Um prodígio na linha de Guardiola e Zidane: "Filipe Luís tem tem o grupo na mão"

Filipe Luís
AFP
Em apenas 15 meses, Filipe Luís ganhou cinco títulos ao comando do Flamengo. Uma entrada fulgurante. Diego Simeone é o mentor, mas Jorge Jesus é também uma das principais influências de um treinador que foi companheiro de equipa da maioria dos jogadores que agora orienta.
Aos 40 anos e com uma curta carreira, Filipe Luís é um dos treinadores mais conceituados da atualidade. Embora muitos ainda o reconheçam como o lateral-esquerdo que brilhou na Europa e na América do Sul, o palmarés como técnico vai, aos poucos, substituindo as memórias. Após 15 jogos promissores em 2024, o brasileiro manteve a confiança dos responsáveis do Flamengo e retribuiu com cinco títulos, um dos quais a Taça Libertadores, que fugia desde a era de Jorge Jesus.
Desde que chegou ao Flamengo disputou nove competições e venceu cinco - em 2024 conquistou a Taça do Brasil, pouco mais de um mês após a chegada ao plantel principal, e no ano passado venceu o Carioca, a Supertaça, a Libertadores e o Brasileirão. Os únicos troféus que ficaram de fora do palmarés foram o campeonato de 2024, a Taça do Brasil de 2025, o Mundial de Clubes e a Taça Intercontinental.
Inspirado em Diego Simeone, conquistou aquilo que sempre escapou ao seu mentor - um título internacional. Foi o técnico argentino que lhe despertou o interesse em ser treinador e também a sua maior influência, seguido de Jorge Jesus, como referiu depois de pendurar as chuteiras. Com apenas 88 jogos disputados e já com um palmarés ao nível de nomes históricos do futebol brasileiro, o arranque de Filipe Luís faz recordar os inícios de Pep Guardiola ou Zinedine Zidane, que se estrearam ao comando dos eternos rivais Barcelona e Real Madrid.
Como treinador, uma das suas virtudes é a preocupação com o lado humano do grupo que orienta, algo que traz consigo desde os tempos de jogador. Em Espanha, para criar uma maior ligação com Arda Turan, com o qual viveu alguns dos melhores anos da carreira no Atlético de Madrid, o brasileiro visitou uma mesquita com o antigo colega, aprendeu sobre islamismo e o Corão, e até viajou para a Turquia, criando uma boa amizade que demonstrou resultados em campo.
O antigo lateral despediu-se dos relvados em 2023 e não tardou a assumir o desejo de ser treinador. Os estudos para esta função começaram enquanto ainda jogava no Brasil e aliás, em 2019, Filipe Luís admitia publicamente que queria aprender com Jorge Jesus para estar mais preparado para um dia chegar ao comando do Flamengo - o que viria a acontecer poucos anos depois.
Logo após o último embate da carreira de jogador já falava em ser campeão no Rio de Janeiro e, sem levantar o véu, explicava como seria o Mengão sob a sua alçada. "O meu estilo é o Flamengo. É só ver como os adeptos querem que o clube jogue. É como eu quero que o meu clube jogue. Tenho tudo preparado e desenhado, agora falta colocar em prática", disse à imprensa no rescaldo do seu último encontro, como que lançando uma profecia.
Quatro festas de arromba no espaço de um ano
Enquanto jogador a carreira de Filipe Luís foi bem recheada de troféus, conquistando 23 nas 21 épocas em que atuou: dez no Flamengo, sete no Atlético de Madrid, dois no Chelsea, no Figueirense e na seleção do Brasil. A média ligeiramente superior a um troféu por temporada cresceu agora com a passagem a treinador: em apenas ano e meio na equipa principal do Fla, o treinador já festejou cinco vezes, quatro das quais no ano civil de 2025: Cariocão, Campeonato e Supertaça do Brasil, e Libertadores - Danilo (na foto) marcou no 1-0 da final sobre o Palmeiras.
"Filipe tem o grupo na mão"
Abel Braga considera que no Brasil, nesta altura, existe unanimidade em relação ao treinador
Com 23 troféus em 40 anos de carreira, Abel Braga é, aos 73 anos, um decano do futebol brasileiro. Um histórico, verdadeiramente, que na última época regressou ao Internacional para conseguir o "milagre" da permanência na última jornada do Brasileirão e que, agora, aceitou o desafio de O JOGO para apreciar o trajeto de Filipe Luís. "Aqui no Brasil há unanimidade em relação ao Filipe Luís, um treinador que tem quase tantos títulos no clube do que o número de derrotas", afirmou Abel Braga, lembrando que o compatriota treina agora vários jogadores "com quem atuou na mesma equipa".
"Tem uma liderança muito positiva e tem o grupo na mão. Em alguns momentos de dificuldades conseguiu superá-los com muita grandeza e é um carácter espetacular, uma pessoa de nível. É muito, muito correto, gente boa, e merece que tudo lhe corra bem. Tenho uma admiração muito grande por ele, quer como pessoa quer como treinador. Com o Filipe Luís no comando este grupo é muito mais forte, apesar do plantel já ser muito bom. A voz de comando dele é nítida dentro do campo", acrescentou Abel Braga.

Vitão é o primeiro da lista de José Boto
É um português que lidera o processo de contratações do Flamengo para a época desportiva que agora se inicia no Brasil. Central contratado ao Internacional é o primeiro, ontem anunciado, mas Kaio Jorge ou Marcos Leonardo são outras possibilidades. O presidente do clube já disse que pode gastar 160 milhões
O Flamengo oficializou ontem a contratação de Vitão, central que deixa o Internacional de Porto Alegre em troca de 10 milhões de euros, sensivelmente. O defesa é o primeiro de uma lista que pode vir a crescer de forma significativa, falando-se em nomes como Kaio Jorge (Cruzeiro), Marcos Leonardo (Al Hilal), Andrew (Gil Vicente) ou Gabriel Brazão (Santos).
José Boto é o português que encabeça o processo de contratações, tendo estado nos últimos dias em Portugal (na companhia de Filipe Luís) a tentar acelerar algumas das transferências previstas.
Isto num contexto em que Luiz Eduardo Batista, presidente do Fla, afirmou (há cerca de um mês) ter cerca de 16o milhões de euros para gastar em reforços - verba elevada para a qual contribuiu o sucesso desportivo do clube, nomeadamente a conquista da Libertadores. "Se eu tiver de gastar mil milhões de reais para continuar a ganhar tudo, eu posso gastar. Uma coisa é querer gastar e não poder, porque não se consegue pagar. A decisão só tem uma consequência, temos de ter dinheiro para pagar. Quando olho para o horizonte de dois anos de planeamento, eu posso gastar um bilião no ano que vem. Devo? É aí que entra a avaliação", assegurou o dirigente aos meios oficiais do Flamengo, falando ainda de uma "faturação extraordinária" e do "melhor resultado que um clube já obteve na América Latina".
Já ontem, porém, uma nota oficial do Mengão arrefecia os ânimos consumistas. "A atual gestão do Flamengo tem um compromisso com a evolução contínua, sempre pautada por planeamento, responsabilidade e profissionalismo. O clube esclarece que possui alvos definidos nesta janela e conduz as suas tentativas com estratégia e sem pressa, dando prioridade a decisões que efetivamente contribuam para o fortalecimento desportivo e institucional do clube", divulgou o Mengão, acrescentando que já tem "um plantel altamente qualificado", que foi determinante para "um dos anos [2025] mais vitoriosos" da sua história.

