Premium ZOOM - #ObrigadoMister Leonardo Jardim ou a dignidade de um adeus

ZOOM - #ObrigadoMister Leonardo Jardim ou a dignidade de um adeus
Antonio Barroso

O Mónaco deixou Leonardo Jardim, mas as gentes do principado, do clube, os internacionais franceses e os de todo o Mundo que foram por ele dirigidos não parecem dispostos a deixá-lo. Em menos de 24 horas, sucederam-se as publicações de agradecimento e louvor ao treinador português, que quinta-feira rescindiu contrato o emblema monegasco, administrado por um magnata russo. O próprio Mónaco criou uma hashtag - #ObrigadoMister - que se tornou viral.

Gosto de apreciar os derrotados com o mesmo foco que os vitoriosos. Acho até que, no final dos jogos, devia haver sinais interativos nas televisões para acompanhar os festejos e as desilusões, dar a ambos o mesmo tempo de antena. Não sou masoquista, apenas acho que a dor e a desilusão têm um encanto especial, desde que mostradas de forma não pornográfica ou gratuita no que diz respeito a valores e ao bom senso. Isto para dizer que me recordo bem da fugaz imagem do príncipe Alberto, do Mónaco, a abandonar o camarote bem antes do último apito na final da Champions de 2004, perdida contra o FC Porto.

O Mónaco, por estar ali, tal como o FC Porto, após deixarem para trás uma série de tubarões do futebol, estava já numa primeira linha do futebol europeu. Mourinho e os dragões foram um terrível contratempo para o emblema francês, a quem faltava um título europeu. E ainda falta. Entre mitos e lendas, Alberto do Mónaco, desde sempre a eminência parda do clube, abriu portas a gestores de topo e aos empresários que lhe podiam municiar o clube de nomes sonantes do futebol internacional. Segundo a lenda, testou tanto e abriu tanto as portas que um magnata russo, em 2012, comprou a sociedade que gere o clube, então na segunda divisão francesa.

Terminou essa como época com o título da segunda divisão e, na época seguinte, em 2013-14 foi segundo classificado na primeira, ainda com o treinador Claudio Ranieri, mas já com João Moutinho, Ricardo Carvalho, Radamel Falcao... e a mão do super-agente Jorge Mendes.

O resto da história já se sabe: entra Leonardo Jardim, reconquistou em 2016-17 um título que o Mónaco não saboreava há 17 anos e, em contas redondas, formou, recuperou e lançou jogadores cujas vendas renderam aos monegascos cerca de 750 milhões de milhões de euros, conforme pode ler na edição de hoje de O Jogo. De Martial a Mbappé, passando por outros campeões do Mundo e novas estrelas cintilantes no universo futebolístico, como o nosso Bernardo Silva, agora no Manchester City.

Leonardo Jardim, ou melhor, a sua filosofia de gestão de planteis foi vítima da impaciência russa, muito tipificada nos principais campeonatos da Europa. Dmitry Rybolovlev é um desses implacáveis numa rota que apenas vislumbra títulos e sucessos materiais. Coisa de que, um dia, o futebol tal como o conhecemos poderá lamentar. Não há certezas, porque o próprio negócio não se faz sem a paixão dos adeptos, e essa estará sempre engajada à história e memória dos treinadores e jogadores.

E porque a memória dificilmente se apaga, sobretudo nesta era digital, de ontem para hoje sucedem-se as reações à saída de Leonardo Jardim. Desde logo, numa hashtag criado para o efeito: #ObrigadoMister. Na nossa língua - mesmo com o mister do "futebolês" -, são às centenas as publicações nas redes sociais.

O colombiano Radamel Falcao, por exemplo, agradece pelos anos de "trabalho, confiança e sucesso" e diz ter sido "uma honra" ter trabalho sob a direção do técnico luso. "Presto homenagem ao teu profissionalismo durante todos estes anos ao serviço do clube e desejo-te o melhor para os novos projetos que te aparecerão", conclui.

O #ObrigadoMister é um desfilar de agradecimentos da tribo do futebol. Dos grandes jogadores de hoje, como Mbappé, ao próprio AS Mónaco, que no seu ecossistema digital se rende a uma despedida claramente pouco compreendida da administração da sociedade monegasca para baixo.

Entre as várias notícias nos Media internacionais, deixo aqui uma nota relativa a um texto do Manchester Evening News, em que se fala de portas abertas a várias das estrelas do Mónaco, com a saída de Leonardo Jardim. Sim, que os russos nestas coisas vendem logo a loja toda para renovar todo o stock.

Segundo o jornalista Joe Bray, que assina este exercício algo especulativo, Leonardo Jardim "é um dos treinadores europeus mais reconhecidos". Mas a sua saída transforma o russo Aleksandr Golovin, o belga Youry Tielemans, o português Rony Lopes, o francês Willem Geubbels e o italiano Pietro Pellegri em alvos apetecíveis para o City e o United, os grandes emblemas de Manchester.

Bem, especulação por especulação, podemos sempre dizer que o próprio Leonardo Jardim estará sob o mesmo radar...