Premium ZOOM – Mourinho, os politicamente incorretos estão contigo

ZOOM – Mourinho, os politicamente incorretos estão contigo
António Barroso

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Hoje passamos a lupa pelas indignações do chamado "politicamente correto". A culpa é de José Mourinho, cujo gesto orelhudo é notícia em todo o mundo. Assumidamente, também lhe damos foco. Mas permitimo-nos tomar posição e aceitá-lo como perfeitamente normal, tal como outros gestos de ontem, com origem nesse espetáculo que é o futebol e o que fazem ou dizem os seus protagonistas... e outros.

É passar os olhinhos no planeta digital e só dá gente, de Jacarta a Timbuktu ou de Perth a Glasgow (é sempre de bom tom inserir localidades menos batidas nestas coisas semi-opinativas, para dar um ar mundano) a mandar palpites sobre o gesto de José Mourinho, após a vitória sobre a Juventus, para a Liga dos Campeões.

Facto 1 - Mourinho, no final, pôs a mão atrás da orelha e rodou sobre si próprio, a encarar os adeptos da Juve. Este é o mundialmente famoso gesto "E agora? Não dizem nada?".

Facto 2 - Das bancadas, o nosso José - que é um José do Mundo - ouviu todo o género de impropérios, personalizados, de um bando de gente que, nem há muitos anos, também o considerava o seu José.

Facto 3 - O gesto correu o Mundo em segundos e o José de todos explicou em várias línguas, na conferência de Imprensa que se seguiu à vitória forasteira (1-2), os factos 1 e 2.

Pois bem, os Media são ávidos destas pequenas grandes questiúnculas. José tem o foco solar mesmo durante a noite. Que é como quem diz, anda sempre toda a gente atrás do "dark side of José", o que é melhor traduzir para português - "o lado negro de José" -, não vá alguém nunca ter ouvido o "Dark Side of The Moon".

O treinador do Manchester United explicou aos Media que ouviu todo o género de insultos durante todo o jogo. E que o seu gesto não foi mais do que "algo excessivo". E que, "a frio, teria ido diretamente para casa". Mas o futebol é quente, é de temperaturas e temperos que ardem.

Aqui entre nós, quem nunca reagiu a um insulto que atire a primeira pedra. Acreditamos até que muito poucos de nós terão tido a oportunidade de ser insultados durante hora e meia por cerca de 50 mil bacanos.

Ontem foi um dia de gestos daqueles que ficam. E hoje, qualquer gesto é imediatamente replicado via digital. E nem há eremitas que se alheiem destas coisas. Vamos pegar num dos outros gestos de ontem passível de todas as interpretações possíveis: Cristiano Ronaldo, após mais um fabuloso golo, precisamente contra o Manchester de Mourinho, levantou a camisola para mostrar os abdominais. Não é o seu gesto de celebração habitual, mas não é inédito.

Não houve um chorrilho de interpretações ao gesto de CR7 porque, desta vez, houve foco noutro português no mesmo palco. Caso contrário, era bem provável que o movimento #MeToo ali encontrasse alguma provocação mais máscula e menos muscular. Mas nada, até ver. Aliás, do que se encontra na net, o mais interessante é mesmo o cartoon do jordano Omar Momani, que pode ver imediatamente abaixo.

Agora, outro gesto ontem mediatizado. Mais do que provocado, o treinador do Benfica mostrou-se agastado com o repetido - há semanas - e multiplicado (pelos milhares de ontem na Luz) gesto do lenço branco. E saiu-se, na conferência de imprensa, com uma resposta que pôs em sentido a opinião mais puritana sobre as respostas típicas dos treinadores à contestação dos adeptos: "As pessoas são mais emotivas do que racionais".

Por falar em gestos, nas mesmas bancadas que os adeptos a quem Rui Vitória se referiu, embora em modo mais sereno, costuma estar um ministro que até já teve um gesto plácido para com as bancadas do Parlamento. Mário Centeno, que tem escapado à trovoada crítica dos seus antecessores na pasta das Finanças graças aos incomparáveis bons resultados, não foi visto de lenço branco na mão à mesma hora que os adeptos benfiquistas, mas antes não havia escondido aos seus pares e aos deputados na Assembleia da República a vontade de acelerar os trabalhos para poder chegar a tempo do jogo.

E o que têm estes gestos em comum? Bem, a impossibilidade destas quatro personalidades serem vistas como humanos, com virtudes e defeitos, com emoções e devaneios.

Sem entrar em touradas alheias, a ditadura do politicamente correto tem um quadro muito punitivo no mundo do futebol. Não só em Portugal, como se pode perceber nestes quatro casos. E as indignações, sobretudo nas redes sociais, são de tiro fácil e munição barata.

O argumento mais usado pelos arautos do politicamente correto é o da representatividade da "persona". O problema é que não há "personas" sem pessoas por trás.

Entre todo o juízo de valor relativo momentos de humanidade de cada um dos quatro portugueses referidos, todos eles relacionados com o futebol, há um juízo relacionado com o desempenho desportivo que importa, verdadeiramente, destacar. O de que talvez seja de guardar o "caixão" de José Mourinho. Como titula hoje o poderoso periódico espanhol Marca, "nunca o deem como morto".

NOTA: ARTIGO ALTERADO ÀS 18h33