
Athirson, antigo lateral do Flamengo e da canarinha, foi secretário nacional do futebol no Brasil, impondo uma marca de aproximação ao futebol feminino, privilegiando a igualdade e dando força à inclusão a vários níveis
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Um ex-jogador que vestiu recentemente a pele de político...como secretário nacional de Futebol e Defesa dos Direitos do Adepto do Governo, que avaliação faz do legado do seu trabalho?
-Na política, procurei aumentar a igualdade dentro do país. Como Secretário Nacional do futebol, era um dever assumir essa preocupação, já que a nossa missão, estando por dentro, é atuar e dar oportunidades a todos os que fazem a sociedade. Houve um desenvolvimento acelerado, alcançaram-se 20 núcleos do futebol feminino, com parcerias e cooperação nas cidades de São Paulo, cerca de 1500 meninas, no Rio de Janeiro, com mais 800. Houve uma recetividade considerável e saborosa. Através desses núcleos, ficou um plano em curso de atingirmos 3500 meninas. No geral, conseguimos lograr um envolvimento de 16 mil meninas, seja pelos núcleos ou pela capacitação através de cursos. Algo que encaixa no fomento da Secretaria Nacional. Não podíamos fomentar diretamente as associações, a ideia foi atingir os institutos. Estes núcleos aumentam o desenvolvimento do futebol, muito especialmente o feminino, e servem para deixar um grande legado para o Mundial de 2027. Foi esse o espírito de missão que me acompanhou
Esta ação em nome da inclusão e da cidadania já vinha de um jogador com uma sensibilidade maior para que o desporto fosse um território de oportunidades, por excelência?
-Tenho um projeto social, organizo jogos solidários para entregar um pouco do que o futebol me proporcionou. Eu abri esse núcleo peculiar, em que tentava orientar meninas sem oportunidades e inseri-las no mercado de trabalho. Já saíram quase uma dezena de atletas para lides profissionais. No Ministério, a missão baseou-se, ainda mais, em acentuar oportunidades, um tipo de trabalho que me deixa encantado. Tudo o que passe por favorecer a inclusão, oferecer igualdade, é importantíssimo. Deu-se um investimento forte nessa demanda. Criaram-se oportunidades para os olheiros verem atletas ou levarem algumas por indicação prévia
Olhando ao flagelo do racismo, a outros problemas mais amplos da sociedade, um jogador de futebol posicionar-se é raro e envolver-se na política com essa consciencialização ainda mais difícil. Preocupa-o esse distanciamento?
- Ganha uma importância extrema o atleta, o técnico, terem essa sensibilidade. O desporto é uma grande ferramenta para a consciencialização de problemas de racismo, femicídio. Cada um tem de saber combater ao máximo esse tipo de situações, cada vez mais recorrentes, que vão aumentando. Ficamos muito preocupados, porque o futebol só devia trazer alegria e entretenimento. E aqueles que são os nossos ídolos também o devem ser, alçando a voz, combatendo desigualdades, denunciando o racismo, integrando os povos indígenas, falando do femicídio e de toda a violência contra as mulheres. Tentei fazer o melhor trabalho no Ministério, ao nível da consciencialização, para fazer diminuir casos de agressões.
Ficou, porém, uma participação curta no Governo?
-Deixei a política para trabalhar com atletas, voltando ao lado desportivo.
Dengue impediu o sucesso em Itália
Lembro que o Athirson saiu como muito promissor do Flamengo para a Juventus. A carreira na Europa deixou a desejar, faltou uma sensação de realização compatível com as expetativas?
-Eu saí do Brasil para a Itália com um problema sério: dengue hemorrágico. Atrapalhou-me e não sabia o que tinha. Num primeiro momento, pensaram que era leucemia; foram feitos todos os exames e havia a dúvida sobre o que seria para iniciar o tratamento. Vim para o Brasil depois das férias e só podia voltar a jogar se recolocasse no organismo 100 mil plaquetas. Quando cheguei, tinha 5000, estava muito debilitado, física e mentalmente. Não podia render, mas tentei concentrar-me em recuperar para o Mundial de 2002. Acabei por não ir, porque tive pouco tempo de jogo e não rendi o esperado em Itália. Mas, na Alemanha, já joguei bem. Fui titular, mas também tive uma dificuldade grande, um problema de saúde da minha filha, que levou a um período de tratamento, numa fase de muitos interesses.
Passar por essa Juventus terá sido inesquecível mesmo jogando pouco, havia Zidane e Del Piero...
-A vida no estrangeiro deu-me muita aprendizagem; cresci, evoluí e aprendi. Recordo o tempo com Zidane: era incrível dentro e fora do campo. O meu pai dizia-me que o viu aplaudir uma jogada que fiz. Essa honra não tem preço. Foi extraordinário ter estado ao lado desses craques, mas o problema de saúde interrompeu o meu trabalho, impedindo-me de mostrar a minha melhor versão para estar ao nível que queria e acompanhar da melhor forma Del Piero, Nedved, Davids, Buffon, Van der Sar e Montero. Foi um tempo incrível.
E essa experiência com Ancelotti também imagino marcante. Boa escolha para a seleção canarinha numa fase tão difícil?
-Ancelotti foi uma grande escolha, pela pessoa que é e pelo fantástico treinador que é. É um incrível campeão, sabe como ninguém fazer a gestão de um elenco, de um grupo, além de ser capaz de mover uma equipa taticamente. É uma figura extraordinária; acho que foi a melhor opção, mesmo com essas boas soluções chamadas Jesus e Abel.
E o Flamengo parece ter caído nas melhores mãos, de um amigo como Filipe Luís, fazendo essa dobradinha? Mantendo esse legado do Jesus...
- Ouvir do Filipe Luís, dizendo que se inspirou em mim, é muito honroso. Acho que teve essa inspiração de querer ser como eu enquanto jogador. E fez grande carreira! Agora faz outro grande trabalho, estando muito bem cotado nessa renovação de treinadores no Brasil. Foi grandioso o que fez no Flamengo. Os portugueses vieram e ajudaram muito, influenciaram novas posturas, trouxeram outras filosofias e uma atitude diferente. Quando veio Jesus, modificou tudo; ele provocou uma transformação do futebol brasileiro.

Jesus trouxe quem entendia o seu perfil
Athirson reconhece o papel transformador de um técnico português no Brasil. "O Jesus conseguiu chegar e fazer um grandioso trabalho, mesmo com as dificuldades iniciais de abordar uma nova cultura, bem diferente. Colocou as suas ideias, o seu modelo, trouxe os jogadores que entendiam bem o seu perfil. Foi um grande trabalho recheado de títulos. Outros portugueses vieram e não deram certo. Outros deram-se muito bem. A língua é facilitadora e a comunicação é fundamental no futebol".
Abel tem sido mestre em atualizar-se
Apesar de ser Flamengo, Athirson também reflete sobre a marca lusa no Palmeiras. "O Abel marcou de forma muito concreta o seu legado, no que toca ao estilo de jogo, à gestão do plantel, sendo alguém que está sempre a atualizar-se e a reforçar a equipa sem muitas oscilações. O Botafogo teve o Luís Castro e o Artur Jorge, que deixaram a sua marca, e eu vejo com agrado esse perfil técnico e tático que o treinador português tem deixado aqui".
Orgulho pessoal pela seleção feminina
Com visão estreita e cúmplice, Athirson sustenta que "o futebol feminino foi uma preocupação forte da minha parte, com a ideia de valorizarmos cada vez mais o potencial da nossa seleção." A realidade está à vista. "Vemos o Brasil a conquistar títulos, a revelar muitas estrelas, estando também alinhado com este sucesso um melhor trabalho na base".
Loucura de estrelas no Mengão
Athirson avalia com distinção a história escrita no poderoso clube carioca. "No Flamengo deixei um legado gratificante e honroso, ao ser ídolo de uma das maiores 'torcidas' do mundo. Fui reconhecido como um dos melhores laterais-esquerdos. É sinal que deixei uma grande influência e não tem preço ter jogado com Bebeto, Romário, Renato Gaúcho, Ricardo Rocha ou Júnior Baiano. Foi prazeroso e fiz grandes amigos".

