José Moreira: "Saímos numa carrinha. Durante o caminho, víamos mísseis a voar"

José Moreira, à direita, com dois colegas
D.R.
Na viagem de 500 km entre Khorramabade e Teerão, José Moreira viu um míssil a levantar voo bem perto da carrinha onde seguia com os atletas. O técnico não esquece o barulho que fez o lançamento de um míssil bem perto de si. "Não estava habituado", conta, a O JOGO, o adjunto do Chadormalou Ardakan, quinto classificado no Irão.
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Durante os bombardeamentos, como conseguiram sair de Khorramabad?
-Saímos numa carrinha. Durante o caminho, víamos mísseis a voar. Olhávamos para o exterior e víamos os mísseis pelo ar, muito longe de nós. Fizemos a viagem durante o dia e íamos vendo os mísseis, mas bem ao longe.
Apesar disso, não se sentiu muito assustado?
-Não, nunca. Nunca senti qualquer tipo de sobressalto. Houve apenas uma situação, em que nós estávamos a passar por uma espécie de portagem e acabou por ser disparado um míssil a cerca de 100 metros de nós. O barulho foi grande, foi forte, algo a que eu não estava habituado. Foi um susto de dois ou três segundos, mas depois toda a gente olhou e disse: 'O que é isto? Sai um míssil aqui do nada?'. Nós não estávamos a contar, o barulho foi forte, mas não passou disso.
Depois foi para Teerão e, na capital, como conseguiu depois sair do país?
-Deveu-se ao nosso presidente. Ele propôs-nos sairmos de Teerão para uma cidade a uma hora de distância, chamada Kordan, para umas moradias. O trânsito e o fluxo de gente que estava a tentar sair do país nas fronteiras era enorme e ele propôs-nos que ficássemos nessa cidade por dois ou três dias até a situação acalmar. E foi isso que fizemos, saímos de Teerão e fomos para Kordan passar uma noite apenas.
Quantas pessoas eram?
-Era eu e mais sete jogadores, os estrangeiros do clube, três do quais com esposas e todos eles com filhos. No total éramos 15 pessoas, em três carrinhas. Uma só para as bagagens, outra era a carrinha das famílias e a outra a dos solteiros.
Depois foram para onde?
-Depois arrancámos novamente para o noroeste do Irão. Tivemos que passar por Tabriz para a fronteira turca. Tínhamos a opção de sair pelo Azerbaijão, pela Arménia ou pela Turquia e optou-se pela Turquia. O nosso presidente garantiu-nos que teríamos um tratamento privilegiado na fronteira turca e foi isso que aconteceu. Ele conseguiu resolver bem a situação.
Depois na Turquia foram para Istambul e apanhou um avião para Portugal?
-Depois da fronteira turca andámos mais duas horas e pico até à cidade de Van, de onde apanhámos um voo para Istambul. Que foi onde chegámos já na terça-feira. Ainda dormi em Istambul, porque não havia voo de conexão e o meu voo para o Porto foi no dia seguinte, na quarta-feira, às 13h15.
O que perspetiva para os próximos tempos?
-Perspetivo paz, acima de tudo. Pelo que vejo nas notícias, o conflito está a escalar. Mas o que perspetivo, o que desejo? Paz. Que a guerra não vá avante. Até porque gostei muito do Irão. E vendo que um país onde tanto gostei de estar, está na situação em que está, obviamente o que desejo é paz, o mais rapidamente possível. O cessar das hostilidades o mais rapidamente possível, para que a situação possa voltar ao normal o mais rapidamente possível também.
E como pode resumir os dias atribulados dias que passou recentemente no Irão? O que lhe vem à cabeça, em primeiro lugar?
-O que me vem à cabeça é agradecer a disponibilidade dos responsáveis do Chadormalou Ardakan e principalmente do senhor Ali Babaei, presidente do clube, que foi uma pessoa que mostrou uma enorme disponibilidade e sensibilidade no contexto que nós estávamos a passar e que esteve sempre do nosso lado a dar apoio e a dar-nos opções, e opções sensatas, de forma a que pudéssemos ter estado sempre em segurança. E a planear sempre uma saída do país da melhor forma possível.
Fogo e balas nos protestos de janeiro
ntes desta guerra, o regime teocrático iraniano, nascido com a Revolução Islâmica de 1979, foi contestado nas ruas de várias cidades no país. A população protestava a falta de liberdade no país, assim como a degradação das condições de vida, o que provocou a ira dos governantes. No total, mais de 3o mil manifestantes foram mortos. "Eu estava em Mashhad, onde tínhamos ido fazer um jogo particular. Perto do hotel onde ficámos estavam a haver protestos na rua. A partir das 20h00 começaram a ficar fora de controle e nessa altura fomos para a varanda ver o que se passava. Já havia fogo pelo ar, ouviam-se tiros de balas de borracha. Perigo, propriamente, não sentimos", conta José Moreira.
