
ENTREVISTA, PARTE II - Formado no Vitória, passou pela Liga 3 e, subitamente, virou a carreira para a Ucrânia. Jota Pereira é um extremo sem medo, de confrontos no campo e também de um contexto bélico próximo
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Jota Pereira reflete sobre a mentalidade dos ucranianos, as dores que alguns carregam - como treinar um dia depois da morte do pai - e ainda lembra aqueles que o chamaram de maluco pela aposta.
Esta altura do ano do rígido inverno ucraniano permitiu recarregar energias em Portugal? Sente-se a complexidade da guerra energética?
-A pausa de inverno demorou a chegar, mas soube-me mesmo muito bem. Serviu para recarregar energias junto da minha família, amigos e namorada. Passar as festas perto deles foi muito especial e algo que precisava para a segunda parte da época. Durante o inverno, os ataques às centrais de energia são frequentes para nos deixarem sem luz e aquecimento, mas o clube é muito bem estruturado e garante sempre essas condições. Temos normalmente dois ou três geradores para que não nos falte nada. É o que ajuda a remediar, porque é uma altura má, são muitas horas do dia sem luz.
Como foram os diálogos com a família, a partir do momento que começou a ponderar a decisão? Surgiram alguns "és maluco" pelo meio?
-Foi exatamente isso: chamaram-me maluco, disseram que não estava a pensar bem e que estava a arriscar a vida pelo futebol. Mas para mim o futebol é isto - adrenalina e paixão. Antes mesmo de pedir-lhes opinião, eu já estava muito entusiasmado com este passo. A minha mãe não achou muita piada, o meu pai ficou meio-termo, mas a minha namorada disse-me que, se eu me sentia feliz, não devia deixar fugir esta oportunidade. Agora estou a tentar convencê-la a vir para cá.
Pegando em episódios contados por colegas, como definir a mentalidade dos ucranianos neste filme de terror? Teve contacto com histórias mais arrepiantes?
-Já ouvi muitas histórias, tanto contadas por colegas como vividas por mim. Desde jogos interrompidos devido a mísseis a passar, até ouvir a sirene pela primeira vez, é uma loucura. A história que mais me marcou foi a de um colega de equipa cujo pai morreu em combate. No dia seguinte, ele treinava como se nada fosse. Perguntei-me como aquilo era possível. Os ucranianos são conquistadores e extremamente corajosos. Vivem esta guerra há anos, mas estão sempre com um sorriso na cara - na cidade, no supermercado, nos jogos, no clube. Já lhes perguntei como conseguem e disseram-me algo que nunca vou esquecer: o nosso inimigo odeia ver-nos sorrir.
Sem palavras pela Taça da Liga
O que facilita a companhia de Miguel Campos no projeto?
-O Miguel ajuda-me muito. Costumam dizer que sou o "filhote" dele. Acolheu-me no clube e na cidade desde o primeiro dia. Ele mora com a mulher na cidade, mas faz sempre questão de que não me falte nada. Foi um pilar fundamental na minha adaptação. Não só fora do campo, mas também dentro. Tem mais experiência, dá-me muitos conselhos e ajuda-me bastante a nível psicológico, porque estou sozinho no país.
Como está essa pele de conquistador, das memórias à conquista da Taça da Liga?
-A estreia na equipa A foi o melhor momento da minha vida e da minha carreira - algo que nunca vou esquecer. Na noite anterior ao jogo estava no quarto com o Alberto Costa e perguntámos um ao outro: e se entramos os dois amanhã? Acabei por entrar só eu. Ele ficou triste, mas acima de tudo ficou feliz por mim. É algo que nunca vou esquecer, porque éramos os miúdos da formação. Lembro-me bem de quem estava nesse dia: Bruno Varela, Jota Silva, Dani Silva, Amaro... os craques todos. Alguém que nunca vou esquecer é o Moreno e a sua equipa técnica. Foram eles que me deram a oportunidade de estrear-me no meu Vitória, e estarei eternamente grato a eles e ao clube. A conquista da Taça da Liga foi incrível. Ganhar ao Braga, o nosso maior rival, tornou tudo ainda mais especial. Da forma como foi, com o Charles a defender aquele penálti no fim... sem palavras.

