Um herói antes de Éder que nunca se esquece

Um herói antes de Éder que nunca se esquece
André Morais

Antes de Éder subir ao Olimpo, um islandês indicou o caminho do céu. Lembram-se de quem desviou Portugal para a rota do título europeu? O JOGO não lhe perdeu o rasto

A história do patinho feio português que se tornou príncipe em Paris fica para a história dos Europeus, mas haveria um Éder se não aparecesse, primeiro, um Traustason? O JOGO foi à procura do islandês que, a 22 de junho, desviou a seleção portuguesa para a rota do calendário que conduziria à final. Ninguém sabe como seria se Portugal entrasse no "quadro da morte", jogasse com a Inglaterra em vez da Croácia. O que se sabe é que não haveria final com a França, pois os gauleses seriam o adversário seguinte, antes da Alemanha e de uma final que nunca ninguém virá a saber como seria.

O que se sabe também é que milhares de portugueses festejaram o golo de Traustason à Áustria no minuto 90+5", com mais efusividade do que qualquer um dos que Cristiano Ronaldo marcara antes, no empate a três com a Hungria que selara o pobre apuramento português para a segunda fase de Euro"2016. Arnór Traustason foi o primeiro herói lusitano, ao escancarar a rota da final. Mesmo que só se tenha apercebido umas horas mais tarde. "Inicialmente não percebi, mas as mensagens de portugueses começaram a chegar e então entendi", conta-nos, três meses depois, já longe da memória mais doce que guardará na carreira - "jogar uma grande prova pela Islândia", mas mais famoso do que alguma vez fora, pelo menos em Portugal.

"Falamos depois do jogo da Liga Europa contra o Trencin", prometeu-nos quando contactado pela primeira vez. O Rapid Viena tinha um jogo importante e o médio é profissional que baste para não desviar o foco, até porque chegou à Áustria (o país a quem, por coincidência ou não, marcou no Europeu) recentemente e quer causar boa impressão. Se não tivesse marcado, a Islândia trocaria de lugar com Portugal e ninguém sabe o que sucederia. "É realmente uma questão hipotética e não vale a pena pensar nisso. Ninguém sabe. O que eu sei é que aquele foi o momento mais bonito da minha vida e não podia deixá-lo passar ao lado", conta-nos, já depois de o Rapid se ter apurado para a fase de grupos da Liga Europa. Promessa cumprida e entrevista, ainda que à distância, concedida. "Era o último minuto de jogo e recebi um excelente passe de um colega. Fiquei isolado e com a baliza à disposição. Marquei. Não tinha como me enganar", ri-se.

A Islândia nunca estivera numa grande prova internacional. A estreia, com Portugal, foi tremenda (1-1). "Falei com o Cristiano Ronaldo no fim do jogo, mas melhor do que isso foi o resultado", recorda ele que, uma semana depois, ofereceria a primeira vitória de sempre a um país com pouco mais de 300 mil habitantes. A história dos dois países estava condenada a cruzar-se. "Como disse, inicialmente nem reparei que fiquei famoso em Portugal. Mas depois começaram a chegar mensagens pela internet, ouvi falar do assunto, fui pesquisar e percebi o impacto conseguido. É uma grande honra para mim", congratula-se. "Foi com muito entusiasmo que comecei a ouvir coisas sobre mim. Foi gratificante até porque sempre gostei de Portugal e da vossa seleção nacional", acrescenta. "Quantas mensagens recebi? Não sei, mas foram muitas", reforça. Sem tempo para responder a todas, fica agora uma resposta coletiva: "Obrigado, fico lisonjeado por tudo, mas não me ponham no lugar do Éder!"

Guerreiro no topo da lista do Portugal consistente

O médio islandês conversou com Cristiano Ronaldo, conhece bem todos os craques da seleção, mas no Euro"16 foi Raphael Guerreiro quem o surpreendeu. "Não fazia ideia de que ele era tão bom. Portugal valia pelo conjunto, mas foi Guerreiro que me impressionou", vincou. "A seleção esteve muito bem, foi consistente no Europeu", completa, sem certezas sobre quem merecia ganhar a competição. Mais seguro está da visita que quer fazer ao nosso país, agora que ouviu tanto falar dele. "Seria muito agradável se me convidassem", ri, em jeito de brincadeira. "Jogar num dos três clubes de topo seria melhor ainda."

Bilhete de identidade
Arnór Ingvi Traustason

Keflavik (Islândia)

Data de nascimento: 30/4/1993

Percurso Keflavik, Sandnes (Noruega), Keflavik, Norrkoping (Suécia) e Rapid Viena

Internacionalizações A: 10 (4 golos)