Raphael Veiga a O JOGO: "O primeiro passo do Abel Ferreira para nos conquistar..."

Créditos: NELSON ALMEIDA / AFP
REPORTAGEM, PARTE I - Raphael Veiga tem sido uma das estrelas sob a égide de Abel Ferreira e fala tudo sobre o papel do português nestes anos de sucesso, dos aspetos mais individuais aos mais globais. Troféus são legado de luxo de Abel no Verdão. O JOGO tenta perceber a dimensão do afeto e do culto
Abel Ferreira entrou já na quinta época com funções no Palmeiras... com registos indestrutíveis de uma influência única na história do Verdão. Chamam-lhe o “cara” e vestem-lhe a etiqueta de maior vencedor do clube paulista. Os números e títulos são a sublime razão de tanto tributo, arrastam paixão arrebatadora do adepto. Tudo somado, mudou a aragem e o destino do Palestra, uma vocação trituradora de Abel Ferreira, espelhada em duas conquistas do Brasileirão e outras duas da Libertadores. Quer-se mais do campeão. Fervilham pronósticos.
Homem-chave neste Palmeiras voador tem sido o médio ofensivo Raphael Veiga, que falou em exclusivo com o JOGO sobre nova campanha que já bate à porta. O internacional brasileiro fez 179 jogos com Abel, 162 como titular e anotou 62 golos, esmagando os registos anteriores. Aos 28 anos, a cumplicidade de Veiga com o técnico penafidelense apalpa-se em cada resposta, tal como a pontaria afinada na ponta da chuteira.
“Conseguimos ganhar campeonatos e títulos importantes, mas o fundamental foi a nossa vitória enquanto equipa, sabendo que se ela está forte e bem, o individual destaca-se e as conquistas são inevitáveis. Abel incutiu uma mentalidade vencedora, muita organização dentro e fora do campo, conetando o futebol ao homem, entendendo perfeitamente o que se passa fora do futebol na vida de cada um. Fez a diferença para todos, especialmente para mim”, reconhece Veiga, diamante do alviverde.
Do balanço dessa estreia contra o Bragantino, em novembro de 2020, até hoje, invocam-se os ganhos categóricos de quem atropelou o anonimato na chegada. “Eu não o conhecia, nem tinha ouvido falar. Deu para perceber que era um técnico jovem, que vinha com vontade e sede de ganhar. O primeiro passo para nos conquistar foi quando reuniu todos, até os funcionários, e fez saber que qualquer um teria importância dali para a frente. Todos seriam capazes de ajudar os jogadores a fazerem um melhor trabalho dentro do campo. Isso trouxe uma valorização grande para qualquer funcionário, que, por norma, passa despercebido. Esse estilo de liderança injetou logo uma atmosfera diferente”, elucida Raphael Veiga.
Sem surpresa, o brasileiro expressa a devoção. “É o melhor técnico que tive, fez com que entendesse melhor o jogo, hoje estou em campo de forma mais leve e desfruto. Antes era focado no resultado e dava pouca atenção ao processo. Fiquei um melhor jogador, entendendo todo esse peso que o Abel atribui na questão mental e emocional”, esclarece Veiga, alegremente confrontando com o facto de uma ligação perfeita perdurar no universo do Palmeiras.
“A permanência é ótima, já temos uma grande sequência de jogos e campeonatos, todo o mundo se entende, cada atleta sabe o que Abel espera de si. Estamos acostumados a uma certa liberdade que ele nos dá”, precisa o criativo palmeirense, esbatendo qualquer ideia de alta pressão imposta pelo técnico ao seu balneário.
“Nada disso! Ele é muito diferente no campo e no dia-a-dia. Connosco nos treinos é leve e tranquilo, até na cobrança. No campo transforma-se, porque quer muito ganhar e há quem entenda mal o seu jeito. Já em relação à dureza no que diz nas conferências, nós também sentimos que o calendário está muito apertado, é um desgaste enorme. Ele fala o que acha e tem tentado melhorar o futebol brasileiro”, considera Raphael Veiga, aceitando ainda refletir sobre o prato forte das conquistas que lhe incendiou o palato.
“Todos os títulos foram fantásticos e saborosos, cada qual com a sua história. Escolho a Libertadores que conseguimos ganhar em cima do Flamengo. Momento marcante, pelo tamanho que esse jogo representava no Brasil, milhões no mundo que pararam para assistir. E o campeonato paulista, pela ‘virada’ que conseguimos dar no São Paulo, uma proeza impressionante”.
Sobre essa estranha metamorfose do reinado de Vanderlei Luxemburgo para Abel, Veiga dá conta da fórmula mágica com que o português sacudiu dúvidas e projetou uma nova alma no campo.
“Eu sempre cobrei muito a mim mesmo, era algo excessivo que me foi prejudicando. Com Abel tudo mudou, porque ele, no final de um treino, chamou-me e sentou-se comigo no meio do relvado. Contou a sua história de vida, levou-me pela importância de aspetos mentais e emocionais. Falava em nome de Nelinho, alcunha do seu subconsciente. Nessa conversa, ensinou-me muita coisa para me tornar, além de um bom jogador, alguém muito forte mentalmente”, rebobina.

