Sá Pinto e as vítimas da repressão no Irão: "Fala-se de 20 ou 25 mil, foi mais do dobro..."
Ricardo Sá Pinto, treinador português que deixou o Irão há uma semana, falou à RTP sobre o estado do país antes de ter sido alvo de uma ofensiva militar conjunta dos Estados Unidos e de Israel [vídeo - X/@EliteFinPT]
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Ricardo Sá Pinto, que deixou o comando dos iranianos do Esteghlal em fevereiro, voltou a Portugal há uma semana e falou na terça-feira à RTP sobre o conflito armado em que está envolvido o Irão, não se mostrando surpreendido com o que está a acontecer, dizendo que era uma "questão de tempo" após a resposta mortífera do Governo local a manifestações pacíficas do povo.
"A vida económica do país desceu abruptamente, as pessoas ficaram ainda mais insatisfeitas. Há aqui um nicho realmente que tem muito dinheiro, mas representa 5 ou 6%, depois 90 e tal por cento das outras pessoas pelo país têm imensas dificuldades financeiras e isso é uma das grandes preocupações. As manifestações das pessoas têm a ver fundamentalmente com isso, com a qualidade de vida, e claro com a liberdade, com a liberdade de expressão, com a liberdade de poderem democraticamente exprimir a sua vontade e as coisas que mais devem e gostam de fazer", começou por explicar.
"90 e tal por cento das pessoas, enfim, há aquelas pessoas que são realmente religiosamente fanáticas e que acreditam no que acham que têm que acreditar, mas uma pessoa minimamente equilibrada emocionalmente percebe e sabe que nos tempos de hoje é inadmissível viver-se com estes constrangimentos todos, com estas regras absurdas, com esta falta de liberdade, enfim, e que é demais. Houve aqui alguma permissão em relação às mulheres, um bocadinho mais de liberdade na forma como utilizavam o lenço, já não era obrigatório quase, mas tudo o que são regras ao nível do dia a dia, enfim, de poderem falar ou dizer livremente o que acham... A nível também do que são os divertimentos: não têm discotecas, não se pode beber um copo de vinho ou um copo de cerveja na rua, num restaurante, enfim, é tudo muito restringido e muito difícil de se viver, principalmente para as pessoas europeias como eu, que não estamos habituados a este regime, a esta forma de viver", prosseguiu Sá Pinto, garantindo que o número de vítimas mortais na sequência destas manifestações é muito superior ao noticiado internacionalmente.
"Fala-se de 20, 25 mil, não, foi mais do dobro. Muitas imagens e vídeos, infelizmente, não chegaram à Europa, porque foi realmente uma catástrofe, foi algo indescritível, e também foi um bocadinho a partir daí que a minha motivação, a minha vontade de continuar, de estar, a minha alegria, perdeu-se. Foi-se perdendo, foi terrível", assumiu.

