Tiago Martins não pagou o jantar, mas está tudo bem com Soares Dias

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 foto Ivan Del Val/Global Imagens

Árbitro e VAR da final da Taça de Portugal, que estarão juntos no Mundial da Rússia, estiveram esta segunda-feira num congresso a falar sobre o VAR e com um cenário à medida de um lance polémico do Jamor.

Menos de 24 horas depois de terem estado juntos na final da Taça de Portugal, os árbitros internacionais Artur Soares Dias e Tiago Martins voltaram a fazer equipa, desta vez num painel dedicado ao videoárbitro (VAR), no XIV Congresso Internacional de Futebol do ISMAI (Instituto Superior da Maia) em que o primeiro abordou a questão da "linha de intervenção", adequada à explicação de um lance que lhes valeu duras críticas, no Jamor. É claro que Artur Soares Dias não se referiu especificamente à falta sobre o sportinguista Gelson Martins, no início do lance que conduziu ao 2-0 para o Aves (viria a vencer por 2-1), uma vez que esse tipo de comentário é interdito aos árbitros. Em abstracto, porém, escolheu o exemplo de uma falta para explicar que, por vezes, mesmo perante o que é evidente para muitos, o VAR não pode intervir, porque assim manda o protocolo. Quanto lhe perguntaram se o lance de Gelson Martins encaixava no cenário apresentado e o questionaram sobre as consequências de uma tal situação no relacionamento dos árbitros, sorriu e assegurou que, entre ele e Tiago Martins, está tudo bem: "O Tiago, ontem, não me pagou o jantar, mas costuma pagar muitas vezes. Mas temos muito boa relação, gosto de fazer VAR ao Tiago e ele a mim. A relação entre os árbitros é boa e mantém-se. Não vou comentar os lances do jogo, apenas dizer que nós vemos os jogos antes, depois e durante, às vezes mudamos opiniões, outras mudamos, mas, somos sempre falíveis".

Para trás ficara uma mini aula sobre o VAR. "Algumas das vezes, temos uma opinião totalmente diferente daquilo que se está a passar, mas, devido ao protocolo rígido, deveremos ter o cuidado de pensar que está um colega árbitro lá dentro que poderá ter uma opinião diferente, como tal, a situação não é clara e não é óbvia - são as palavras que estão no protocolo - e suficientemente clara e óbvia para nós intervirmos e contrariarmos uma outra opinião de um colega que está dentro do relvado", explicou o internacional escolhido pela FIFA para estar no Mundial da Rússia como VAR, de novo em equipa com Tiago Martins.

Paciente e detalhadamente, Artur Soares Dias fez um exercício que podia ser de defesa das críticas que o VAR e o árbitro do Jamor receberam, embora tenha sido lançado em abstracto: "Este deverá ser o ponto fulcral nesta função. Acreditem, nós não somos cegos, somos pessoas com capacidade mental, visual, e estamos no VAR e vemos as situações que vão ocorrendo. Algumas das vezes, vocês, em casa, pensam: mas por que carga de água o VAR não intervém? Não intervém, mas não é porque não está a ver, que fique bem claro. Nós somos competentes, somos sérios, somos corretos. Simplesmente, o protocolo assim o diz, que poderá não ser claro, não será o suficiente para a intervenção. Depois, somos escrutinados pelo nosso desempenho e crucificados. Devíamos, se calhar, nesse momento, comentadores e árbitros, estar todos sentados na mesma sala, porque nós somos sujeitos a uma formação que nos encaminha para um determinado sentido e depois, a seguir, os comentadores vêm noutro".

"Hoje, temos dois jogos no mesmo jogo. Um da realidade que é o que se passa no campo e no VAR também, porque estamos sujeitos, mais coisa menos coisa, à mesma pressão e vicissitudes; e depois, um outro jogo, calmamente, no sofá, onde todos somos escrutinados e apontados como falíveis que somos e que cometemos erros, que fique bem claro que cometemos erros", insistiu: "Podemos estar todos de acordo que determinada situação é falta; poderá, porventura, para outra pessoa, não parecer faltar; e poderá para outra pessoa, noutra esfera, noutro nível, pensar se aquela falta é susceptível de intervenção ou não. Temos aqui diferentes níveis de abordagem em que todos podemos ter uma ideia diferente e pensar de forma distinta. Porque eu posso achar que é falta, mas não é suficiente para intervenção; e posso achar que é falta e é suficiente para intervenção, e há aqui vários níveis de abordagem à mesma jogada".