Palhinha recorda avós com emoção: "É um vazio que nunca se preenche..."

João Palhinha (créditos: PATRICIA DE MELO MOREIRA / AFP)
Declarações de João Palhinha, médio da Seleção Nacional e do Fulham, ao programa Alta Definição, da SIC
Ídolos: "Nunca tive ídolos [no futebol], apenas jogadores que sempre apreciei muito. Os meus ídolos foram o meu avô, a minha mãe... Quando falamos na palavra ídolo, é algo muito forte”.
Sacrifícios na adolescência: "O meu pai sempre me disse que o futuro ia justificar... Lembro-me de estar na escola, haver as viagens de finalistas, colegas que saiam à noite... Privei-me de muita coisa. Ia para a cama mais cedo, porque ao sábado ou ao domingo havia jogo. Mas tentei e fiz o que a minha consciência também me dizia para fazer. Pressão do meu pai? Um bocadinho, mas ainda hoje, quando um jogo não corre bem, ele sente as minhas dores. Ele só foi exigente comigo porque eu o permiti e porque queria ser profissional”.
Tinha um plano B caso o futebol não resultasse? “Sempre tive um. Sempre quis estar ligado ao desporto e se não fosse jogador, talvez fosse professor de Educação Física”.
Avó Lena: "Sempre foi uma guerreira, uma das referências da minha vida. Sempre fui um menino ligado à família, tanto aos meus pais, como aos meus avós maternos. Infelizmente, os meus avós maternos já não estão vivos, a minha avó Leninha já faleceu. Teve uma doença degenerativa - esclerose lateral amiotrófica - e foi algo que nos marcou muito. Estava a jogar no Norte... A minha avó era uma pessoa muito bem-disposta, alegre, que adorava viajar e visitar as joalharias da Avenida de Roma. Apareceu-lhe essa doença, que a desgastou muito... Faltava-lhe mobilidade, notávamos que andava mais cansada que o normal. Não estávamos à espera. Eu não poder ajudar a minha mãe naquela altura, vendo a mãe dela entrar num estado praticamente vegetal... É uma dor inexplicável. Não consigo imaginá-la, aliás. Vai sempre servir-me de referência, ver o comportamento que a minha mãe teve com a minha avó. Torna-se muito difícil falar disto... [pausa]. Ver a minha avó a chorar, ao ponto de não conseguir expressar-se, a ver as lágrimas nos olhos dela, quando lhe dava um beijo, um abraço, sentido que ele não podia dizer aquilo que queria... Isto com 60 e tal anos. Com muita vida pela frente. Quando partiu e cada vez que marcava um golo, dedicava-o a ela."
Falecimento do avô: “Foi ao contrário da minha avó, completamente inesperado, algo que me deixou, aos 16 anos, completamente transtornado - também tinha 60 e poucos anos naquela altura, era muito novo. Foi o momento mais difícil da minha vida. Lutou sempre muito pela minha educação, foi um segundo pai... Nada se compara ao que o meu avô foi para mim. Sempre disse tudo ao meu avô, tal como digo à minha mãe, todos os dias, que a amo muito. O número 6 é por ele, porque nasceu e faleceu num dia 6. É por isso que está sempre na minha camisola [era o 6 no Sporting e é o 26 no Fulham]. Se pudesse pedir um desejo hoje, era ter os meus avós cá. É um vazio que nunca se preenche [pausa]... Tudo o que tenho vindo a alcançar, fica sempre um vazio por não os ter aqui a ver. Só seria verdadeiramente feliz com eles a vê-lo. Todos nós temos as nossas estrelinhas, mas gosto de pensar que eles estão a ver-me lá no céu. Daria tudo para que conhecessem o bisneto, o meu filho [João Maria]. Mas também gosto que há sempre alguma coisa de melhor que ainda está por vir”.
