se na segunda-feira, com Vladimir Putin a reconhecer a independência dos territórios ucranianos separatistas pró-russos de Donetsk e Lugansk, ambos situados na região de Donbass, tendo Luís Castro admitido que "muitos tentaram transmitir a ideia de que tinham a situação dominada, quando nada disso ia sucedendo".

"É algo totalmente fora de controlo, que colocou o mundo envergonhado e de joelhos em plena Europa, já para não falar dos problemas que acontecem noutros lados. As pessoas assobiam para o lado como se estivesse tudo bem. Portanto, vai continuar a ser assim. Quem sofre e está no meio dos problemas é que tem de os resolver. Neste momento, o mundo é um teatro onde alguns passeiam sem cuidar minimamente dos outros", notou.

Luís Castro exemplificou essa desejada harmonia com a adaptação pacífica do Shakhtar Donetsk, o clube ucraniano mais bem-sucedido no século XXI, à casa do rival Dínamo Kiev, após ter sido forçado a separar-se da sua cidade, localizada a 700 quilómetros da capital, em 2014, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e anexou a península da Crimeia.

"A rivalidade entre adeptos é pelo futebol. No meu primeiro ano, jogávamos em Kharkiv e treinávamos em Kiev. No segundo, passámos a jogar de vez em Kiev. Não digo que não houvesse, mas não senti problemas. Coabitámos sempre muito bem. Muitas vezes, saía do Estádio Olímpico de Kiev e até tirava "selfies" com adeptos do Dínamo", enquadrou.

Estreado em agosto de 2009, o Donbass Arena albergava quase 52.000 espetadores, custou mais de 500 milhões de euros e recebeu jogos do Euro2012, mas foi deixado ao abandono com a guerra e está parcialmente danificado por mísseis russos, frustrando o "sonho" de ser revigorado e voltar a acolher jogos do Shakhtar e da seleção ucraniana.

"Muitas pessoas que trabalham no clube foram deslocadas para Kiev na altura. Falavam-me sempre com muita saudade de Donetsk e fizeram-me lembrar muito o tempo em que em que vieram as pessoas do Ultramar, deixando muitas coisas para trás. Havia um sentimento de perda e, ao mesmo tempo, de muita saudade", finalizou o ex-treinador de FC Porto, Rio Ave, Desportivo de Chaves, Vitória de Guimarães e Penafiel, entre outros.

O ataque foi condenado pela generalidade da comunidade internacional e multiplicou reuniões de emergência de vários governos, incluindo o português, e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), União Europeia e Conselho de Segurança da ONU.