Antonio Ortega, o presidente comunista que o Real Madrid quer esconder

Antonio Ortega, o presidente comunista que o Real Madrid quer esconder
Carlos Machado

DESPORTO EM TEMPO DE GUERRA - Coronel republicano, herói da guerra civil espanhola, presidiu aos merengues no período em que o Madrid Foot-Ball Club deixou de ser Real. A história reescrita considera que o clube não teve presidente entre 1937 e... 1939, ano em que Ortega foi condenado à morte

Augusto Comte, o criador do positivismo, defendia que "a História é uma disciplina fundamentalmente ambígua". Daí ser escrita e reescrita vezes sem conta. Uma nova edição pode acrescentar dados ou negar os anteriores. A história do Real Madrid tem pelo menos um caso desses, já que ignora deliberadamente a existência do nono presidente, o coronel Antonio Ortega Gutierrez, militar republicano e militante do Partido Comunista que liderou o clube durante a Guerra Civil, único período da história em que o futebol parou em Espanha.

O clube tinha mudado de nome, passando a Madrid Foot-Ball Club em 1931, altura da implantação da II República, mas só o período entre 1937 e 1939 é que não tem presidente reconhecido na história do emblema, conforme facilmente se pode constatar com uma consulta ao site oficial. Todos os outros, mesmo os que exerceram nesse tempo em que o Real deixou de ser Real (recuperou os símbolos e o nome dez anos depois, em 1941) aparecerem referenciados.

Em 1936, o estalar da guerra civil radicalizou posições. O Madrid tinha ficado sem o Real e sem a coroa do emblema em 1931. No início do conflito entre republicanos e franquistas passou a ser gerido pela Federación Cultural Deportiva Obrera, que criou uma comissão para gerir o clube. Em nome da democracia e de um "plantel de sócios notoriamente republicanos e de esquerda", como se lia ao tempo no diário "Informaciones", citado pelo jornalista Ricardo Uribarri, em texto na revista "ctxt", a comissão foi liderada pelo também esquecido Juan José Vallejo.

O clube tinha grande afinidade com o ideal da II República e o oitavo presidente, Rafael Sánchez-Guerra, um republicano, foi a votos em 1935 e ganhou. Acabou por ficar na história do clube como o homem que impediu a expropriação do Estádio Chamartin (só muitos anos depois, e após ser reconstruído, passou a chamar-se Santiago Bernabéu). Foi secretário-geral da Presidência da República e preso depois da guerra, sendo condenado a prisão perpétua (cumpriu 26 meses de cadeia e conseguiu sair e ser exilado em França). Rafael Sánchez-Guerra é reconhecido pela história do Real Madrid.

O comité presidido por Juan José Vallejo - a este talvez não possa chamar-se presidente do Madrid porque nem a Imprensa se lhe refere nos mesmos moldes que a Ortega - tentou manter o clube em atividade nos primeiros tempos da guerra mas não chegou a competir. O estádio Chamartin foi cedido a um batalhão de desportistas no qual se alistaram alguns jogadores do Madrid e do Atlético tendo feito apenas jogos de exibição.

Foi por essa altura que irrompeu a figura do coronel Ortega, que chegou a diretor geral de segurança do governo espanhol. Nascido em 1888, iniciou a carreia militar aos 18 anos. Quando a guerra estalou estava colocado em Irún e notabilizou-se na defesa da cidade, o que lhe valeu o cargo de governador civil de Guipúzcoa (País Basco) em 1936.

Lutou nas batalhas de Irún e de San Sebástian e com a formação do Governo Autónomo Basco foi transferido para Madrid, fazendo parte das Milícias Vascas Antifascistas. Na capital comandou a 40ª Brigada Mista e encabeçou a defesa da cidade universitária, granjeando prestígio que o levou a diretor-geral de segurança do governo, nomeado por Rafaél Sanchez-Guerra,o oitavo presidente, com o acordo do Partido Comunista, de que se fizera militante. Por essa altura foi nomeado presidente do Madrid Foot-Ball Clube. O nono.

Numa entrevista ao semanário "Blanco y Negro", em 1938, Ortega falou de um futebol do pós-guerra que seria diferente, sem transferências milionárias, e expressou um sonho: o Madrid deveria construir o maior estádio de Espanha para dar o exemplo do empenho da cidade na guerra, "ao contrário de outras cidades mais frívolas".

As voltas da vida levaram a que anos mais tarde fosse Santiago Bernabéu, homem de ideais opostos aos do coronel Ortega, a fazer do Chamartin o maior estádio de Espanha, inaugurado a 14 de dezembro de 1947, com um jogo entre Real Madrid e Belenenses.

Ortega durou apenas três como diretor geral de segurança e foi mandado novamente para a frente de batalha como comandante do VI Corpo do Exército. Em 1938 ainda comandou o III Corpo do Exército mas no ano seguinte, com as tropas franquistas às portas de Madrid, tentou fugir para a Argélia, mas a 13 de abril foi apanhado no porto de Alicante. Levado a tribunal militar, foi condenado à morte pelo método terrível do garrote vil (estrangulamento).

Além de omitir o nome do nono presidente no site, o Real Madrid também não o mencionou no livro do Jubileu de Ouro ou no Centenário. Segundo o jornalista e escritor Julián García Candau revelou à revista "Sapiens" os atuais dirigentes do clube desculpam-se dizendo que ninguém elegeu Ortega, mas Santiago Bernabéu também não foi a votos, foi escolhido diretamente pelo conselho de administração. Para Candau, ex-direitor da RTVE e do diário "As", só há explicação: "ser comunista, simplesmente".

NÃO SAIA DE CASA, LEIA O JOGO NO E-PAPER. CUIDE DE SI, CUIDE DE TODOS